Mais um ano que se passou, mais uma mão cheia de discos que nos foram acompanhando ao longo deste 2017. Ora espreita as nossas escolhas do ano.

Capacity, Big Thief, junho

Big Thief - Capacity

A promissora estreia dos americanos Big Thief, com Masterpiece, o ano passado, pôs a comunidade indie de olho neste coletivo com um dos discos mais bonitos do ano. Rodela que tem tanto de amor como de dor revela o génio de Adrianne Lenker tão capaz na escrita da música quanto das letras.
Se o tema-título é cheio de guitarras sujas e viscerais, Coma ou Mythological Beauty rebentam-nos com o coração com tamanha beleza e melancolia. Um disco profundo e fundamental. – AS

Pleasure, Feist, abril

Pleasure Feist

O disco mais florido e cheiroso do ano saiu na melhor altura possível. E quando assim é, podemos agradecer ao Universo ter permitido que a agenda de artistas, editoras e distribuidoras se conjugue para Pleasure saltar para os nossos ouvidos precisamente no momento em que mais precisamos dele.
A delicadeza da voz de Feist está presente mas o rosa forte que marca a capa do disco vinca-se nas abruptas mudanças de ritmo – por exemplo no tema-título – ou nos temas mais catárticos como Lost Dreams, I Wish I Didn’t Miss You ou Baby Be Simple. Valeu, assim, esperar seis anos para um novo disco de Feist. O prazer foi todo nosso. – AS

Imagining My Man, Aldous Harding, maio

Aldous Harding - Imagining My Man

Talvez a neo-zelandesa Aldous Harding seja a descoberta do ano. A forte emotividade que a cantora delega no que escreve e na forma como o diz põe-na diretamente no altar onde já estavam as deusas Sharon van Etten ou PJ Harvey. Não é por acaso que este segundo disco é produzido por John Parish, parceiro habitual de trabalho com a britânica.
Blend, Party ou Horizon, aliás, todo o disco, são pedaços de poesia com pinceladas de folk fantasmagórica. – AS

The OOZ, King Krule, outubro

The Ooz - King Krule

Se há artista que nos faz crer no futuro da música é o imberbe e escaganifobético Archy Marshall. Dono de um vozeirão impressionante e capaz de poções mais mágicas que Panoramix, Krule canta, produz, compõe e mistura sem regras, sem barreiras e sem etiquetas.
Jazz, hip hop, samples, rock e blues evidenciam o caos urbano e o ritmo frenético dos tempos que correm como se de um retrato sociológico se tratasse. The OOZ é, facilmente, uma peça para um dia se estudar o ano de 2017. – AS

Pure Comedy, Father John Misty, abril

Father John Misty - Pure Comedy

O timing de Josh Tillman com Pure Comedy foi absolutamente perfeito. Com todas as situações sociopolíticas por que passamos, o álbum apresenta a imperfeição do ser humano e da sociedade com uma beleza incrível. Este disco é uma viagem onde passamos por explosões orquestrais majestosas até delicados momentos acústicos. Se I Love You, Honeybear foi uma ode peculiar ao romance, Pure Comedy é uma chamada de atenção para o que andamos por cá a fazer. – AR
A humanidade encenada e comentada em todos os aspetos apelando à razão, mencionando a política aqui e ali e até as invocando as santidades. Father John Misty passou a pente fino tudo o que está intimamente relacionado com o ser humano e a sua condição.
Uma narrativa crua, pensada e ruminada acerca da nossa existência e dos nossos propósitos. Josh Tillman (aka Father John Misty) nunca brinca em serviço e age como um dramaturgo a recitar a pior das tragédias que já passou pela Terra – a tragédia humana. – CR

Rationale, Rationale, outubro

Rationale

Um álbum bem aconchegante para o início de outono em que foi lançado. O disco homónimo de Rationale tem um encanto muito próprio, onde a voz muito soul de Tinashe Fazakerley (nome verdadeiro do cantor) se mistura com os sintetizadores e instrumentais hipnotizantes. Música com uma sonoridade pop/r&b com uma faceta muito catchy, mas que não descura a sua profundidade e conteúdo. – AR

American Dream, LCD Soundsystem, setembro

American Dream

Começa a ser chato andarmos aqui a falar de como a arte que vem sendo criada é toda ela um reflexo da nossa podridão. A verdade é que os LCD Soundsystem ressuscitaram propositadamente para o fazer e bem. James Murphy regressou em grande e com mais mistério para injectar na sonoridade da banda.
O som disco continua intocável embora mais obscuro e lúgubre. Mas a vida é mesmo feita desta metamorfose emocional que vai passando por nós sem pedirmos. Que aconteçam mais retornos fantásticos como American Dream. – CR

Flower Boy, Tyler, The Creator, julho

Flower Boy

O rapper norte-americano tem vindo a construir-se lentamente ao longo dos anos e parece que Flower Boy foi mesmo um auge da sua carreira. Colorido, coeso e bem produzido, conduz uma sonoridade invejável pelo livro de recordações de Tyler, The Creator. Provavelmente o álbum mais eclético e que conta com colaborações bem pensadas: Frank Ocean, Steve Lacy e Jaden Smith. Flower Boy é um exemplo de como o processo de nos conhecermos a nós próprios pode ser um êxito. – CR

Process, Sampha, fevereiro

Sampha Process

Process é o primeiro álbum de Sampha e foi uma das obras de arte mais promissoras que saíram em 2017. A voz protuberante, a simplicidade sonora e o ambiente turbulento mas agradável fazem estes 40 minutos de música valer a pena. É melancólico sem ser exageradamente triste. Sampha quer, a alma transpira e a catarse acontece. Process é o processo emocional musicalmente realizado e o britânico é sem dúvida um dos músicos a atentar nos próximos anos. – CR

This Old Dog, Mac Demarco, maio

This Old Dog - Mac Demarco

O último trabalho do canadiano foi o despertar de um novo Mac. Um senhor da música indie que mostrou o humano sofredor por detrás do seu ar despreocupado. Este foi sem dúvida o álbum revolucionário da discografia de Demarco.
Nele depositou os problemas da sua vida em canções melancólicas, mas incríveis. Passou de um rapazote que cantava sobre o maço de cigarros favorito, para um autêntico livro aberto, que expõe, tranquilamente, a sua vida pessoal. – FS

Humanz, Gorillaz, abril

A mais famosa banda animada também merece lugar destacado neste ano. Era de esperar que depois de cinco anos sem fazer nada novo, Humanz tivesse dificuldade em impor-se como um disco de sucesso. A verdade é que conseguiu. Foi, na perfeição, a passadeira vermelha para o regresso de Gorillaz ao mundo da música.
Sempre com a marca de assinatura de não ter estilo que os defina, o conjunto conseguiu introduzir-se na modernidade musical. Também convidaram grandes artistas que completaram o álbum de uma das notáveis bandas deste século. – FS

Ctrl, SZA, junho

SZA ctrl

Acompanhar a trajetória de SZA ao longo de 2017 foi quase como torcer por um amigo da escola que de repente faz um álbum que quase pára o mundo. Sim, porque há ali qualquer coisa nas temáticas criadas pela jovem norte-americana que nos fazem automaticamente gostar dela. Com uma voz doce, SZA é a responsável por um disco tocante, real e extremamente bem executado.

Entre os mimos que SZA nos ofereceu com este Ctrl, o retrato perfeito está em 20something. E podemos falar sobre as colaborações? You go, SZA. – CaR

DAMN., Kendrick Lamar, abril

DAMN

Seja na ordem original ou em reverse, não há que fugir ao domínio de Kendrick Lamar em 2017. DAMN. mostra o génio em trajetória ascendente, novamente, depois do sucesso de To Pimp a Butterfly. A fórmula pode ter mudado, é certo, mas o talento continua lá todo.

Seja a incentivar uma imagem corporal positiva em HUMBLE., num bonito namoro musical com Rihanna em LOYALTY. ou a mostrar todo o seu DNA., o kung fu de Kendrick Lamar deixa uma marca neste ano. – CaR

Drunk, Thundercat, fevereiro

Drunk Thundercat

Com uma linha de baixo que é sempre uma delícia e colaborações de excelência, Thundercat coloca nas 23 faixas de Drunk muita, muita alma. Show You the Way, Them Changes ou Walk on By são emblemas deste saboroso disco, mas também não vale esquecer que Friend Zone é capaz de arrancar um sorriso a qualquer pessoa. – CaR

Take me Apart, Kelela, outubro

Kelela Take me apart

Soberbo e conceptual. Em outubro, este disco pode até ter passado despercebido, mas umas audições repetidas mostram um claro amadurecimento de Kelela desde Hallucinogen, de 2015. Blue Light, LMK ou Take me Apart mostram todo o potencial da artista neste disco. Se der já para pedir desejos para 2018, imaginem só o potencial de uma colaboração entre Kelela e FKA twigs? – CaR

Big Fish Theory, Vince Staples, junho

Vince Staples - Big Fish Theory

 Muita, muita energia neste aquário que é Big Fish Theory. Vince Staples sobreviveu com mestria à chamada ‘maldição’ do segundo álbum. Mais um dos talentos de Compton, que com este disco nos deu muito material para acrescentar às playlists: Big Fish, Crabs In a Bucket… sempre com as batidas lá no alto. – CaR

Melodrama, Lorde, novembro

Melodrama Lorde

Em 2013, ainda adolescente veio surpreender-nos com Pure Heroine. Quatro anos depois, com uma maturidade acrescida revelada em letras mais complexas, Lorde vem cimentar a sua posição no mundo da pop. Melodrama é mais um sinal de que a pop não precisa de ser superficial e liricamente simplista.
Este álbum é a combinação perfeita entre a jubilação presentes em Homemade Dynamite, Green Light ou Supercut, e a melancolia de Liability, The Louvre e Writer in The Dark. No fundo, é a tradução daquilo que é a experiência dos late teens. – AR

Lust for Life, Lana del Rey, julho

Lust for Life - Lana del Rey

“Look at you kids with your vintage music”. É assim que se inicia mais uma obra da norte-americana Elizabeth Grant (ou Lana del Rey para o mundo). São apenas dois anos que separam Honeymoon (2015) de Lust for Life, mas a diferença entre ambos os álbuns é substancial.
Esta nova produção é um retorno à homenagem aos clássicos, que tanto inspiram Lana como se pode ouvir em Beautiful People, Beautiful Problems ou Tomorrow Never Came, temas que contam com a participação de Stevie Nicks e Sean Ono Lennon, respetivamente. A afinidade aos ritmos dos hip hop é recuperada com uma participação de ASAP Rocky em Summer Bummer e Groupie Love. – AR

War & Leisure, Miguel, dezembro

War x Leisure - Miguel

Lançado há cerca de duas semanas, o novo álbum de Miguel combina R&B com hip hop, soul e rap. Contém a sonoridade perfeita para uma tarde ao sol ou uma viagem longa, que nos mantém irrequietos, nem que seja para um simples abanar de cabeça lento ao ritmo da batida de Criminal – que conta com a participação de Rick Ross.
Até com a Sky Walker, que tem uma sonoridade mais comercial, mas oferece referências incríveis, e a Harem que mistura R&B com electro pop (cheirinho a Tame Impala…), é impossível não ficarmos impressionados com este disco. – AR
Escolhas de Alexandra Silva, Ana Rosário, Carlota Real, Francisco Serra, Cátia Rocha e Bárbara Pereira