Os Xutos & Pontapés não são (só) A Minha Casinha, Circo de Feras e Contentores. Quase 40 anos de carreira e 13 álbuns trouxeram-nos canções espetaculares e bem diferentes dos incontornáveis refrãos que estamos fartos de conhecer. Convidamos-te a vasculhar a obra dos Xutos, por ordem cronológica, em mais uma homenagem ao guitarrista Zé Pedro.

Quando eu morrer

Não levarei flores pro meu buraco. Começamos pelo primeiro álbum, 78/82. São uns Xutos longínquos do registo que conhecemos: libidinosos, profanos, muitas vezes boçais. Está remasterizado no Spotify mas dele parecem só ter sobrevivido, nos alinhamentos ao vivo, Sémen e Mãe. São as letras mais cruas de toda a carreira. Não é o que mais me agrada mas resume na totalidade o mote sexo, drogas e rock n’ roll. Quando eu morrer enfrenta sem rodeios a droga e a morte.  

Conta-me Histórias

Amas a vida e eu amo-te a ti. Uma declaração de amor em modo lento cantada por um jovem Tim. Pertence ao álbum Cerco, de 1985, o primeiro com a mais duradoura formação, já com Gui (saxofone) e João Cabeleira (parêntesis escusados). Teve direito, em 2005, a uma versão lindíssima na voz da Manuela Azevedo dos Clã.

Esta Cidade

O poder podre dos homens normais está a tentar dar cabo de mim. Conheci-a através do Jorge Palma e andei durante algum tempo enganado sobre a sua autoria. Começa com um inesquecível solo de saxofone e é uma das melhores cartas de apresentação de uns Xutos reivindicativos e desalinhados. Faz parte do terceiro álbum, Circo de Feras, o primeiro grande desfile de clássicos (Não Sou o Único, Contentores, Vida Malvada e Circo de Feras) e provavelmente o mais importante da banda.

As Torres da Cinciberlândia

Ele há um sítio entre a estrada e o mar que fica de fora para quem lá quer chegar. Nunca percebi o que esta música quer dizer nem me importei nadinha com esse pormenor. Tem uma energia especial, que não sei justificar, e gravita na lista das minhas preferidas. Acho que as sete torres da Cinciberlândia são aquilo que tu quiseres. Pertence a 88, um álbum com uma produção claramente mais elaborada e pai das eternas À Minha Maneira, A Minha Casinha, Para Ti Maria e ENQUANTO A NOITE CAI (não consigo dizer estas quatro palavras sem gritar).

OP53 (O Vento)

Febril, elétrica, paranóica. Uma malha do provavelmente mais injustiçado disco, Gritos Mudos, que viu tantas músicas deixadas para trás. Prepara o casaco de cabedal e os ombros para o mosh de I Love to Play, Melga ou Futuro Que Era Brilhante. Que bem sabe voltar à fase mais rabugenta destes senhores. Estão também aqui escondidos alguns dos melhores momentos do João Cabeleira e do Gui, que o cifras.br nunca conseguirá ensinar. Estaciona aqui.

Estupidez

Anda tudo a ver se mama nesta união da tanga. Gritavam em coro a desilusão da entrada na União Europeia. Veio em 1992 com Dizer não de vez, precisamente no ano em que os GNR lançavam o álbum mais emblemático da carreira, Rock in Rio Douro. Tem um punhado de canções políticas de que fazem parte Dia de S. Receber e Chuva Dissolvente – percebe-se, volta e meia, que a efervescência está a ser tomada pelas responsabilidades adultas.

Tonto

Era a sério, eras tu. No álbum ainda é cantada pelo Tim, mas foi sempre assumida em concertos pelo Kalu e Zé Pedro. Quem diria que seriam os dois durões da banda a verter a balada mais lamechas? Direito ao Deserto, de 1993, abre portas aos primeiros momentos de contemplação (paragem obrigatória na acústica Pequenina) mas são ainda a excepção. Nasce neste disco o Jogo do Empurra e nasci eu neste ano. Eles estavam mais perto dos 40.

Negras como a Noite

Vaaaaaai ficar tudo bem. Este exercício está cada vez mais complicado. Mas não hesito em destacar este que parece um hino, cheira a hino, sabe a hino e é um hino. Não sei como a coisa anda entretanto, mas foi durante algum tempo o último dos encores dos Xutos (se gostas desta toada épica: é parecida, mas melhor que Para Sempre). É dos Dados Viciados (1997), que tem Dá um Mergulho (banda sonora oficial dos meus ollies mal feitos no 7.º ano) e a bonita e culta Manhã Submersa.

Tão Longe de Ti

E as horas custam tanto a passar / Fazem-me ansiar pelo fim do dia / Para voltar ao brilho da tua alegria / E à calma quente que me sabes dar. É um álbum desavergonhadamente romântico e alguém mais informado poderá esclarecer-me se foi feito ou não de propósito para o filme Tentação (homónimo). As letras são mais curtas, nalguns casos inexistentes, e as guitarras estranhamente dóceis. Nesta ternurenta Tão Longe de Ti o Zé Pedro faz a segunda voz do Tim e o João Cabeleira imita-os com o solo de guitarra.

Fim do Mês

Sabia bem um cervejola / Para ver a bola / Pequeno prémio / Sempre ajuda a aguentar. Foi, certeza absoluta, a minha primeira música preferida deles e a primeira memória que tenho dos Xutos. Cheia de ginga, com aquela segunda voz E nós sempre a esticar que me encarregava de imitar com a competência de quem pode ser convocado para palco a qualquer momento. Chegou o séc. XXI e os Xutos não estavam ultrapassados, bem pelo contrário. Este álbum de 2001, quando tudo começou para mim, traz ainda a monstruosa Se Não Tens Abrigo. Que prazer regressar aqui. Obrigado.

Fim-de-Semana

Um dia eu serei chama se fores a minha companheira. Escolhi a Fim de Semana como podia ter destacado outra qualquer de Mundo ao Contrário, o único álbum do qual conheço e gosto de todas as músicas. Estes são os Xutos que, definitivamente, se podem mostrar aos filhos, mas que, em 2004, também não deixavam por mãos alheias a intervenção: Diz-me (sobre o aborto) e Zona Limite (guerra do Iraque) são os melhores exemplos. Sombra Colorida é fantástica, mas tem o Tim a esforçar-se demais para chegar uns tons acima e começa aqui o meu desencanto.

Depois disso os Xutos & Pontapés lançaram ainda mais dois álbuns de estúdio (já agora, alguns dos álbuns ao vivo valem muito, muito a pena) mas já não me conseguiram convencer. Achei as composições mais preguiçosas e a banda cansada disto que é o rock n’ roll. Algures no Puro ouve-se a palavra marado e aquilo soa-me tudo muito mais a Sony que a Xutos. Mas pode ser de mim.

Tenho um carinho muito grande pela banda, pelo que representam e pelas portas que abriram, porque me permitiram descobrir, a partir deles, muita música nova (que eles também inspiraram). Sempre a partir deles. Porque o primeiro amor não se esquece.