O grupo francês Altice, atualmente detentor de marcas portuguesas como a PT e a MEO, anunciou esta semana que iria pôr fim ao serviço de streaming MEO Music.

O grupo comunicou a sua decisão aos clientes da MEO esta segunda-feira, dia 12 de fevereiro, através de um e-mail onde era referido que o serviço seria descontinuado no dia 28 deste mês.

Comunicado da Altice, enviado via e-mail aos clientes

Interpelada pelo jornal ECO, a Altice justificou a descontinuação da aplicação MEO Music afirmando tratar-se de um “movimento de revisão estratégica” em termos empresariais e prometendo, em sua substituição, “novos benefícios” e um conjunto de serviços inovadores para que os consumidores continuem a aceder a uma oferta diversificada de conteúdos de música.

“Num movimento de revisão estratégica da sua atuação na música e consciente da relevância e do valor emocional inerentes à música, a Altice Portugal avançou com uma forte aposta em várias áreas com o objetivo principal de reforçar o foco na experiência proporcionada pela música” declara o grupo, em resposta ao ECO.

Decisão provoca queixas dos clientes

Todavia, a decisão de suprimir os serviços oferecidos pelo serviço MEO Music está a gerar alguma controvérsia. Embora não esteja apurado o número exato de utilizadores da aplicação, estima-se que esta terá somado entre um e cinco milhões de downloads em lojas digitais de apps. Além disso, a MEO Music era frequentemente apresentada em destaque e com boas recomendações da parte dos seus utilizadores.

De momento, o grupo anuncia, no site oficial da MEO, a substituição da aplicação pelo francês Deezer, uma aplicação de música com funcionalidades semelhantes. No entanto, há outras hipóteses ainda não descartadas, como uma parceria com o Spotify ou a Apple Music.

Há-que considerar ainda, neste “leque de possibilidades”, a própria aplicação Altice Music, já disponível na República Dominicana, que poderá representar uma aposta do grupo, futuramente também no mercado português.

Ainda que sem adiantar muitas mais informações quanto a um provável sucessor da aplicação MEO Music, o grupo fez ainda uma outra declaração: “A Altice Portugal tem procurado surpreender os amantes da música com experiências marcantes e únicas no país. Fruto deste maior foco na vertente da música, ao vivo, no âmbito do qual terá em breve novidades, a Altice Portugal descontinua o serviço MEO Music a partir de 28 de fevereiro e disponibiliza uma ampla oferta de substituição para os seus clientes, em complemento a todas as atividades em que marca já presença nesta área”.

MEO Music em comparação com as outras aplicações de streaming

Muitos consideravam, de certa forma, o MEO Music uma espécie de “Spotify português”, não deixando, porém, de ter em conta as especificidades, vantagens e desvantagens de cada uma das aplicações de streaming.

Em termos de catálogo, embora o número de álbuns e canções disponíveis em cada aplicação não tenha sido determinado com exatidão, estima-se que tanto o MEO Music como o Spotify possuem na sua biblioteca mais de 30 milhões de músicas.

Além disso, sendo o MEO Music uma aplicação direcionada essencialmente para o mercado português, podemos encontrar na sua biblioteca alguns artistas e bandas que, eventualmente, poderíamos ter mais dificuldade em descobrir noutras aplicações – embora seja um facto que, atualmente, estejam cada vez mais artistas portugueses a aderir ao Spotify.

No entanto, além da audição em streaming de álbuns e de singles, o MEO Music oferece ainda a possibilidade de assistir a videoclips, sem qualquer impacto no consumo de dados – condição que não integra a oferta do Spotify.

Ainda assim, a diferença que mais sobressai na comparação entre as duas aplicações é verdadeiramente o facto de o MEO Music possuir tráfego ilimitado e sem quaisquer interrupções ou anúncios publicitários, algo que tem representado um problema para os utilizadores do Spotify que não possuem a conta Premium.

O preço Premium das duas aplicações é de 6,99 euros mensais, no entanto, no que respeita a modalidades de pagamento, o MEO Music oferecia mais alternativas. O preço descia para 4,99 euros ou mesmo para uma mensalidade gratuita, dependendo do tarifário, para todos os clientes MEO e, nestas condições, não eram necessários dados móveis para ouvir ou fazer downloads de músicas, embora estes últimos tivessem um número diário limitado. Este aspeto era sem dúvida uma das vantagens competitivas da aplicação face às concorrentes Spotify e Apple Music, entre outras que entretanto chegaram a Portugal.

Mesmo apesar de todas estas disparidades, o Spotify continua a distinguir-se como a aplicação com a maior comunidade de partilha de música no mercado, opondo os seus 100 milhões de utilizadores aos 15 milhões da concorrente Apple Music e aos 4,2 milhões do Tidal. O número de utilizadores do agora extinto MEO Music não está determinado.

Spotify

Em termos de oferta quantitativa, é mesmo a Apple Music que ganha o despique. A aplicação de streaming da Apple oferece o maior catálogo do mercado, apresentando uma biblioteca diversificada onde se contam mais de 40 milhões de músicas.

Apple Music

O Tidal é ainda apontado como a aplicação de streaming de referência para quem procura uma verdadeira qualidade de som. As diferenças em termos de qualidade de som, em comparação com outras aplicações, são pouco significativas quando utilizamos auscultadores normais.

No entanto, com auscultadores “a sério” ou com um sistema de som de gama alta, o Tidal permite ouvir música com compressão lossless – ou seja, a qualidade de som não se perde relativamente a um ficheiro não comprimido. Ainda assim, há-que ter em conta que esta possibilidade apenas é oferecida pela conta Premium mais cara da aplicação.

Tidal

Há-que considerar também, neste campo, a distinção da aplicação de streaming Bandcamp que, no seu conceito e estrutura, marca a diferença em relação a todas as outras.

A aplicação Bandcamp não permite criar playlists mas permite ouvir música em streaming sem pagar. Porém, as reproduções são limitadas: começamos a pagar no momento em que, a partir de um certo número de reproduções, escolhemos “apoiar o artista” e descarregamos uma música ou mesmo todo o álbum para ouvir offline. Neste ponto, é verdadeiramente o artista que define o preço e o utilizador decide se quer pagar o preço definido ou não. A conta “estilo premium” não tem mensalidade mas permite criar um perfil onde o utilizador pode exibir informação sobre o seu gosto musical pessoal, assim como as bandas que apoiou comprando álbuns ou singles da sua autoria.

O Bandcamp é uma aplicação mais dirigida para artistas independentes e pequenas editoras cujas páginas frequentemente contêm lojas online de merchandising.

Bandcamp

MEO e PT também vão terminar enquanto marcas

A holding, com sede nos Países Baixos, decidiu em maio fazer um esforço de globalização da marca Altice em todo o mundo, passando esta denominação a designar todas as operações geridas pela empresa a nível mundial.

Em Portugal, a PT e a MEO darão lugar, enquanto marcas, à Altice. A MEO Arena passou, no fim do ano passado, a designar-se Altice Arena.

Ao nosso país juntam-se outros, como a República Dominicana (pioneira no arranque da estratégia uniformizadora do grupo francês), Israel, EUA e, evidentemente, a própria França, onde o grupo já detém a SFR, segunda maior operadora de serviços de telemóvel e Internet do país – tendo como principal concorrente a Orange.

“Achámos que era o momento certo para ter uma marca única”, afirmou Michel Combes, presidente executivo do grupo Altice, à data. “Estamos a tornar-nos mais do que uma empresa de telecomunicações”.

Michel Combs; Altice

Michel Combes, presidente executivo do grupo Altice