Mais de 20 anos passados desde o lançamento do primeiro disco, Cristina Branco apresenta agora o novo álbum Branco. A digressão, que já passou por Ílhavo, Viseu e Paris esteve, este sábado (24), em Braga num concerto intimista e recheado de histórias. Um dia depois de o disco estar à venda, o Espalha-Factos assistiu ao concerto e falou com a cantora. Uma entrevista sobre a vida, a carreira e as expectativas da fadista que deixou de lado o fado.

Foi no Theatro Circo, apelidado pela própria cantora como “uma das salas mais bonitas do país“, que Cristina Branco apresentou o seu novo trabalho. São 12 canções, escritas por 8 autores diferentes. Muitos são os mesmos do álbum anterior, Menina. Algo que, para a cantora “fazia todo o sentido”.

Cristina Branco lançou o seu primeiro disco em 1996, na Holanda. Foi após ter participado num programa de televisão em Portugal que surgiu o convite para gravar em Amesterdão. O seu percurso foi sempre marcado pelo fado, pelo menos até 2016, ano em que lançou um álbum de viragem no seu registo musical. Menina foi considerado, pela revista Blitz, o terceiro melhor disco de 2016.

Foi com um “Até sempre Braga. Vocês são sempre maravilhosos”, que Cristina Branco encerrou o concerto. Quem assistiu não podia ter pedido melhor, é o que diz Maria do Carmo, que afirma ter ido ao concerto sem saber bem o que esperar. Ao seu lado, o seu marido enfatiza o facto de músicos tão jovens “fazerem um trabalho musical de tão grande qualidade”.
Referidos pela artista várias vezes, os autores e compositores das canções de Branco são, para a cantora a peça chave do disco. Sérgio Godinho, Filipe Sambado, André Henriques, Beatriz Pessoa ou Mário Laginha são alguns dos nomes que compõem este disco.

As diferenças entre a fadista dos anos 90 e a cantora que apresenta agora o seu novo álbum. O significado do Branco e as histórias de uma carreira internacional. O Savoir Faire de Cristina Branco, em entrevista.

Sinto-me livre

Mais de 20 anos depois do seu álbum de estreia, como analisa a sua viagem pelo mundo da música? O que mudou desde o álbum “Cristina Branco in Holland”?

Tem que mudar tudo, porque apesar tu seres a mesma pessoa, tens um percurso e à medida que vais vivendo e que vais tendo experiências isso tem de te mudar. Se não te mudar alguma coisa está errado. Nós somos permeáveis e tudo é passível de ser questionado por nós. E é assim que tu fazes o caminho. É óbvio que há 20 anos eu era outra pessoa, era outra cantora, tinha outro tipo de personalidade. Tudo parecia mais fácil, mas ao mesmo tempo não tinha nem a experiência, nem o savoir faire que tenho hoje. Prefiro de longe que tenham passado 20 anos, porque na verdade sinto que cheguei agora à minha juventude. Eu comecei por ser muito mais velha, muito mais assombrada por uma data de espectros, que eu achava que tinham de ser os cânones, fosse do fado fosse da vida. Hoje sinto-me livre de tudo isso.
Quais as principais diferenças entre o álbum Menina, que lançou em 2016, e o novo disco? Podemos vê-lo como uma continuidade do trabalho iniciado?

Para mim o Menina é um disco de transição. Ele serviu para ficar paredes meias com aquilo que estava a ser feito anteriormente e com qualquer coisa de novo. Aquilo que eu chamo hoje o meu novo normal, que é o Branco. Eu creio que dois anos volvidos sobre o disco Menina muita coisa passou no meu rio e no de quem escreve para mim. Portanto, é obvio que já não pode ser a mesma coisa. Eu não quero pensar que é a continuidade. É um momento novo. Para mim é o normal, é aquilo que eu queria fazer.

Porquê Branco? Funciona mais como uma referência o seu nome enquanto artista ou ao significado da cor em si?

Foi tudo. Aproveitar aquele que é o meu sobrenome e explicar uma série de coisas que eu acho importantes. Nomeadamente dizer que Branco é a união de todas as cores, e que não há preconceitos em ir buscar pessoas de outros quadrantes musicais para a minha música. Dizer também que ser multicolorido é muito mais o que está a dar neste momento. Eu acho que tudo é possível, porque tu vives tão rapidamente. O mundo passou a ser uma coisa tão pastilha elástica, que tu tens de te defender. E acho que a forma de nos defendermos é exatamente acolher e aglutinar o máximo de informação possível, sem nenhuma espécie de preconceito.

Imagem do novo álbum “Branco”

O sucesso do álbum Menina foi o principal motivo para repetir muitos dos nomes dos autores que escrevem agora no seu novo disco?

Ajuda, claro. Tu sentires que as pessoas gostaram do que está naquele disco dá te segurança. Acontece que não foram só as pessoas que gostaram, porque eu também adorei a experiência. Sei lá, falamos a mesma língua. E depois há uma coisa que é muito subtil e que é inerente a todos os temas, e que também existe no Menina, que é uma certa melancolia, que tu pensas que não existe na música desta gente de outra geração. De repente apercebeste que não é verdade, que é algo que atravessa todas as gerações. E atravessa porque nós somos portugueses, faz parte do nosso ADN.
No álbum Branco encontramos 12 canções de oito autores diferentes. É fácil criar unidade num disco com tanta diversidade de escrita?

A ideia é essa. Sei lá, é como um quadro do Pollock. Tens uma data de baldes de tinta das cores todas, pois tudo lá para cima, e fazes uma peça de arte.

Costuma dizer aos autores o que quer em concreto ou dá-lhes liberdade para criarem o que acham que se enquadra melhor no seu registo?

Até ao Menina, aquilo que eu sempre fiz foi criar uma linha condutora para que todos escrevesses sobre a mesma coisa. Foi no fundo orientar toda a gente para o mesmo tema. Aqui foi precisamente o contrário, foi dizer para escreverem sobre o que quisessem.

Não sei fazer, nem posso fazer, um concerto sem fado

Embora tenha alterado o seu registo musical e deixado o fado um pouco de parte nestes dois últimos trabalhos, este estilo musical continua a ter uma grande influência na maneira como se apresenta em palco?

Não como eu me apresento. Isso está naquilo que se convencionou ser a apresentação cénica do fado. Aliás isso foi algo que eu nunca acreditei particularmente e que, neste momento, resolvi abandonar por completo. Até porque a mensagem que passa no disco é de urbanidade. No entanto o fado é a minha essência, porque é de ali que eu venho, porque foi ali que aprendi a interpretar os textos. É onde eu começo a minha entrega, é como se fosse o meu ponto de partida para tudo mais. É uma espécie de bolha, onde eu primeiro estou sozinha para poder dar aos outros. É uma energia, há coisas que não consegues explicar por muito que tentes. Eu não sei fazer, nem posso fazer um concerto sem fado. Não estaria a ser honesta nem comigo nem com as outras pessoas.

Do que fala este novo disco?

Este disco fala de pessoas, de gente, sem género, sem credos, só porque sim. Pessoas que estão a acontecer neste momento, que tu conheces e que eu conheço. No fundo é a humanidade ao espelho, são vários retratos. Quando as pessoas me fazem esta pergunta eu crio um boneco, quase como uma defesa, como crio quando estou a construir o disco. Isto é como se fosse um jantar em casa da avó e ela tem 12 netos diferentes, cada um mais louco que o outro. Eles vão contando as suas histórias. E tu, ouvinte, identificas-te com cada um deles, seja porque um pedacinho de ti, como de mim, também está em sintonia com essa pessoa.

Como foi atuar em Paris no inicio deste mês? Sente que as pessoas sabem quem é a Cristina Branco de 2018 ou ainda a vêm muito como a fadista dos anos 90?
Eu senti imenso que uma boa parte do público tinha comprado o bilhete para ir ver a outra Cristina, antes do Menina, a fadista possivelmente. O concerto começa e tu sentes que há um restolhar na sala. Parece que há um incomodo na sala e isso é uma coisa que me dá imensa emoção, porque eu penso assim: bolas, as pessoas compraram o bilhete para vir ver aquela, mas estão aqui meio desconcertadas, porque não sabem o que vão ouvir, mas estão a gostar. Sabes, 20 anos depois tu conseguires mexer com as pessoas, não é para todos. É preciso consistência, e isso eu sei que tenho.

O que a fez começar a apresentação deste novo álbum por cidades mais pequenas como Ílhavo, Viseu e só mais tarde passar pelas grandes cidades?

Portugal tem mais ou menos 600km, e não pode ser apenas Lisboa. Tens que ir ter com as pessoas, olhá-las nos olhos. A história das redes sociais e dos e-mails tem que deixar de ter tantos filtros. Não a desaparecer porque já não sabemos viver sem isso. Tu tens que ir ter com as pessoas, têm que te ouvir dizer a tua verdade, falar do teu normal. Não pode ser só uma cena cor-de-rosa, do género: estamos aqui em Lisboa num hotel cinco estrelas a fazer poses. Não! Eu quero falar com as pessoas e quero dizer o que é o Branco.

Branco já está à venda e a digressão de Cristina Branco continuará. Nos próximos meses a cantora pisará vários palcos europeus. Vê aqui todas as datas.