Em entrevista ao New York Times, a atriz Uma Thurman partilha o seu lado da história no que toca às acusações contra o executivo de Hollywood Harvey Weinstein. E revela um cenário traumático com Quentin Tarantino.

Esta “história” é real, mas passa-se num cenário “degolador, imoral, vingativo e misógino” que parece saído de um filme clássico de Tarantino. Trata-se nada mais que o ponto de vista da atriz sobre a indústria do cinema norte-americano.

A narrativa começa bem antes do realizador fazer parte da vida de Thurman. Com apenas 16 anos, enquanto tentava lançar a sua carreira, a atriz foi violada em Nova Iorque por um ator anónimo “20 anos mais velho“. Só após o sucesso de Pulp Fiction é que Thurman conheceu Weinstein pela primeira vez.

Ele costumava passar horas a falar comigo sobre material [cinematográfico] e a elogiar-me e validar-me. É possível que isso me tenha feito descuidar os sinais de aviso. Ele era o meu campeão. Eu nunca fui uma “querida” dos estúdios. Ele tinha mão firme no tipo de filmes e realizadores que eram certos para mim,” confessa.

Um “tio” mais-que-excêntrico

As coisas descambaram uns tempos mais tarde. Durante uma reunião sobre um guião em Paris, o robe de Weinstein caiu. Thurman explica que, na altura, não se sentiu ameaçada. Afinal, Weinstein era apenas o “tio excêntrico“.

O primeiro “ataque” surgiu não muito depois, numa suite do hotel Savoy, em Londres. “Ele empurrou-me. Tentou fazer-se a mim, tentou expor-se. Fez todo o tipo de coisas desagradáveis, mas não chegou a forçar-me a nada.

Thurman diz que se sentiu como “um animal” a tentar torcer-se e esquivar-se. A atriz explica ainda que os assistentes de Harvey tinham um método especial para atrair atrizes para a “teia de aranha” do produtor. Pressionaram-na: Thurman voltou a encontrar-se com Weinstein, no mesmo quarto de hotel, com intenções de o confrontar com o sucedido.

“Se fizeres com outras pessoas o que fizeste comigo, vais perder a tua carreira, a tua reputação e a tua família, prometo-te.” O resto é um apagão na memória da atriz. A sua amiga Ilona Herman, que esperava no lobby do hotel, diz que “pareceu demorar uma eternidade” e que Thurman voltou “desgrenhada e a tremer”.

Daí em diante, a atriz, embrenhada em muitos projetos da Miramax, viu a sua carreira ameaçada. Sem voltar a dar hipóteses, Thurman confessa que só estava com Weinstein à luz do dia e na presença de outras pessoas. A animosidade entre os dois estava a afetar a parceria que tinha com Tarantino. Foi no festival de Cannes de 2001 que Thurman contou o sucedido e o realizador confrontou o parceiro e amigo de longa data, Weinstein. Mais tarde, o produtor pediu desculpa, assim como as suas declarações atuais confirmam. Thurman ficou até surpreendida e defendeu que “a terapia deve estar a resultar”.

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“O Harvey atacou-me, mas isso não me matou” revela a atriz. A gota de água foi, aliás, desencadeada por Tarantino. Nas gravações de Kill Bill, Thurman mostrou preocupação com o estado do carro que teria de conduzir. Tarantino assegurou que não havia motivos de preocupação, mas a situação acabou com um grave acidente. A atriz explica que achou que nunca ia voltar a andar, e que tem lesões permanentes no pescoço e joelhos. O que seguiu foi uma longa luta entre os dois para que Thurman pudesse obter o vídeo do acidente. Foram precisos quinze anos.

O evoluir de uma era

Sim, Uma Thurman está zangada, mas confessa estar também preocupada, pois sente-se mal em relação a todas as mulheres que foram atacadas depois de si. “Sou uma das razões pelas quais uma jovem atriz entrou no quarto dele sozinha, tal como eu entrei.” Thurman explica ainda que está na posição estranha de ser tanto uma vítima dos acontecimentos, como uma das pessoas que ajudou a encobri-los.

No que toca a Weinstein, a sua equipa está a considerar processar Thurman pelas acusações. O executivo nega qualquer episódio de violação, mas admite ter tentado seduzir a atriz há 25 anos atrás. “Porque é que Ms. Thurman esperaria 25 anos para discutir publicamente tal incidente e, de acordo com Weinstein, porque é que (…) incluiu falsas acusações de tentativas de ataque, é um mistério para Weinstein e os seus advogados.”

Mas a atriz não vacila. Mesmo com as lágrimas a escorrer pela cara, explica: “Pessoalmente, levei 47 anos para parar de rotular as pessoas que são más para mim como “apaixonadas” por mim. Levou muito tempo, porque acho que como raparigas novas somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor, de algum modo, estão ligados e esse é o tipo de era para fora da qual temos de evoluir.”