Setembro de 2001, São João da Pesqueira. Foi o primeiro (ou um dos primeiros, não consigo precisar) concerto do Zé Pedro depois de ter estado internado em estado muito grave, quando lhe foi diagnosticada a Hepatite C. Eu não percebia nada do que era isso, só que estava perante um momento especial – para ele, que tinha fintado a morte e estava de volta como se nada fosse; e para mim, pela primeira vez a presenciar aquele grito: “Daqui, Xutos & Pontapés!”.

Os Xutos não eram só a minha banda preferida. Eram também, na sabedoria dos meus oito anos, a única e maior instituição rock em Portugal. Olhando em retrospectiva para o panorama nacional no virar do milénio, isso fazia algum sentido.

Os concertos sucederam-se. Ir ver os Xutos significava ao mesmo tempo um momento familiar e a maior descarga de adrenalina que um puto da escola primária podia ter. E não imaginam o orgulho de estampar toda a minha rebeldia naquela t-shirt com o X. Ya, os meus pais levam-me aos concertos dos Xutos. Como não ser o delegado de turma com tamanha vantagem? Os Xutos eram o conforto da voz institucional do Tim e toda a transgressão que o Zé Pedro representava. A melhor definição, e também a primeira, de rock star que conheci em Portugal. “No fim do mês já cá está outra vez, e nós sempre a esticar”.

Uns anos mais tarde, já eu sabia apertar os cordões das sapatilhas, os Xutos lançam o Mundo ao Contrário. Estávamos em 2004 e (só percebi depois) aquele álbum cascava na guerra do Iraque e defendia a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (a título de curiosidade, essa música, “Diz-me”, fez parte da banda sonora dos Morangos Com Açúcar). Ainda hoje é o meu álbum preferido deles e serve para fazer alguma justiça à banda, tratada hoje com alguma (muita) condescendência.

Nessa altura aparecia o Zé Pedro nos concertos com uma t-shirt a dizer Kill Bill. Bem, se era raiva contra algum político, era também o início da minha consciência social. Se o Zé Pedro achava é claro que eu achava também. Kill Bill (eheh). Quando o vídeo da “Ai Se Ele Cai” estreou na MTV, estava de férias num hotel, decidi interromper o pequeno-almoço de toda a gente ao apoderar-me do comando para pôr o volume da televisão no máximo. Por que não?

Um bacanão no meio musical

Entretanto a música portuguesa cresceu muito, e eu também, os Xutos perderam o lugar central do meu iPod, mas nem por isso deixava de reconhecer que tinham estado ali para mim, com canções como “Tonto” ou “Teimosia”, quando comecei a perceber mais ou menos o que era estar apaixonado. Já com a discografia toda sabida de cor, e principalmente de salteado, vi-os no Rock in Rio 2010, no maior palco de Portugal e, para mim, estava feito: consciência perfeitamente tranquila e capítulo fechado.

Já a viver em Lisboa, sabia que o Zé Pedro era tido como um bacanão no meio musical. Surgiu a oportunidade de o entrevistar no Sudoeste TMN 2012 e de comprovar isso mesmo. O meu guião era péssimo, a luz inexistente, o microfone abaixo do nível singstar, e ele estava ali – a ser simpático e a respeitar um miúdo que nem idade tinha para ser jornalista. Feitas as contas, e se alguma coisa pode salvar aqueles cinco minutos de amadorismo, tenho a dizer que fazer uma entrevista naquelas condições foi extremamente punk.

O Zé Pedro morreu hoje e eu, muito mais cínico do que era há uns anos, estou na mesma emocionado. Orgulho-me de lhe poder ter dado um abraço no final dessa entrevista há cinco anos e dizer-lhe quantas vezes tinha visto os Xutos & Pontapés: a contagem rondava as 12. Aproveitei hoje para agradecer à malta do SAPO On The Hop por me ter dado essa oportunidade.

O Zé Pedro deu o seu último concerto há menos de um mês, já altamente debilitado e com a morte traçada. Queria concluir com um epitáfio elegante, mas este facto chega por si. Não tenho nada a ver com a vida nem com os erros dele. Tenho-o como uma boa pessoa, músico carismático e queria agradecer-lhe por tudo o que representou para mim e que contei nestes parágrafos.

Agora, se me dão licença, vou devorar outra vez a discografia dos Xutos & Pontapés.