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Três Cartazes à Beira da Estrada: uma chapada na comédia do politicamente correto

Três Cartazes à Beira da Estrada, filme realizado e escrito por Martin McDonagh, está já nas salas de cinema portuguesas. Depois de se consagrar como o grande vencedor da 75.ª noite dos Globos de Ouro, ao levar para casa quatro prémios (Melhor Atriz, Melhor Ator Secundário, Melhor Argumento e Melhor Filme/Drama), este é um dos grandes favoritos aos Óscares.

Passaram-se sete meses após o brutal assassinato de Angela, a filha adolescente de Mildred Hayes. Inconformada com a aparente inação das autoridades, Mildred resolve chamar a atenção para o caso alugando três cartazes à entrada da cidade de Ebbing, no estado norte-americano do Missouri. As frases que publica em cada um questionam directamente a competência de William Willoughby, o chefe da polícia. Essa atitude vai desencadear uma espiral de violência na cidade, com a polícia a querer demonstrar a falsidade das acusações e Mildred a tentar a todo o custo que seja feita justiça.

Três Cartazes à Beira da Estrada
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Um melodrama bem orquestrado ou uma comédia negra por vezes sádica? Um mergulho na ruralidade norte-americana ou uma micro encenação de toda a América? Três Cartazes à Beira da Estrada é de tudo isto um pouco. Uma comédia de tons negros que parte de uma premissa ainda mais negra, mas que vai pintando uma comunidade através do humor. Um filme que se assume, mais do que tudo, como o triunfo do argumento de Martin McDonagh.

É exatamente nas palavras de McDonagh que encontramos a essência de todo este filme. Na construção das três personagens centrais (MildredFrances McDormand -, Xerife WilloughbyWoody Harrelson-  e DixonSam Rockwell), nos diálogos, nas ações, nas peripécias e desenlaces. É também a suavização da grande carga dramática do ponto de partida do filme através do humor que nos agarra desde início.

O realizador não nos distrai com perseguições a “mauzões”, nem com puzzles infindáveis de investigação criminal, nem com violência grátis ou reviravoltas tão surpreendentes quanto baratas. O filme é, em si, bastante sóbrio na abordagem que faz ao seu próprio ponto de partida, não cria manobras de diversão porque confia em pleno nas suas personagens e interações. McDonagh propõe-se a estudar uma pequena comunidade, em que toda a gente se conhece, e o que acontece quando três cartazes são afixados numa estrada à entrada da pequena povoação, obrigando os habitantes a encarar a sua própria vergonha.

Acima de tudo, Três Cartazes à Beira da Estrada é um filme que estuda as relações interpessoais. Debruça-se entre as dinâmicas da verdadeira América rural. Desde o padre duvidoso ao Xerife que aparenta ser duro, mas é o mais simpático da terra; desde o dentista que gosta de se meter onde não é chamado ao polícia racista. É ao conhecer esta comunidade que nos vamos aproximando cada vez mais das personagens e da história.

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E para que as palavras de McDonagh funcionassem, aliás, para que todo o seu filme resultasse, a contribuição de McDormand, Harrelson e Rockwell foram fundamentais. Os três atores são o motor principal da narrativa, são as suas interações que nos prendem ao grande ecrã. Um elenco encabeçado pela fantástica Frances McDormand e dominada depois pela grande entrega de Sam Rockwell, Três Cartazes à Beira da Estrada contém, em perto de duas horas, algumas das melhores performances do ano.

Em suma, e porque como se inspira na vida, Três Cartazes à Beira Estrada acaba onde começa: em lado algum. É o acompanhar do dia-a-dia de uma comunidade que espelha a ruralidade norte-americana. É um filme que, apesar de algumas falhas técnicas que parecem acusar um pouco de amadorismo (assim como algumas decisões erradas), não deixa de ser um forte exemplo do cinema independente que se faz na América.

Ao mesmo tempo, esta é uma boa chapada na cara do politicamente correto que nos chateia em 2018. Conseguimos rir com a tragédia, o racismo, o sexismo e a violência. E porquê? Porque McDonagh não tem pudor ou necessidade em suavizar os temas – encara os tabus da sociedade norte-americana de frente.

7/10

Título original: Three Billboards outside Ebbing, Missouri
Realização: Martin McDonagh
Argumento: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Peter Dinklage, Lucas Hedges.
Género: Crime, Drama
Duração: 115 minutos

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