Para quem ainda acredita que a arte e a ciência são imiscíveis, o segundo centenário do “monstro” mais famoso da literatura chegou, como prova do laissez-faire entre os dois. O livro de Mary Shelley ganhou uma nova edição, pela mão da editora Guerra e Paz, “contada tipo aos jovens” e um colóquio que vai decorrer a 27 de Setembro na Biblioteca Nacional em Lisboa.

Shelley

Foto: divulgação

Em 1818, Frankenstein: ou o Moderno Prometeu saiu para as bancas de Londres anonimamente. Shelley tinha apenas 21 anos e o primeiro exemplar com o seu nome só seria editado 5 anos mais tarde. Apesar de ter terminado de escrever a obra com cerca de 19 anos, a autora torna-se pioneira no estilo de ficção-científica, cunhando o género de forma imperial.

Duzentos anos mais tarde, não há livro que levante mais dúvidas e que, ainda hoje, desafie tanto a capacidade humana a uma resposta racional e objetiva. A relação da “besta” com o criador, os laços, o Homem em confronto com a máquina e o Homem como pai do que é desumano, são temas que estão na ordem do dia (talvez mais hoje do que estavam aquando da publicação do livro).

Menos sabido é que Frankenstein nasce de um desafio, muito antes de colocar um aos seus leitores. Lord Byron, figura central do romantismo com quem Mary privava, reuniu os amigos na sua casa no verão. Contudo, devido a uma tempestade – “o ano sem verão”, ficaram todos presos na residência em Genebra.

É neste contexto que Byron incita os seus convidados a escrever a mais terrível história de sempre. Deste mote lançado, nascem a obra-prima de Shelley e O Vampiro de John William Polidori – a ideia basilar do estereótipo de vampiro.

O romance gótico conta a história de Victor Frankenstein, um jovem cientista, que tenta conceber uma bela criatura através da junção de retalhos de cadáveres. Surge-lhe, no entanto, uma criatura abominável que ele próprio rejeita.

Com inspiração nas experiências de Luigi Galvani sobre a bioeletricidade e no titã da mitologia grega, Prometeu – que perpetrou o roubo do fogo de Héstia para o dar aos mortais, tendo sido, por isso, punido por Zeus que o amarrou a uma rocha por toda a eternidade – o clássico inspira, ainda, alguns dos maiores símbolos e ícones culturais associados à ficção-científica como Frankenweenie (2012) e The Rocky Horror Picture Show (1975). Este último, catalizador de um efeito cascata nos ecos produzidos pela obra do século XIX.

Legado semântico

Ao discutir limites éticos da ciência, o “efeito Frankenstein” é muitas vezes mencionado como sinónimo de avanços questionáveis na genética e inteligência artificial, tornando-se um exemplo do que pode acontecer quando a ciência vai longe demais. A comida modificada geneticamente também ficou conhecida por “comida Frankenstein”, selando assim o termo como sinónimo de aberração e estranheza. No entanto, é Mary Shelley que nos coloca a questão crucial: quem é o monstro afinal? O cientista ou a criatura?

Frankenstein, agora parte da coleção Os Livros Estão Loucos, está disponível na sua versão juvenil por cerca de 12 euros e por cerca de 7 euros na edição mais…assustadora.

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