Está prestes a estrear a próxima grande aposta da Netflix. Baseada na obra homónima de Richard K. Morgan, Altered Carbon é uma série de ficção científica futurista. A série representa uma nova incursão num sub-género da ficção científica que já reuniu muita qualidade.

No século XXV, a consciência pode ser digitalizada e transmitida a qualquer corpo. Quando alguém morre, deve apenas trocar de corpo e retomar a sua vida. Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman) é um mercenário que viu a sua consciência congelada durante décadas, como pena. Kovacs é trazido de volta para um novo corpo para investigar a tentativa de assassinato de Laurens Bancroft (James Purefoy), o homem mais rico do mundo.

O cyberpunk é caracterizado pelo contexto futurista e distópico. São apresentados diversos avanços tecnológicos e científicos, contrastados com a degradação da sociedade. O cyberpunk foi impulsionado por autores como Phillip K. Dick e William Gibson, e livros como Neuromancer e Do Androids Dream of Electric Sheep?.

No cinema, o género cyberpunk fez-se notar em filmes como Blade Runner, Strange Days e a trilogia Matrix. Altered Carbon, embora no pequeno ecrã, é claramente uma nova entrada neste universo. Mas quais são os pontos de contacto com o género?

Altered Carbon

Foto: Netflix/Divulgação

A chuva e a noite

Claro que começamos por um dos cartões de visita do cyberpunk. O cenário distópico que o caracteriza tem determinados valores visuais que são indispensáveis. O clima chuvoso e noturno é inevitável, e reflete a distopia característica do género. Recordamos Blade Runner, absoluto pioneiro no género, e um filme onde é rara a cena passada num cenário distinto.

Altered Carbon evoca precisamente isto. Embora a ação não seja exclusivamente passada de noite, sucedem-se as cenas neste contexto. Destaque para uma das últimas cenas do primeiro episódio, em que o protagonista deambula pela selva urbana enquanto pondera uma decisão importante. A imagem, um dos principais elementos de marketing da série, é indelével e esclarecedora.

Um protagonista deslocado

Talvez o ponto-chave de todas estas histórias. Em Blade Runner, Deckard (Harrison Ford) reflete incompreensão e desencantamento com a Los Angeles que vê. Em Matrix, Neo (Keanu Reeves) é um estranho num mundo que desconhece por completo.

Em Altered Carbon, Takeshi Kovaks é um homem à parte de tudo o que o rodeia, de outro lugar e outro tempo. O mundo em que vive não é o seu, não o compreende, nem Kovaks o consegue compreender. E será esta permanente estranheza a liderar o espectador.

A cidade

Outro dos bilhetes de identidade do género. Prédios altos, constelações de edifícios e selvas de betão são elementos nucleares do género. Pensemos, novamente, em Blade Runner, Strange Days, Akira (o épico anime de 1988) e até Matrix, e não restam dúvidas. A cidade é uma personagem, e a urbanização da história e das vidas das personagens é constante.

Mas a cidade não é sinónimo de total progresso, entenda-se. Os arranha-céus misturam-se com a desolação, a utopia é distópica. Em qualquer material promocional de Altered Carbon é visível o impacto da desolada e futurista San Francisco em que Kovaks se move. Não é apenas contexto, não é apenas pano de fundo. A cidade ganha vida no género cyberpunk, talvez através da sua degradação, e é esse estado que lhe concede importância.

A heterogeneidade

Desde sempre que a heterogeneidade populacional foi palavra de ordem no género. Recordemos a indelével mulher nipónica que é protagonista de anúncios publicitários gigantescos, projetados em arranha-céus, no filme Blade Runner. Lembremos personagens chave na trilogia Matrix como Seraph (Collin Chou) e Keymaker (Randall Duk Kim). A humanidade não tem uma identidade definida, um lugar próprio, imiscuindo-se entre si e criando uma aleatoriedade confusa e hipnótica.

Veja-se o protagonista de Altered Carbon, Takeshi Kovaks, militar de origem japonesa e que é inicialmente interpretado por Will Yun Lee (o ator, esse, de descendência coreana). Posteriormente, Kovaks assume uma figura totalmente distinta, desta vez na pele do ator sueco-americano Joel Kinnaman. É notável a ponte de heterogeneidade entre a realidade e a ficção, das personagens aos atores.

Outra das protagonistas da série da Netflix é Kristin Ortega, detetive de origens latinas interpretada por Martha Higareda. Ortega é bilingue e alterna constantemente o dialeto consoante a personagem com quem interage. O espectador mais atento poderá recordar a célebre personagem Gaff (Edward James Olmos), o detetive do filme Blade Runner que desenvolveu uma linguagem de rua que alternava diferentes idiomas (incluindo o húngaro na primeira cena com Harrison Ford).

Altered Carbon

Foto: Netflix/Divulgação

A realidade virtual

É uma temática chave no género. Altered Carbon alterna constantemente entre dois momentos, separados por 250 anos. O espectador acompanha dois Takeshi Kovaks, um em pleno controlo do mundo que habita, e o outro a tentar (re)descobrir o seu lugar. Os flashbacks da série, que refletem o quão preso Kovaks ainda está ao seu passado, são uma constante. Por outro lado, Kovaks é também forçado a “mergulhar” em mundos adicionais, nomeadamente no decorrer de uma investigação em que conhece uma realidade virtual, ainda na fase inicial da série.

A pluralidade de realidades é uma temática intrínseca ao cyberpunk. Em Strange Days, Eddie Nero (Ralph Fiennes) vende a possibilidade de viver como outra pessoa mediante um aparelho ilegal. E, claro, em Matrix, Neo descobre que todo o mundo que julgava conhecer, é apenas uma realidade virtual.

Altered Carbon tem estreia marcada já para 2 de fevereiro e promete ser uma das grandes apostas da Netflix para 2018. Independentemente da sua qualidade, que será julgada pelo espectador, é sem dúvida uma entrada de peso num género muito particular.