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Portugal em Saltillo: livro explica polémica de 86

Pedro Adão e Silva e João Tomaz lançaram este mês um livro que procura explicar a polémica estadia da seleção portuguesa em Saltillo, no Mundial do México de 1986.

Deixem-nos Sonhar. Caso Saltillo: Portugal e o México 86 é o título. O livro, resultado de uma investigação de dois anos, foi apresentado a 7 de dezembro na Biblioteca do Palácio Galveias e conta com 351 páginas.

Para além de relatos dos protagonistas da altura – jogadores e dirigentes – estão também presentes testemunhos de toda a gente que acompanhou a seleção nacional durante a estadia no México, desde jornalistas ao cozinheiro.

Para além de apresentar dados e declarações, os autores procuraram, ao longo de todo o livro, dar explicações interpretativas de forma a tentar compreender o que verdadeiramente se passou.

Saltillo
Foto: divulgação

Como surgiu Deixem-nos Sonhar

A ideia do livro surgiu há dois anos, após um almoço onde se encontrava Pedro Adão e Silva. Diamantino Miranda, antigo jogador do Benfica que fazia parte da seleção que viajou até ao México, falou sobre a estadia da seleção em Saltillo, mas garantiu que “não se passou nada de especial”.  Surgiu então a certeza de que havia ainda muito para contar, explicam os autores em entrevista ao Diário de Notícias.

Pedro Adão e Silva garante ainda que o livro, lançado este mês, “tem como objetivo repor alguma justiça e verdade nos acontecimentos”.

Já João Tomaz defende a importância dos episódios do Mundial do México na evolução do futebol português. O autor faz mesmo uma analogia entre Saltillo e o 25 de Abril: “foi um momento de mudança do futebol português, no dirigismo desportivo, na relação com a comunicação social. Nós defendemos essa ideia na introdução. Se houve um 25 de Abril na política e na sociedade, houve também um 25 de Abril para o futebol português depois de Saltillo”.

O livro aborda as relações difíceis entre os jogadores presentes na seleção e a Federação, liderada à data por Silva Resende. Os problemas, explicam, começaram já em França, em 1984, mas terão sido atenuados pelos bons resultados alcançados pela comitiva portuguesa.

Para além dos episódios no México, a obra fala ainda dos tempos seguintes à chegada e as alterações que toda a polémica trouxe.

O Mundial de 86 e a polémica de Saltillo

O Mundial de 86 é uma das competições mais famosas da história da seleção nacional, mas pelos piores motivos. Entre viagens mal organizadas, terrenos e instalações sem condições e braços de ferro entre jogadores e federação, Portugal acabou por ser eliminado ao fim de três jogos, depois de vencer apenas um.

Numa época em que o contexto nacional era complexo, com o ano das presidenciais Soares/Freitas, a entrada na CEE e a saída recente de um resgate do FMI, a prestação lusa foi mais um problema para o país.

Ao que tudo indica, as condições das instalações de Saltillo, onde ficou a Seleção Nacional, não eram as melhores. O campo de treinos, indica Diamantino Miranda, era inclinado e muito propício a lesões. Já a cozinha, explica o cozinheiro da equipa portuguesa, Evaristo, continha “milhões de baratas”.

Para além das más instalações, a organização da estadia da seleção no México é ainda hoje criticada. Para além da viagem, que terá demorado mais de 24 horas, a equipa portuguesa terá tido dificuldades até para encontrar adversários. Existe mesmo o mito de que a seleção nacional terá chegado a enfrentar, num jogo de treino, uma equipa de trabalhadores locais.

Treinos sem camisola e relações durante o estágio

Mas se, durante o Mundial de 86, a federação não foi profissional, o mesmo pode dizer-se dos jogadores. De costas voltadas com a restante comitiva, os atletas portugueses ter-se-ão rendido aos encantos mexicanos e, sobretudo, das mexicanas.

Paulo Futre, um dos mais mediáticos jogadores portugueses à data, explica que “após a primeira folga, passaram a estar sete, oito carros” à “porta da fortaleza”. O número, garante, terá mesmo aumentado ao longo do estágio. Os veículos pertenciam a mulheres mexicanas e os jogadores portugueses, explica Futre, tinham relações dentro dos veículos. “Acabávamos de jantar e… ala, para dentro dos carros. Aquilo parecia uma procissão. Quem olhasse de fora só via carros a abanar… ficávamos ali até à meia-noite e voltávamos para os quartos. No dia seguinte… a mesma coisa”.

A guerra entre jogadores e federação portuguesa terá ainda incluído desavenças por questões de prémios e remuneração por publicidade. Descontentes com as recusas da federação, os atletas portugueses treinaram com as camisolas do avesso ou até mesmo de tronco nu. O objetivo era esconder a publicidade que traziam nas camisolas e pela qual a federação não pagava.

Após a participação desastrosa, oito jogadores portugueses foram afastados da seleção nacional. Portugal só voltou a disputar uma competição internacional 10 anos depois.

Com edição da Tinta da China, o livro já se encontra à venda nas livrarias de todo o país pelo valor de 14,32 euros.

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