Saído da estação de Multi-Love, o comboio dos Unknown Mortal Orchestra parte para um novo destino. O piloto, Ruban Nielson, rasga a velha indumentária da sua pop sintética e inventiva, mutável, costurada com retalhos dos anos 80. Que se danem as vestes padronizadas, nunca lhe ficaram bem; que venha algo com estilo, mas cru. Assim retorna ao uniforme rock, almejando fazer justiça a uma estética que irritantemente proclamam morta há anos. E torna-a numa criação tão violenta como idiossincrática.

Em American Guilt, esta subversão soa a um desejo de carnificina, uma fúria de viver. A sonoridade da canção escrita e produzida por Nielson é como uma transposição de Prince no seu álbum de 1981, Controversy, para algo mais denso e sanguinário, sacrificando algum groove pelo motor de uma força demolidora. Daí que a base seja um riff de guitarra brutal, quase lascivo, lembrando todo o tipo de obscenidades.

Talvez delas decorra a culpa que dá título ao single. É difícil dizer, já que a canção é posta em termos abstratos e descontínuos. Pela voz tipicamente alterada de Nielson, surge um sortido de menções díspares: ao México, onde parte do disco foi gravado, ao receio da vigilância intrusiva que hoje motiva os jovens a tapar a sua webcam, à opulência e ao nazismo. Uma possibilidade é que se continue aqui uma nota temática de Multi-Love. Lançado em 2015, o disco hedonista e do poliamor vinha também bafejado pela exaustão, com alguns remorsos propiciados pelo excesso, que poderão estar a ser retomados aqui. Seja como for, American Guilt deixa-nos uma mensagem críptica.

Sem equívocos: este extrato do novo LP dos Unknown Mortal Orchestra é um regresso irreverente e fantástico, mas evade-se da perfeição mecanizada nos melhores momentos da sua discografia. A primeira falha configura-se na repetição desmesurada do riff, mas que, mesmo em dose excessiva, é irresistível. Poder-se-ia ignorar a redundância, todavia a rigidez da estrutura só torna a repetição mais visível, além da duração indulgente de quatro minutos e meio. Nielson podia querer mais tempo para dizer algo, mas as letras, embora provocatórias, são esparsas e algo inconsequentes, sem chegar ao nível acutilante do instrumental. Fazia falta à composição dinamismo adicional e à temática uma melhor concretização. Ainda assim, nada ofusca a mestria de um som devastador e intransigente e da melodia, que se aloja permanentemente na memória.

O vídeo, feito pelo animador Greg Sharp, apresenta uma mosca num quarto repleto de lixo consumista: sapatilhas, fast food, pornografia. Será que os Unknown Mortal Orchestra estão a condenar a boémia do passado e a admitir a sua culpa? Assim o veremos no sucessor, Sex & Food, que a Jagjaguwar edita no dia 6 de abril. Felizmente, é sempre possível atingir a redenção.