O Paradoxo Cloverfield  é a mais recente entrada num dos marcos do cinema do século XXI. O nome Cloverfield tem, independentemente da sua qualidade, arrastado cinéfilos e conspiradores há uma década. O Paradoxo Cloverfield deixa a sua marca – mas pelo estilo, não pela substância. O filme não dá respostas, evoca ainda mais questões e, quando visto com pragmatismo, é invariavelmente mau.

Cloverfield é talvez sinónimo do maior franchising da atualidade cinematográfica. Cloverfield é fruto dos esforços de uma equipa de marketing profundamente inovadora e do currículo do seu “líder”,  J.J. Abrams. Mas vamos por partes, já que é necessária uma breve contextualização.

O contexto necessário

Há dez anos atrás, estreava Nome de Código: Cloverfield. O filme, realizado por Matt Reeves, foi um dos maiores sucessos de 2008 e tinha alguns interessantes cartões de visita. O primeiro era a produção de J.J. Abrams, realizador e responsável pela série Lost. O segundo foi o seu estilo pouco ortodoxo, filmado em primeira pessoa e em estilo found footage (evocando Blair Witch Project). O terceiro foi a sua campanha de marketing.

Nome de Código: Cloverfield mostrava o ataque de um monstro à cidade de Nova Iorque. Mas toda a história do filme foi envolvida num enorme secretismo. As poucas explicações existentes foram dadas ao espectador de forma invulgar e subtil, divulgadas pela internet. E este tem sido o segredo do sucesso de Cloverfield.

A ânsia e o desejo do público em conhecer o máximo, moldaram um franchise que tem sobrevivido ao revelar o mínimo.  Seguiu-se 10 Cloverfield Lane, em 2016, uma “sequela espiritual” (termo bem moderno e adequado). O filme, apesar da sua qualidade,  em quase nada se relaciona com o original.

Créditos: Divulgação

O embrulho bonito

E isto traz-nos a O Paradoxo Cloverfield, dois anos depois. Desta vez, a Netflix escolheu associar-se ao nome Cloverfield, juntando-se duas marcas de enorme sucesso e popularidade. O marketing foi, novamente, genial. O Paradoxo Cloverfield foi anunciado pela primeira vez no Super Bowl (até o título era secreto!) e ficou disponível… no mesmo dia.

No que toca à promoção e divulgação do seu material, O Paradoxo Cloverfield está bem e recomenda-se. Mas, ultrapassados os artefactos e embrulhos, o resultado final é medíocre, enganador e roça o embuste. Um pouco como o próprio franchise, O Paradoxo Cloverfield é uma mão cheia de nada. Não só é insuficiente enquanto parte do universo Cloverfield, como é francamente mau enquanto filme isolado.

Em 2028, o planeta Terra sofre com uma crise energética global. A humanidade arrisca tudo, lançando a Estação Cloverfield, composta por uma pequena tripulação, para testar um acelerador de partículas. Este dispositivo poderá proporcionar à Terra uma fonte inesgotável de energia caso funcione. Mas os perigos de interferir com o tempo e o espaço provam ser demasiados.

Créditos: Divulgação

As duas facetas

Vejamos O Paradoxo Cloverfield enquanto filme isolado. Para o espectador que desconheça o contexto, O Paradoxo Cloverfield é medíocre. A premissa interessante rapidamente dá lugar a uma série de lugares comuns do género. Diálogos pouco credíveis, personagens de cartão e um sem número de falhas na lógica são a palavra de ordem.

Sucedem-se as cenas sem nexo que, com tanta falta lógica, recordam a escrita preguiçosa de Prometheus. O filme cedo se transforma, aliás, num semelhante survival horror. Já o orçamento mais modesto e a surrealidade dos diálogos (alguns constrangedores) dão a O Paradoxo Cloverfield uma aura… “chunga”.

E quanto às respostas prometidas a todo o mistério Cloverfield? Poucas, insuficientes, nulas. O espectador é envolvido numa teia de dimensões paralelas, continuum espaço-temporal, passado e futuro. Tirando a última cena, que de facto estabelece algum tipo de ponte com o filme original, pouco mais há a registar.

O Paradoxo Cloverfield perde uma oportunidade de ouro para fechar o ciclo e oferecer alguma explicação conclusiva aos filmes anteriores. É desonesto naquilo que promete e preguiçoso no que concretiza. O resultado é uma amálgama de cenas desconexas que, na prática, nada acrescenta. Nem ao género, nem ao franchise.

Para o espectador mais ávido de explicações, há solução. Um fast-forward até aos últimos 30 segundos do filme, seguindo-se uma consulta à tagline do poster e uma (re)visão de 10 Cloverfield Lane, o único filme de real mérito.

4/10

Título original: The Cloverfield Paradox
Realização: Julius Onah
Argumento: Oren Uziel
Elenco: Gugu Mbatha-Raw, Daniel Bruhl, David Oyelowo e Chris O’Dowd.
Género: Ficção científica, suspense.
Duração: 102 minutos