A Terra do Nunca está, afinal aqui bem perto. No Auditório Municipal Mirita Casimiro, no Estoril, onde encontrámos Peter Pan e Wendy, Sininho, os Meninos Perdidos e um narrador cuja voz nos soa familiar (Ruy de Carvalho).

O espetáculo passa-se naquilo que seria tradicionalmente uma black box. Porém encontramos a sala pintada de azul, numa clara alusão ao céu que Peter Pan e os seus companheiros de aventuras atravessam.

A pequena plateia está repleta de crianças. De facto, embora a inspiração da peça nos quadros da pintora Paula Rego pudesse remeter-nos para uma adaptação mais adulta deste clássico de James Matthew Barrie, a linguagem simples parece dirigir-se a um público infantil.

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O quarto dos Darling / Foto: página oficial do TEC no Facebook

Os figurinos e o cenário algo minimalista assumem um papel de destaque na peça. Os objetos em tons de branco a fundem-se harmoniosamente no azul das paredes da sala, criando no espetador a impressão real de estar dentro de um sonho.

As cenas que se desenrolam perante os nossos olhos ao longo de cerca de uma hora contribuem também para essa sensação onírica. Oscilamos entre o sonho bom e o pesadelo, de acordo com os personagens em cena e com a música que está quase sempre presente.

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Um clássico que se renova

O espetáculo começa com uma personagem sozinha em cena. Reconhecemos Nana, a cadela governanta da família Darling, que circula pelo espaço numa azáfama atordoada e arranca as primeiras gargalhadas aos mais novos. Esta é, de resto, a única personagem cómica da peça, embora existam vários momentos a tender para a comédia.

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Nana / Foto: página oficial do TEC no Facebook

Uma sequência marcada por alguma inverosimilhança apresenta-nos a família Darling, Sr. e Sra. Darling e os três filhos: Wendy, John e Michael. A Sra. Darling lança um primeiro alerta para o que está prestes a acontecer, ao contar ao marido que viu um rapaz a fugir pela janela e que guardou a sua sombra numa gaveta.

Pouco depois, quando todos dormem, vemos entrar Peter Pan acompanhado por Sininho, que não fala mas comunica através do som de um sino. Enquanto procuram a sombra de Peter Pan e tentam colá-la novamente ao seu corpo, acabam por despertar Wendy. Esta propõe coser a sombra, numa cena ilustrada pela projeção do quadro de Paula Rego.

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Wendy e Peter Pan / Foto: página oficial do TEC no Facebook

Outras cenas são também acompanhadas pela projeção dos quadros, criando um efeito de estranheza pelo tom escuro e sinistro das imagens. Porque, apesar de tudo, Peter Pan é uma história infantil (ou será que não é?).

As personagens são, na sua maioria, crianças. A propósito, descobrimos que os Meninos Perdidos se perderam quando caíram dos carrinhos de bebé e é por isso que são todos rapazes. As raparigas são demasiado espertas para caírem dos carrinhos.

Peter leva Wendy e os irmãos pelo céu fora em direção à Terra do Nunca, perante uma Sininho renitente e contrariada. Lá encontramos os personagens que são nossos velhos conhecidos: os Meninos Perdidos, o Capitão Gancho, os Piratas e a tribo dos índios e nem o crocodilo ou a sereia faltam nesta versão que se revela, afinal, bastante fiel à obra original.

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Capitão Gancho / Foto: página oficial do TEC no Facebook

A magia de não crescer nunca

Perante a quase morte de Sininho, Peter Pan pede ao público que acredite em fadas e nós respondemos, sentindo o peso da responsabilidade pela vida da personagem, cuja luz recomeça, então, a brilhar.

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Sininho / Foto: página oficial do TEC no Facebook

Mil e uma peripécias acontecem na Terra do Nunca, onde os Meninos Perdidos constroem uma casa para Wendy, para que ela possa ficar e tomar conta deles. A certa altura, apetece-nos ficar também por ali, habitar a casa de Wendy e não mais deixar a Terra do Nunca.

Mas como qualquer sonho, a história caminha para o seu fim. Peter Pan e o Capitão acabam por se enfrentar num clássico duelo de espadas antes de os jovens Darling regressarem a casa.

Mais tarde, de volta a casa, percebemos que os espera um percurso normal, de crianças alegres e despreocupadas a adultos responsáveis e sem imaginação para se perderem pela Terra do Nunca.

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Wendy e os Meninos Perdidos / Foto: página oficial do TEC no Facebook

Tudo aquilo que Peter Pan rejeita, como explica à Sra. Darling quando esta lhe pede que a deixe adotá-lo. “Ia mandar-me para a escola, e depois para um escritório. E em breve eu seria um homem”, afirma Peter Pan. A Sra. Darling confirma, quase enternecida pela ideia: “sim, muito em breve”.

Mas Peter Pan discorda: “Ninguém me vai prender e fazer de mim um homem. Eu quero ser para sempre uma criança que apenas se diverte”. E, no fundo, não é isso que queremos todos?

Para ver

O espetáculo permanece em cena no Teatro Municipal Mirita Casimiro, no Estoril, até ao dia 24 de dezembro, com várias sessões de sexta a domingo.

Os bilhetes estão à venda nos locais habituais no valor de 10 euros.

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