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Musical ‘Os Miseráveis’ pela primeira vez em Portugal

O musical criado em 1980 por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil chegou este ano a Portugal pela primeira vez. A versão escolar de Os Miseráveis é apresentada pela Contracanto Associação Cultural, com um elenco formado pelos jovens alunos da classe de Teatro Musical.

A equipa do Espalha-Factos conversou com o encenador António Leal, que nos descreveu o processo pelo qual se passa até que um musical desta dimensão possa chegar ao palco. Este é o musical recordista há mais tempo em cena no West End, que inspirou também o filme de 2012 vencedor de três Óscares, realizado por Tom Hooper.

Da Broadway para Portugal

A Contracanto é a primeira entidade em Portugal a conseguir os direitos de representação do musical, numa versão escolar que foi adaptada para português de Portugal a partir da versão já existente em português do Brasil, fornecida pelos representantes dos autores.

António Leal explica que “aparentemente, pode parecer desnecessário, mas não é”, já que “existem demasiadas expressões, conjugações verbais e uso de pronomes pessoais que não existem ou não são naturais em português europeu e que é necessário alterar, a fim de conseguir o melhor resultado possível”.

O facto de ser um musical integralmente cantado representou uma dificuldade acrescida na adaptação “devido às mudanças que se originam na rima e na métrica, essencialmente”.

Apesar disso, o resultado final do trabalho de adaptação, levado a cabo por Sandra Leal, foi ao encontro das expetativas.

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Quisemos saber se a versão escolar de um musical difere muito da versão que é apresentada nas produções profissionais. O encenador explicou-nos que não estão em causa “mudanças estruturais muito grandes, nem na música, nem na sequência de texto ou cenas”, sendo que a grande diferença “consiste em tratar-se de uma versão inteiramente interpretada por alunos de Teatro Musical, com ausência total de profissionais”.

E se, dito assim, pode parecer uma diferença pouco significativa, quem conhece o espetáculo sabe que o grau de complexidade dramática e musical faz com que seja um trabalho que não está ao alcance de todos.

Os musicais também têm burocracia

Talvez por isso, a aquisição dos direitos para se poder apresentar o musical implique um processo de candidatura que, afirma António Leal, “não é certo, não é fácil, não é barato. Mas é possível. E é, seguramente, muito mais sério”.

No âmbito da candidatura é geralmente necessário detalhar vários aspetos, como “o contexto geral de apresentação da produção a candidatar, a existência de experiência anterior noutras produções do género, a definição do contexto particular da entidade que pretende promover o espetáculo”.

Para além disso, é preciso pagar “as cauções ou taxas administrativas e as quantias exigidas mediante uma fórmula específica aplicada a cada contexto, no caso de a candidatura ser aceite”, como aconteceu com a da Contracanto.

O espetáculo, que já foi apresentado em três sessões no verão, será agora reposto, contando com cinco apresentações (21, 22, 23, 29 e 30 de dezembro) no Centro Cultural de Carregal do Sal. Este é o auditório que acolhe frequentemente as produções da Contracanto, uma vez que a associação está sediada na aldeia da Lapa do Lobo, bem perto da vila de Carregal do Sal.

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Cultura fora de Lisboa

Este é um exemplo de sucesso da descentralização da cultura, levando produções de grande nível ao interior do país.

A pequena dimensão da associação, sem fins lucrativos, torna difícil a deslocação dos espetáculos a outros pontos do país, embora este ano o musical original Aristides tenha ido até Lisboa para uma breve temporada.

Questionámos se haveria previsão de apresentações de Os Miseráveis noutros locais, ao que o encenador respondeu que “sem apoio financeiro por parte de uma entidade ou mecenas ou interesse por parte de uma produtora nacional, não nos é possível financiar a itinerância dos nossos espetáculos para fora da nossa região”.

Explicou-nos que quando o projeto foi criado, em 2014, o objetivo era que se tratasse de um projeto local, que entretanto cresceu em visibilidade, o que tem levado a que não possam aceitar os “convites vindos de vários pontos do país e até da Madeira”.

“É pena, porque temos recebido muitos convites, mas, enquanto responsáveis por mais de uma centena de sócios, temos de garantir a sustentabilidade de uma associação que, para além de espetáculos, oferece atividades artísticas como dança e expressão dramática ao longo de todo o ano letivo”, conclui António Leal.

Para já, quem quiser assistir ao musical terá mesmo que se deslocar até à Beira Alta nesta época natalícia. Em palco estão os 34 alunos de Teatro Musical da Contracanto, acompanhados pelos músicos da orquestra Poema da Câmara Municipal de Mangualde. Informações sobre os bilhetes disponíveis no site da Contracanto.

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