Chegou aos cinemas A Hora Mais Negra, filme que nos conta a história de um Winston Churchill, encarnado por Gary Oldman, acabado de ser nomeado como Primeiro-Ministro do Reino Unido e em quem recai toda a responsabilidade da defesa da democracia numa das fases mais negras da Segunda Guerra Mundial.

Nomeado ao Oscar de Melhor Filme, A Hora Mais Negra é o mais recente filme de Joe Wright, realizador de Orgulho e Preconceito (2005) e Expiação (2007). E, se Wright nos continua a proporcionar obras que nos fartam a vista e satisfazem os ouvidos, o realizador perde-se algures na técnica e entrega-nos uma película sem alma que confia em demasia na sua típica personagem “maior que a vida”.

Divulgação – Focus Features

A Hora Mais Negra recua ao ano de 1940. A Europa atravessa um período negro, com a Alemanha nazi a ganhar território e poder sobre as forças aliadas. Winston Churchill é um estadista brilhante desprezado pelo próprio partido, mas que, a 10 de Maio desse mesmo ano, se vê nomeado de urgência para o cargo de primeiro-ministro britânico. Poucos dias depois da tomada de posse, depara-se com a maior e mais difícil decisão da sua vida: aceitar um tratado de paz com a Alemanha, submetendo-se às suas ordens; ou declarar guerra ao inimigo, lutando pela liberdade e independência, não só do seu do seu povo ou do europeu, mas mesmo em nome da democracia.

Depois do enorme falhanço que foi Pan: Viagem à Terra do Nunca (2015), Joe Wright volta ao seu elemento natural: adaptações de guerra ou filmes de época. Já o tínhamos visto em Orgulho em Preconceito e Anna Karenina, mas foi em Expiação que conseguimos perceber todo o potencial e paixão de Wright neste subgénero. Com isto, e somando o facto do realizador pertencer à escola do cinema britânico histórico e decidir atirar-se de cabeça para a história daquela que, talvez, seja a maior personalidade inglesa do século passado, A Hora Mais Negra tinha tudo para ser exímio. Mas não o é.

Além de todo o apetrecho técnico de louvar que Wright nos atira à cara desde os momentos iniciais que há algo neste filme que não faz um click com público. Podemos então culpar outro nome pelo desastre que são algumas das cenas? Estou a pensar especificamente em Anthony McCarten, argumentista deste e de filmes tais como A Teoria de Tudo.

É isso: a junção da escrita de McCarten ao olhar menos atento de Wright é talvez o que afunda A Hora Mais Negra. Desde cenas desnecessárias e de uma conveniência gritante para “desancar” com a narrativa a outras completamente impensáveis em termos históricos, este filme torna-se mais numa fantasia meio lamechas que recorre demasiado a catalisadores para desenlaçar as tramas do que numa obra histórica de factos verídicos.

Divulgação – Focus Features

Este é um argumento fácil, que foge pela porta mais simples e que trata o espectador como alguém que se resigna à comodidade de ter tudo explicado e simplificado. Em que nada acontece sem um evento causa-efeito. Além de nos proporcionar um carismático Churchill – muito também ajudado pela irrepreensível prestação de Gary Oldman – o argumento de A Hora Mais Negra erra em tanta coisa que acaba por desvirtuar o trabalho daquelas partes que de facto são realmente muito boas, como os atores, a fotografia, a banda-sonora e, claro, a caracterização.

De volta e meia é, no entanto, importante haver filmes como este e Dunkirk de Christopher Nolan ou o Filho de Saul. É importante não esquecer as atrocidades vividas na Segunda Guerra Mundial e é sempre fulcral que os realizadores não se esqueçam do poder pedagógico que têm, principalmente nas gerações mais novas que, à luz de demagogos e popularismos, se podem tão facilmente esquecer daquilo que agora é tão longe e que apenas aparece nas páginas dos enfadonhos livros da escola.

E A Hora Mais Negra, mesmo não sendo o retorno esperado de Joe Wright, não revela o desgaste de um realizador desinspirado, mas sim de alguém que tomou um par de más decisões num filme que poderia ser tão melhor do que aquilo realmente é.

6/10

Título original: Darkest Hour
Realização: Joe Wright
Argumento: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas
Género:  Biografia, Drama, História, Guerra
Duração: 125 minutos