Em semana de grandes estreias em Portugal, o destaque vai naturalmente para The Shape of Water. O filme representa o reconhecimento mundial de um reconhecido outsider de Hollywood. Guillermo Del Toro traz-nos uma fábula romântica, um subgénero muito característico do realizador.

The Shape of Water já venceu dois Globos de Ouro, uma panóplia de outros prémios, e é o grande favorito a conquistar a maior parte dos impressionantes treze Oscares para que foi nomeado.

Este filme é uma cura para mim

Guillermo Del Toro é um dos mais carismáticos e originais realizadores em Hollywood. O mexicano tem sabido alternar, com mestria, projetos mais pessoais com aventuras mais mainstream, embora nunca perdendo a sua identidade. The Shape of Water é um exemplo disto mesmo.

Del Toro idealizava o filme desde o ano 2011, tentando lentamente convencer distribuidoras como a Universal Studios a adotar o projeto. Em entrevista ao site IndieWire, Del Toro referiu-se a The Shape of Water como uma cura para si mesmo. “Estou há nove filmes a reformuçar os medos e sonhos da minha infância. Esta é a primeira vez que falo como um adulto, das coisas que me preocupam enquanto adulto. Falo de confiança, sexo, amor e para onde vamos. Estas não são preocupações que eu tinha aos sete ou nove anos.

The Shape of Water passa-se no ano de 1962, em plena Guerra Fria, em Baltimore. O filme conta-nos a história de uma empregada da limpeza muda, Elisa (Sally Hawkins), que trabalha num secreto laboratório governamental. No laboratório habita também uma misteriosa criatura, um humanóide aprisionado (Doug Jones). Os personagens irão desenvolver uma intensa relação romântica.

Del Toro está em casa, com The Shape of Water. O filme explora os temas da diferença, da tolerância e da compaixão, num contexto de pura fantasia. O realizador tem-se movido sempre nesta zona, com trabalhos como Blade II, Hellboy e Hellboy II: The Golden Army.

Mas a comparação inevitável recai sobre Pan’s Labyrinth. O drama fantasioso de 2006, que conquistou três Oscars da Academia, foi um marco na carreira de Del Toro. The Shape Of Water parece seguir a mesma tendência, com a crítica a considerá-lo o melhor filme do realizador desde, precisamente, Pan’s Labyrinth.

Aliás, dificilmente Del Toro reuniu tamanho consenso. O site Rotten Tomatoes indica uma taxa de aprovação da crítica de 92%, com um consenso que nos fala de “um Guillermo del Toro no seu melhor, visualmente. Mas aqui o visual é correspondido por uma história emocionalmente absorvente e personificada por uma magnífica Sally Hawkins.”

Eras capaz de te apaixonar por um homem peixe?

O IndieWire atribuiu a nota máxima e descreveu The Shape of Water como “um dos trabalhos mais espantosos e bem sucedidos de del Toro. Mas além disto, é também uma poderosa visão de um mestre criativo que sente totalmente e alegremente livre.” A Rolling Stone enalteceu a relação entre os dois protagonistas, “os dois amantes improváveis que nos seguram, mesmo quando o filme cai no tormento e tragédia. Del Toro é um artista do cinema de classe mundial. Não faz sentido tentar analisar como é que ele faz o que faz.”

The Shape of Water reúne também um portentoso, embora pouco mediático, elenco. A protagonista é Sally Hawkins, atriz inglesa vencedora de um Globo de Ouro pelo filme Happy Go-Lucky. Ao IndieWire, o realizador recordou a primeira conversa com a atriz sobre o papel, à saída de uma entrega de prémios. “Vi-a à porta, abracei-a e disse-lhe ‘Estou a escrever um filme para ti, eras capaz de te apaixonar por um homem peixe?‘, e ela diz ‘Óptimo!’.”

O reconhecimento

A acompanhar Hawkins estão Doug Jones, habitue de del Toro e de papéis semelhantes em filmes como Hellboy e Pan’s Labyrinth. Richard Jenkins, Michael Shanoon e a já oscarizada Octavia Spencer compõem o restante elenco. E é este que tem reunido grande parte da crítica positiva ao filme.

O reconhecimento tem chegado um pouco de todo o mundo e já se faz sentir também nos prémios especializados. The Shape of Water venceu dois Globos de Ouro, para melhor realização e melhor bandas-sonora (para o talentoso Alexandre Desplat). Mas a Academia foi ainda mais generosa, reunindo treze nomeações para o filme de del Toro. Destas se destacam a de Melhor Realização, Melhor Atriz, Atriz Secundária (para Spencer), Ator Secundário (Jenkins) e, claro, Melhor Filme.

Orgulho luso

Pelo meio, há ainda tempo para algum orgulho português. Luís Sequeira está nomeado para Melhor Guarda-Roupa. Em entrevista à TVI24, o lusodescendente descreveu o orgulho em participar no projeto. Este foi, aliás, o segundo que fez com del Toro, depois da série The Strain. “O convite para trabalhar neste filme surgiu a partir daí. Foi um filme em que todos pusemos o nosso amor. Este filme teve um orçamento de 20 milhões de dólares, o que no universo de Hollywood, é muito pouco. Tivemos de ser espertinhos.”

E quanto à pergunta sacramental? Luis Sequeira não acha que vá conquistar o Oscar:todos os nomeados têm carreiras mais longas do que eu, fico envaidecido de ter o meu nome ao lado deles, o resto vamos ver.” O espectador terá de esperar até 3 de março para saber se Luis Sequeira será um dos premiados.

Mas só precisa de esperar até dia 1 de fevereiro para ver o filme, que é a inevitável estreia da semana.