Fim da Inocência
Foto: frame filme 'O Fim da Inocência'

‘O Fim da Inocência’ – o filme que amesquinhou o livro

É um clássico dos nossos tempos. E quando sabemos, pela primeira vez, que vão adaptar para o grande ecrã um livro de que gostamos, ficamos muito entusiasmados e corremos saltitantes para ir ver o filme. Arrastamos amigos e família em peso para compreenderem a nossa fixação naquela história e, depois… depois vemos o filme – “não era nada assim”.

Pessoalmente, já passei por isto vezes demais, a ponto de já não ficar, sequer, entusiasmada quando produzem o filme do livro mas, tenho de assumir que o argumento de Roberto Pereira para O Fim da Inocência leva o prémio da mais retumbante desilusão.

[Atenção! Este artigo tentará ser totalmente spoiler free]

Inês, a jovem do filme, é uma adolescente de 15 anos de uma família de classe alta, catfished num encontro com um estranho, marcado através do Cinder (sim, esse mesmo, o “Cinder”) que acaba mal, muito mal. Uma jovem com uma relação pouco comunicativa com o padrasto e com a mãe, pese embora, as tentativas residuais de aproximação desta última.

Esta Inês, descobre as drogas e o sexo (voyeurista, na verdade) em grupo num festival de Verão. Daí por diante, não há espiral descendente – a jovem parece encontrar-se no fundo do poço.

Ora, o fundo do poço desta Inês cinematográfica é bem mais acima do da literária e bem mais recuperável, tal é a velocidade com que Inês volta à tona em todas as circunstâncias, numa versão puritana e pouco séria. Escusado será dizer que se encontra bem distante da Inês que se apresenta da seguinte forma no livro de Francisco Salgueiro:

[Atenção! Segue-se linguagem explícita]

“Sento-me aos pés da cama. No ar há um intenso cheiro a sexo. Atrás de mim, um homem de quarenta e cinco anos que acabei de foder. Olho para o espelho e pergunto-me que idade terei realmente. Sinto-me com quarenta, mas no meu cartão de cidadão está marcado dezassete.”

A obra de Joaquim Leitão, realizador de Tentação (1995) e de Sei Lá (2014)chuta para canto tantos temas de relevância que até podem ser listados.

Além do filme…

Fim da Inocência
Foto: Wook

1. A descoberta sexual própria

Aqui, a personagem mais mutilada é a de Rita, amiga “croma” e posta de lado durante algum tempo. No livro, Rita tem muitas questões que precisa de colocar a Inês, depois da última ter sido exposta a várias experiências (sobretudo a nível sexual).

A protagonista acaba por puxar a sua mais recente aquisição para a descoberta do prazer de uma forma tão explícita quanto elucidante (para ambas). Aí começa(ria) a espiral de Rita: uma história tridimensional que foi deixada de lado.

2. A homossexualidade “casual”

A par do ponto anterior, a homossexualidade entre personagens (quer masculinos, quer femininos) é atirada para dois ou três frames de filme, quando se trata de algo vulcânico, circunstancial e abrupto (a vários níveis). Vindos de famílias tendencialmente conservadoras, os seus dogmas no que toca a este tema são muitos.

Existe uma definição geral de “prazer por prazer”, porém há questões de fundo que apoquentam a voz da narradora e que colocam em cheque as suas crenças pessoais. Os seus impulsos podem ter-se tornado mais do que isso.

No filme, contudo, apenas um beijo inebriado e sem segundos pensamentos tem lugar. A relação de Rita e Inês é passada a ferro, fazendo de Bernardo (já lá vamos) o objeto de desejo único e primordial.

É quase bi-erasure sobre a bi-erasure per si, que já existe na cabeça da Inês do livro. Algo muito diferente da explicação da Inês literária numa das primeiras vinte páginas do bestseller:

“[…] percebi que devia ser a Rita, a minha melhor amiga. A única rapariga que me tinha dado um orgasmo superior ao proporcionado por qualquer homem.”

3. A vilipendiação de Bernardo

Bernardo, uma das personagens principais é, no livro, um player/playboy do milénio como todos conhecemos. Possui uma tridimensionalidade fantástica que permite que o ódio e o asco se equilibrem com uma estranha ternura.

Os sentimentos que nutre por Inês e o apoio que lhe dá relativamente às questões passadas e da vida quotidiana são reais. A sua preocupação com ela também, muito embora os seus comportamentos pouco monogâmicos persistam.

Nesta adaptação, Bernardo torna-se mote para os atos mais impensados de Inês (alguns que estão no livro não aparecem e nada têm que ver com os que estão no filme), por um síndrome de herói demasiado rebuscado que faz dele o Busão de Higgs de todos os problemas, como se os traumas anteriores de Inês só se catapultassem pela existência deste personagem. A vilipendiação de Bernardo serve para colmatar o ponto seguinte…

4. A desresponsabilização paternal

Ora, Inês é órfã de pai. Tem um padrasto que a tomou como filha e uma mãe ausente. A mãe literária de Inês é parte do problema, não como omissão apenas mas, também, nos seus atos.

As expetativas impostas e a cegueira ativa que emite são totalmente aniquiladas no filme. As suas constantes ausências também, permitindo que pais e mães assistam às depravações dos adolescentes sem considerarem por um momento fazer parte do mesmo espectro.

A afável, quase atenta mãe, coloca todo o ónus sobre a jovem, deixando o ar mais puro e respirável para encarregados de educação de uma geração.

5. A comercialização do sexo e as doenças sexualmente “invisíveis”

Não existe em toda a trama cinematográfica um momento óbvio de sexo desprotegido. Não existe uma única questão sobre o assunto. As doenças sexualmente transmissíveis são, antes, invisíveis, quando no livro provocam narração interna e até externa.

Todas as cenas de sexo consentido do filme acontecem de forma absolutamente banal, carnal e entusiasmante. O sexo com cocaína (e não sobre o efeito desta) sai do cenário, as chocantes rainbow parties não chegam ao grande ecrã.

A maneira como Inês se entrega facilmente à vista de todos os seus amigos depois de uma experiência aterradora é, só por si, inacreditável e polvilhada de magia bidimensional. Retirando, mais uma vez, o vilão do lugar onde pertence, para colocar lá o vilão mais popular.

6. É fácil mudar de rumo

Quando Inês decide mudar de vida, Inês muda. É muito linear. As férias de verão chegam e é tudo o que é preciso para arejar a cabeça de uma terrível situação criminosa, sem receios ou pruridos.

A Inês literária tem várias reservas que esta não impõe e não considera assim tão simples (talvez por ser humana) sair da espiral (talvez por ser mais profunda) e voltar à tona.

7. As mentiras viraram omissões

A Inês de Salgueiro mente na primeira página: liga para o colégio, fingindo ser a mãe, dizendo que a sua filha não pode comparecer às aulas. Inês escapa-se pelas mentiras, pelos cigarros fumados em lingerie, à beira da pneumonia, para não cheirar a tabaco em casa, pelas assinaturas falsas.

A Inês de Roberto Pereira é bem mais cândida, apesar das suas fugas e ligações a drug dealers, que não se evaporaram no argumento. A astúcia e a perspicácia maléfica jazem no livro. 

8. A linha de tempo

Nada é mais gritante do que a falta de passagem de tempo. A obra de Salgueiro faz uma analepse até aos 12 anos da jovem, passando pelas suas experiência a criando uma coesão na história digna das suas bases verídicas. No entanto, a adaptação cinematográfica só nos fala da passagem dos 14 para os 15 e não nos dá uma ideia clara de onde está a terminar.

Se Bernardo tem um carro, contudo, é possível que Inês tenha 17 ou 18 anos, mas nada disto é visível ou mesmo perceptível. Na verdade, ficamos com a ideia que aquilo que seriam cinco anos se condensam em seis meses, o que retira impacto aos acontecimentos de uma forma tétrica.

9. Os simbolismos perdidos

A morte do pai de Inês, no livro, ocorre num acidente de rodoviário provocado “por uns miúdos bêbados que estavam a fazer uma corrida atrás deles”.

Curiosamente, isto nunca é mencionado no grande ecrã e, ora não fosse a importância deste simbolismo, poderíamos abster-nos de referir isto… deixo à consideração do leitor prever o fim desta história.

Em jeito de conclusão

As promessas de choque, em pleno 2017, deixam muito a desejar no que toca ao filme de tão gratuito que se torna, sem um contexto mínimo apropriado.

Honestamente, deveria ser mais impactante do que a obra de 2010. Contudo, o livro é, sem exagero, uma magnum opus intemporal e subvalorizada de uma realidade brutal, crua e sem cortes, com uma escrita simples e à ponta da pena que nos deixa envolvidos e assombrados.

O Fim da Inocência é, sobretudo, uma história para pais e educadores mas, também, para jovens, em toda a sua consciencialização.

O sexo em tão tenra idade é, sem dúvida, abrupto, mas não deveria ser esse o foco principal, se não a forma virulenta e desacautelada como acontece durante a história. Contudo, a adaptação nunca vai além da superfície.

A utilização pouco rigorosa das redes sociais é explorada à velocidade de luz, já a convivência em sociedade e o terrível manuseamento de drogas de forma irresponsável surtem consequências risíveis que, após um susto, culminam em boas graças.

Fim da Inocência
Foto: divulgação

Por muito que seja um filme a raiar o chocante, trata-se de uma tentativa cobarde e de uma chance perdida de mostrar um mundo quase tão paralelo quanto familiar.

Salva-se a performance de alguns jovens atores do filme como Francisco Fernandez, Joana Aguiar, Rodrigo Paganelli e a interpretação brilhante de Ricardo Sá.

Para mentes mais toldadas e impressionáveis esta adaptação é algo de “polémico”. Para outras mais cor-de-rosa será “escaldante”. E, só isso, desvirtua a mensagem principal do livro de Francisco Salgueiro.

A bom conselho, o livro está à venda por cerca 12 euros na Wook, já vai na 11.ª edição (é possível ler as primeiras páginas do livro no link). Se está à procura de uma coisa forte ou de uma prenda de Natal para um jovem (+16) ou para o pai de um, não pense muito mais.

O Fim da Inocência por Francisco Salgueiro é constrangedor, dantesco, abrasivo e até lascivo, mas ultrapassa o “picante” confortável; O Fim da Inocência por Joaquim Leitão é uma frustração vendável.

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