Criada por Charlie Brooker, Black Mirror é uma antologia que explora um universo onde a tecnologia de última geração se cruza com as mais sombrias particularidades da humanidade, num contexto social moderno, controverso e corrupto.

A singularidade das três anteriores temporadas dificultou a tarefa de produzir uma quarta de igual ou superior qualidade. As expectativas eram bastante elevadas e, como se temia, a última temporada falhou em corresponder-lhes.

Black Mirror não deixa de ser uma excelente produção televisiva, com um inquestionável tom satírico e promotor de reflexão. Contudo, as falhas são visíveis e o tempo pode ter sido um fator decisivo.

A quarta temporada estreou há pouco menos de uma semana e contou com seis realizadores diferentes, dos quais se destacam Toby Haynes, Timothy Van Patten e Colm McCarthy.

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Fator T: o tempo

As primeiras duas temporadas foram produzidas ao longo de quatro anos e o episódio especial de Natal, que integrou a segunda temporada, foi exibido mais de um ano e meio depois, em dezembro de 2014, no canal britânico Channel 4. A qualidade da série é também fruto deste período de produção, essencial para a criação de tramas originais, ponderados e bem executados.

Em 2016, um ano depois de ter sido adquirida pela Netflix, a terceira temporada de Black Mirror duplicou o número de episódios, passando a exibir seis por temporada. A série tornou-se um fenómeno de audiências.

Em dezembro de 2017, estreou a mais recente temporada desta série original Netflix. A primeira conclusão é a de que, de facto, o tempo de preparação é crucial para manter a qualidade dos conteúdos produzidos. A quarta temporada é aquela que apresenta o menor tempo de produção e o resultado é o pior até à data.

É importante ressalvar que Black Mirror não perdeu, de modo nenhum, o mérito que já apresentava. A série britânica continua a ser uma das melhores produções televisivas da última década. Porém, não deixa de ser evidente que o lote de histórias mais recente é o mais fraco.

Reciclagem de temáticas

Reflexo desta produção acelerada é a evidente reciclagem de temáticas, previamente abordadas em episódios de melhor qualidade.

A mais comum é a da consciência digital, apresentada no primeiro e último episódios (pode também considerar-se que surja no quarto episódio, Hang the DJ). O uso da tecnologia com fim punitivo foi um dos temas também presente no episódio Black Museum, apesar de ter já sido explorado na segunda temporada da série.

Estes são os exemplos mais evidentes. Porém e infelizmente, o recurso a ideias prévias foi recorrente ao longo destes últimos seis episódios. Não quero com isto dizer que não tenham sido bem aproveitados nalgumas ocasiões. Ainda assim, face a um histórico tão brilhante, a quarta temporada tinha potencial para ser muito melhor.

Previsibilidade

Fruto desta reciclagem é a previsibilidade dos acontecimentos. Se já vimos situações semelhantes, é normal e expectável que seja mais fácil prever as consequências das ações de cada personagem e o respetivo final da ação. Na maioria dos casos está em falta aquele twist emocionante que torna cada história inesquecível.

É importante, contudo, ressalvar que dois episódios fogem claramente à regra e evocam a verdadeira essência de Black Mirror a que Charlie Brooker nos habituou. São eles: Hang the DJ e Black Museum. O primeiro episódio, USS Callister, é também um ótimo exemplo da sobrevivência desta qualidade, com recurso a um sublime sentido de humor.

Ausência de fundamentação

Um espectador assíduo de Black Mirror já sabe que só no fim de cada episódio vai perceber tudo o que se passou nos 45 minutos anteriores. Esperamos ansiosamente pelo fim, não porque queiramos que acabe, mas antes porque desejamos ser esclarecidos e levar aquele valente murro no estômago que nos elucida finalmente e nos obriga a fazer uma pausa de reflexão antes de iniciar o episódio seguinte.

Infelizmente isso nem sempre acontece nesta quarta temporada. Metalhead é possivelmente o pior exemplo dos seis. Exibido integralmente a preto e branco, o quinto episódio, dirigido por David Slade, é o mais curto e menos esclarecedor. Ficam muitas questões em aberto, não há forma de estabelecer empatia com a protagonista e no final pouco ou nenhum conteúdo resta.

Em contrapartida há quem possa argumentar que esta ausência de esclarecimento promove múltiplas interpretações, que ficam ao critério do espectador.

O ponto forte de Metalhead é, porém, a capacidade de manter a tensão do início ao fim. Apesar de tudo, conseguimos mergulhar na atmosfera em que decorre a ação e partilhar o terror que se sente naquele ambiente pós-apocalíptico.

Imposição de individualidade

Um outro ponto fraco desta temporada diz respeito às individualizações impostas por alguns dos realizadores, nomeadamente Jodie Foster e John Hillcoat. Curiosamente estes são os que mais elevaram as expectativas, talvez por serem os mais prestigiados dos seis.

Jodie Foster dirigiu o episódio ArkAngel e John Hillcoat foi o responsável por Crocodile. Em ambos os casos, a individualidade das personagens quebra a análise plural de uma tecnologia e as respetivas consequências globais.

Ainda que a violência seja subtil e pouco explícita, o macabro, sempre presente, poderia ser evitado e parece forçado. Consequências desta imposição são protagonistas desinteressantes, evoluções previsíveis e pouco espaço para reflexão, uma vez que os casos são tão particulares.

Uma vez mais o episódio que melhor contraria esta fraqueza é Hang the DJ, por mérito de Timothy Van Patten.

Apesar destes aspetos mais fracos o balanço final é positivo. Black Mirror continua a ser uma série de inquestionável originalidade, com uma enorme capacidade de análise e reflexão. A qualidade do elenco sobreviveu a todos estes fatores e foi o ponto mais forte em todos os seis episódios. Charlie Brooker é um ótimo argumentista e com certeza conseguirá recuperar na próxima temporada.