Avenida Q esgotou o Teatro da Trindade e o Casino Lisboa durante meses e rumou ao norte do país no dia 11 de janeiro. No último domingo, o Espalha-Factos assistiu à peça, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto.

Comparado à Rua Sésamo ou aos Marretas, Avenida Q é a combinação perfeita entre bonecos e humanos, realidade e ficção. Mas se estavas à espera de uma comédia para crianças, desengana-te. Avenida Q é uma sátira social, que trata assuntos tão diferentes como o desemprego, a precariedade, o sexo, a pornografia, o racismo e a xenofobia.

No espetáculo encenado por Rui Melo, sobem ao palco Ana Cloe, Samuel Alves, Diogo Valsassina, Gabriela Barros, Rui Maria Pêgo, Inês Aires Pereira, Rodrigo Saraiva e Manuel Moreira.

Com um elenco tão jovem, não seria de admirar que a plateia fosse constituída de igual forma. No entanto, Avenida Q consegue aquilo que, muitas vezes, é difícil com a maioria das peças: juntar adolescentes e jovens adultos no teatro. E o Sá da Bandeira não poderia estar mais irrequieto e entusiasmado.

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“Que m**** que eu sou”

Os prédios 5, 7 e 9 da Avenida Q saltam à vista dos mais curiosos. Nas fachadas, a tinta está gasta, faltam alguns azulejos e há meias penduradas no estendal.

No início do espetáculo, os atores apresentam-se, mas de uma forma a que não é habitual assistir. Tudo é dito numa canção, também essa diferente. Tem graça a triplicar. O desafio é descobrir quem está pior na vida ou, por palavras mais acertadas, quem está mais “na m****”.

Começamos por Tozé, marido de Maria, desempregado e que sonha um dia tornar-se comediante. Passamos para a Marta Monstro, “bem gira e inteligente”, mas sem namorado. Para desempatar, chegam Joca e Félix, mas a resposta foi fácil – “nós”. Os dois amigos moram juntos e, por vezes, isso é equivalente a um inferno. Contudo, “ninguém baza, porque só há guito para uma casa”.

Maria é a próxima e, como seria de esperar, acha que a sua vida é a mais complicada. É muçulmana, turca e desde pequena que atura preconceitos raciais. Estudou para ser psicóloga, mas não tem nenhum cliente “com medo que o rebente” e está apaixonada por um desgraçado.

O último a chegar é o Pequeno Saul. Este já foi rico, mas foi roubado pelos pais. Agora é porteiro e não precisa de dizer mais nada. Todas as personagens pensam pelo mesmo: “na m**** estás tu”.

O público ri e acena com a cabeça. Afinal, todos enfrentamos problemas e viver neste mundo não é nada fácil. Inevitavelmente, a plateia canta também “na m**** estamos juntos”.

“Isto é para já, para já felicidade”

A história arranca com a chegada de Luís, um jovem recém-licenciado e sem emprego, que procura casa na Avenida Q. Quando conhece os vizinhos, sabe que é ali que quer passar a morar. Na primeira conversa com Tozé e Maria, conhece Marta Monstro. E é uma espécie de amor à primeira vista.

Inês Aires Pereira dá vida a Paula Porca, uma personagem que gosta muito de homens, e Manuel Moreira dá voz a Trekkie, um monstro viciado em pornografia.

Uma banda ao vivo acompanha os atores e Avenida Q é passada assim mesmo, a cantar. Os protagonistas correm, dançam e cantam, sempre com o mesmo sorriso na cara. Manipular um boneco e cantar ao mesmo tempo não é nada fácil. Muito menos fazê-lo durante quase duas horas.

Avenida Q retrata vários problemas do quotidiano com leveza e humor: como é difícil a transição para idade adulta, como os sonhos de criança ficam por cumprir, como é triste não encontrar uma alma-gémea e como todos somos um bocadinho racistas e xenófobos. O público identifica-se, ao mesmo tempo que reflete sobre cada tema.

Na verdade, somos todos um bocadinho racistas: “não vale a pena fingir, só nos resta assumir”. E “se fores afinal homossexual, isso é normal”. Quanto à Internet, sabemos que a pornografia está em todo o lado e que ninguém precisa de uma amiga, “basta um giga”. O objetivo da peça é simples: descomplicar.

A vida deve ser vivida assim. Um dia de cada vez. Porque, “tudo nesta vida é só para já”. Em Avenida Q, multiplicam-se os sonhos e, com amigos por perto, concretizam-se alguns deles. Uma mensagem positiva fica gravada – “Tens o mundo à tua espera”.

Fica à vontade para assistir de novo

Dar vida a bonecos inanimados exige muita atenção e coordenação, mas os atores parecem fazer isto há anos. É notória a entrega e dedicação de todo o elenco e o espetáculo é um reflexo disso mesmo.

O público aplaude de pé e não poderia ser mais merecido. Muitos fãs ficam com vontade de voltar ao início, de rir e de cantar de novo. Outros planeiam quem vão convidar para os acompanhar em mais uma ‘rodada’.

Mesmo quem não é fã de musicais, deve dar uma oportunidade a Avenida Q. A comédia está em cena no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, até ao dia 25 de fevereiro. E quem sabe não volte depois para mais uma temporada na capital.

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