BROCKHAMPTON: o futuro do hip-hop está na internet

Em 2017, o mundo atento à música assistiu a um fenómeno chamado Brockhampton. A banda surgiu na internet, em 2015, mas só recentemente conseguiu adquirir uma grande base de fãs. Eles têm indubitavelmente agitado o panorama do hip-hop e não vão parar por aqui.

Há algo de diferente nesta “so-called boy band”. Não é hip-hop no seu estado mais puro, no entanto a mistura de sonoridades e a progressividade da banda tornam-nos numa curiosidade.

Saturation: uma trilogia bem orelhuda

Foi no ano passado que a banda decidiu finalmente aventurar-se e lançar um álbum. Perdoem-me, lançar três álbuns – uma trilogia -, com o nome de SATURATION, SATURATION II e SATURATION III.

Começamos pelo SATURATION, o primeiro álbum da trilogia, o mais cru de todos. Não é que não seja um álbum bem pensado, no entanto encontra uma maturidade jovial bastante distinguível. O coletivo criativo criou aqui um marco na sua carreira: em cerca de meio ano conseguiu juntar uma legião enorme de fãs na internet.

Será este o hip-hop futurista da Geração Z?

O que é que torna os Brockhampton tão peculiares? Será a diversidade da banda? Talvez uma espécie de estética associada ao conjunto? Há uma espécie de espelho que os admiradores dos Brockhampton encontram com eles mesmos que viabiliza uma reflexão acerca de tudo o que uma geração jovem, em pleno século XXI, pode encontrar como obstáculo.

Há uma indiferença brincalhona, uma coolness, que eles conseguem transmitir através da extravagância instrumental. Transpira-se uma dose de surrealismo “americanizado”, uma estética da década de 90, e o hip-hop normal rompe com SATURATION II. Existe todo um misto de vontade de ser ouvido e reconhecido ao mesmo tempo que as hormonas confusas da adolescência ainda tentam aparecer.

São mais de 10 numa só banda e cada um deles traz um pouco da sua idiossincrasia para a música, conceito e estilo. Um dos melhores momentos do segundo álbum chega em JUNKY, quando Kevin Abstract, uma das caras mais conhecidas, tem encontro marcado com os seus próprios demónios. “Why you always rap about bein’ gay? / Cause not enough niggas rap and be gay” e mais não precisa de dizer.

A comunidade Brockhampton e os seus discípulos

Talvez sejam mesmo as composições ditas pouco ortodoxas que tornam os Brockhampton no fenómeno que são. A era da internet, de 2010 em diante, reflete-se totalmente neles e no seu modo de trabalhar em comunidade. Ainda há momentos de desconcentração na sua música, mas SATURATION III provou que a cabeça está no lugar e pronta para trazer mais disto ao mundo.

Talvez a mensagem derradeira que querem transmitir a todos os que os ouvem esteja intimamente relacionada com as dificuldades que as últimas gerações enfrentam. O medo, a insegurança e a instabilidade mudaram a visão de quem cresceu essencialmente nas últimas três décadas.

Os Brockhampton vieram mostrar que juntos, juntando capacidades e ideias completamente diferentes, conseguem criar arte e entregá-la a quem está sedento de ouvir os seus problemas musicados. As individualidades de cada um difundem-se numa comunidade cada vez maior ao mesmo tempo que o mundo se divide mais.