No dia 16 deste mês, os jovens Car Seat Headrest lançaram uma regravação de um dos seus mais antigos álbuns: Twin Fantasy. Passado cerca de 6 anos e meio desde a sua publicação (2 de novembro de 2011), a nova edição traz de novo as músicas do disco, mas com um outro estilo completamente diferente.

De volta às origens. Os Car Seat Headrest estão no ativo desde 2010, altura em que começaram a lançar as suas criações no Bandcamp. Esta é uma plataforma online formada em 2007, que possibilita a divulgação e venda de álbuns de artistas independentes. Era via streaming que as pessoas (e também as editoras) iam conhecendo os novos músicos que iam aparecendo.

Foi mesmo aí que Will Toledo, vocalista da banda, começa a sua aventura musical, inicialmente a solo e só mais tarde com o conjunto original. Ao todo, foram nove os álbuns que a banda lançou no Bandcamp, sendo um deles Twin Fantasy. Em 2015, o sonho dos artistas foi concretizado, iniciando a parceria com a Matador Records. A partir daí, os concertos foram cada vez mais frequentes, lembrando a sua vinda a Portugal por duas vezes (NOS Primavera Sound em 2016 e Vodafone Paredes de Coura em 2017).

Acerca de Twin Fantasy

Tal como muitos outros que foram escritos pelo génio de Toledo, o sexto álbum da banda tem líricas de elevada qualidade. Conserva temas como uma solidão vista de uma perspetiva otimista, presente logo na primeira canção, My Boy (Twin Fantasy).

Neste disco, Will evoca muito a literatura nas canções. Vemos em Beach Life-In-Death, onde há uma referência ao poema “O Conto do Velho Marinheiro” de Samuel Taylor Coleridge. No poema, há uma personagem conhecida como “Life-in-Death” que amaldiçoa os marinheiros pelos seus pecados. Também, em Nervous Young Inhumanso próprio cantor, mais tarde, afirmou que se baseou no livro Frankenstein, de Mary Shelley, para escrever a letra. Com a sua habitual perspicácia, Toledo semeia sempre um pouco de intelectualidade nas suas líricas.

Há outros temas que não são tão gerais, mas interessantes pela sua peculiaridade . Em Bodys, a personagem da música está num contexto social que envolve dançar bastante. Assim, ele entra num processo de avanço/recuo, onde por vezes sente-se desconfortável e até crítico com o ato de dançar, mas noutros momentos diverte-se bastante. Quem nunca julgou algo antes de experimentar? Como diz Toledo na música: “So what?/We’re young”.

E claro, como perfeito adolescente de 19 anos que era, há três assuntos que não escapam: amor, drogas e álcool. Neste álbum, pode-se dizer que há um pouco de cada em todas as músicas. Em Bodys, refere muitas vezes a bebida e é o que o faz sair mais da sua zona confortável; em High to Death, o narrador implora “Keep smoking, I love you” e Sober to Death fala sobre dois amantes ligados pelos mesmos sofrimentos e é essa ligação que vai servir de conforto um ao outro.

Numa espécie de conclusão de um álbum que tem muito mais que se diga, é um excelente disco, tanto no estilo indie rock, mas também pelas letras mais que deliciosas. Eu diria que é um álbum perfeito para qualquer adolescente deste mundo.

Comparar os gémeos

A princípio parece um processo difícil, mas a verdade é que estes gémeos não são assim tão idênticos. Apesar das obras serem as mesmas, esta nova versão tem algo que a anterior não tinha e que faz toda a diferença: uma editora. O som é muito mais limpo e melhor.

Outra grande diferença está na voz de Will Toledo. O cantor sempre foi fã de introduzir um efeito de eco na voz. Este pormenor está presente até em Teens of Style, o penúltimo álbum da banda, mas foi abandonado e não surgiu muito no seu sucessor (Teens of Denial).

Logo na primeira canção, My Boy (Twin Fantasy), notam-se essas diferenças. Claro que escolher uma que seja melhor é muito subjetivo. Enquanto alguns prefiram um som mais limpo da música, outros preferem o som “rasgado” que é o original. Há canções que, de facto, podem ficar melhor com o som original, dando-lhe uma parecença a um rock dos anos 90.

Para esta nova versão, o conjunto quis também alargar algumas das músicas. Algo que nunca é demais no que toca aos Car Seat Headrest, já conhecidos pelos seus êxitos costumarem ter mais que cinco minutos. Neste disco, é o caso de Twin Fantasy (Those Boys) ou até Famous Prophets. Esta última até se podia dizer que a banda se esticou um bocado. Tendo a original cerca de 10 minutos, os norte-americanos acharam que não era suficiente, e adicionaram mais seis minutos.

No geral, diria que a banda fez um ótimo trabalho nesta repetição do álbum. Se o seu objetivo era melhorá-lo, tiram nota máxima. Havia músicas, como a Sober to Death e até a longa Famous Prophets, que ficaram perfeitas nesta regravação. Por vezes, fazer um processo destes pode ser desastroso. Poderiam estragar as canções para os mais dedicados fãs, mas acho que não foi o caso. O quarteto tem impressionado bastante com a qualidade do seu trabalho e não restam dúvidas que serão a banda do futuro do indie rock.

Para aceder ao Twin Fantasy original, clica aqui.