A Forma da Água, nomeado a 13 Oscars da Academia, chega agora aos cinemas portugueses. Realizado por Guillermo Del Toro, este é um filme metódico e perfecionista, mas que ao mesmo tempo nos encanta com o carisma e fragilidade que possui.

Talvez por uma conjugação de diversos fatores, desde ao elenco à fotografia, da banda sonora à direção de arte, A Forma da Água é já um dos filmes mais completos do ano. Tudo corre bem na equipa de Del Toro, que nos entrega mais um dos seus já habituais monstros para nos contar uma história fundamentalmente humana.

Divulgação – Fox Searchlight

Década de 60. Em plena era de grandes conflitos políticos e transformações sociais da Guerra Fria nos Estados Unidos, Elisa (Sally Hawkins), empregada da limpeza num laboratório secreto do governo norte-americano, afeiçoa-se a uma criatura fantástica capturada na Amazónia. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

É pela dicotomia monstro/humano que o filme se constrói. Desde o seu início percebemos bem a atitude e mensagem de Del Toro: humanizar a besta e demonizar o ser humano. É uma fórmula simples, já vista, e que é seguida à risca num filme que parece estar completamente estruturado desde o seu início, não deixando espaço para surpresas. Mas A Forma da Água, por mais estruturado que esteja, é uma película que tem a capacidade de nos surpreender nos momentos que menos esperamos e nisso, torna-se numa obra de uma exímia e inteligente realização.

Guillermo Del Toro habituou-nos já aos seus fantásticos e incríveis monstros. Ainda hoje em dia O Labirinto do Fauno (2006) continua a ser um dos maiores filmes cult feitos pelo realizador mexicano e da primeira década do novo milénio. Mas em A Forma da Água ele opta por contar um romance e usa e abusa da fórmula de Hollywood para gravar histórias de amores proibidos. Está tudo lá, todos os clichés e personagens-tipo (talvez o caso mais gritante é o Strickland de Michael Shannon, que serve apenas o propósito de ser um vilão, não tem qualquer outra funcionalidade no seu espectro).

Divulgação – Fox Searchlight

Mas rapidamente percebemos que a opção de contar uma história convencional, com uma estrutura da narrativa bem conhecida em Hollywood é também aquilo que joga em favor desta película. Del Toro fê-lo porque assim quis contar uma história de uma forma mil vezes vista mas ao mesmo tempo tornando-a única ao colocar um dos seus monstros a habitá-la. E, como espectadores percebemos que afinal é nesta colocação do monstro na narrativa que o filme se forma e não obrigatoriamente no romance.

São as reações dos humanos face a uma besta e da besta face aos monstros de forma humana que Del Toro quer trabalhar e tudo, na verdade, gira à volta daquele tanque cheio de verdume e sal.

Além da realização e de todo o trabalho técnico de louvar, talvez dos mais perfeitinhos que podemos ver este ano em sala, A Forma da Água conta com um forte elenco que se entrega por completo ao imaginário que Del Toro procura construir. Da Zelda de Octavia Spencer ao Giles de Richard Jenkins, passando claro pelo doutor de Michael Stuhlbarg e o demente Strickland de Michael Shannon. Tudo funciona.

E claro que temos de falar de Sally Hawkins, com a muda Elisa. Ela carrega e é o filme: peculiar, cativante, carismática, melancólica, surpreendentemente introvertida e de uma espantosa fragilidade. Hawkins não representa, ela vive e dança pelas composições de Alexandre Desplat e entre planos de Del Toro. É irrepreensível. É tanto ou mais mágica que o próprio monstro do rio por quem ela se apaixona.

A Forma da Água é, em suma, um filme muito redondo. No entanto formulaico. Mas é também nessa obediência de padrões que se encontra. É uma película de uma fragilidade imensa, mas não no mau sentido. Falo daquela fragilidade inerente ao ser humano, aquela que nos cativa e nos aquece, aquela excepcionalmente bem encarnada em Sally Hawkins e a sua Elisa.

Singular, fascinante, magnético, melancólico, surpreendentemente introvertido e de uma espantosa vulnerabilidade. Assim é A Forma da Água.

8/10

Título original: The Shape of Water
Realização: Guillermo Del Toro
Argumento: Guillermo Del Toro e Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Doug Jones, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg
Género:  Aventura, Drama, Fantasia, Terror, Romance, Thriller
Duração: 123 minutos