É previsível que, até ao fim do ano, Star Wars ainda suba uma posição neste top. Acumula 289.413 espectadores em duas semanas.

‘Star Wars: Os Últimos Jedi’: uma montanha-russa inesperada

Depois de uma ante-estreia portuguesa limitada na quarta-feira, estreou esta quinta-feira nas salas de cinema de todo o país Star Wars: Os Últimos Jedi, o mais recente episódio da saga espacial que desde 1977 move multidões, paixões e ódios. No caso deste filme que agora nos chega, as paixões serão certamente justificadas.

Escrito e realizado por Rian Johnson (Looper), este episódio VIII dá seguimento imediato à história à beira do precipício em que J.J. Abrams nos deixou em 2015 com o episódio anterior que realizou. E se no episódio VII, Star Wars: O Despertar da Força, Abrams foi acusado de recriar algumas narrativas do primeiro e original de George Lucas, o mesmo não se poderá dizer do capítulo que agora nos chega. Os Últimos Jedi está longe de ser o que muita gente temia: um remake de Star Wars: O Império Contra-Ataca, o episódio mais sombrio com uma das maiores reviravoltas da história do cinema, uma tão boa que, se chegaste a 2017 sem saber qual é, também não serei eu que a vou estragar.

Apesar desse twist de 1980, é provável que Os Últimos Jedi se tenha agora tornado o filme da saga (com oito episódios e o spin-off Rogue One) com mais surpresas, reviravoltas e sobressaltos ao longo da sua história. Johnson arriscou a valer e deixa-nos muitas vezes a apanhar o queixo do chão. Mesmo para quem tenha acompanhado a promoção do filme e das muitas – demasiadas – teorias que a acompanharam ao longo destes últimos dois anos, sem revelar nada do que se passa no filme, é-se surpreendido do primeiro ao último ato. E, melhor do que esses desenvolvimentos inesperados, é a originalidade que com que são concretizados, emocionando-nos sem sucumbir forçadamente à nostalgia dos filmes anteriores, mas respeitando a galáxia em que se insere e as personagens que a habitam há décadas. Isso é evidente logo no suspense da cena inicial em que mergulhamos, qual montanha-russa no espaço, numa das batalhas espaciais mais intensas deste universo.

A galáxia é a mesma dos anteriores, as regras que a identificam também, e ainda assim não houve nenhum filme que abraçasse tanto a fantasia que Star Wars sempre foi, desde que Kenobi e Yoda explicaram ao jovem Luke Skywalker o que era a Força.

Sim, todos sabemos que a saga se desenrola no espaço, mas o verdadeiro fascínio de Star Wars não advém disso; para além das relações familiares que desencadeiam teorias sem fim, o deslumbramento por esta galáxia muito, muito distante que nunca existiu reside na exploração da mística dum campo de energia criado por todos os seres vivos e que mantém a galáxia unida, dessa ligação com a natureza e nos sabres de luz impossíveis de recriar à séria na vida real. Com a visão que concretizou neste filme, Rian Johnson trouxe-nos a materialização desse misticismo que em todo o momento esteve presente mas que nem a trilogia original deu aos fãs com tanto vigor.

Para este capítulo que coloca de novo os protagonistas da Resistência, liderada pela General Leia, contra os vilões da Primeira Ordem, liderada pelo Líder Supremo Snoke, Johnson contou com Steve Yedlin, o seu diretor de fotografia de longa data. E ainda bem que o fez. Em inúmeras cenas, Os Últimos Jedi conta com uma cinematografia deslumbrante em várias cenas, algumas das quais tão marcantes que decerto não ficarão na sombra das consideradas mais emblemáticas da saga. Luke Skywalker, interpretado à altura por Mark Hamill, está presente em muitos desses momentos que esperamos que não terminem neste filme. Rey, a jovem poderosa que ele não quer treinar, também. 

Como em qualquer outra produção, será fácil entrar no cinema com determinadas expectativas sobre a história e personagens que já conhecemos ou que iremos agora conhecer neste. Na maior parte das vezes, e mais uma vez sem revelar nada do enredo, essas expectativas não serão correspondidas e isso será algo de muito bom, especialmente na era em que tudo se sabe pela internet e redes sociais. Noutras vezes, isso será um aspeto negativo do filme.

Exemplo disso foi o enredo paralelo que duas personagens secundárias protagonizaram; apesar de terem um propósito inicialmente importante para a trama, Finn e Rose (esta a ter a sua estreia neste universo) tiveram um arco desnecessário e que em nada ajudou ao avançar do que verdadeiramente interessava. A mensagem contra a crueldade animal e contra a economia de guerra que passam seria gratificante se não tivesse sido tão óbvia e mais natural. Ao contrário, Kylo Ren e Rey tiveram oportunidade de voltar a brilhar em conjunto, com mais tempo e maior complexidade do que no filme anterior. A dicotomia do lado bom e mau da Força parece desvanecer, mas confirma-se o imenso poder que ambos têm e que ainda muito poderá acontecer entre eles.

Como se já não bastasse toda a emoção provocada por vários momentos deste oitavo episódio de Star Wars, o filme é ainda o último que Carrie Fisher gravou antes de morrer. Não obstante isso, Leia, anteriormente Princesa insolente e agora General inabalável, é um dos pontos fortes da história de uma Resistência que se vê cada vez mais encurralada e que lidera com firmeza e esperança. Há um momento com ela que muitos poderão considerar bizarro mas, tendo em conta a mística e historial dos Skywalker, não passará de mais um grande momento da família mais disfuncional desta galáxia inventada. Poe Dameron, interpretado por Oscar Isaac, torna-se no filho que a General perdeu para o lado negro e um dos personagens com mais destaque nesta aventura, por oposição a outros que surpreendentemente ficaram longe da ribalta. E mais não se pode dizer.

Surpreendente e arrebatador serão dois bons adjetivos para caracterizar Os Últimos Jedi. Quando termina, ficamos com a sensação que podemos finalmente respirar e sentimos a obrigação de ter de o ver pelo menos mais uma vez. É que há mesmo muito para digerir e, a partir de hoje, muito para especular sobre como é que alguém dará continuidade a uma história que, sendo tão familiar como os acordes de John Williams, consegue ser tão disruptiva com as concepções que tínhamos sobre este universo cinematográfico. “We are the spark that will light the fire that will burn the First Order down”, ouve-se no trailer. A verdade é que parece mesmo que este filme é como uma faísca que, bem dirigida, desencadeará um rumo diferente e mais ambicioso para o franchise. Sem medo de arriscar e com a força toda.

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