Nos dias 24 e 25 de novembro, a cidade de Lisboa recebeu o Festival Vodafone Mexefest. Ao longo dos catorze palcos e salas distribuídos pela Avenida Liberdade, a música fez mexer com todos os que por ali passaram.

Os grandes destaques não poderiam deixar de ser para alguns artistas portugueses, porque temos de admitir que de facto temos muita e boa música a ser feita em Portugal – e o Vodafone Mexefest foi só mais uma prova disso.

Para quem nunca foi ao Vodafone Mexefest, imaginem um peddy paper em busca da melhor música; quem conseguir ver mais concertos, fica com mais histórias para contar.

Primeiro dia

Enquanto circulamos de palco em palco pela Avenida da Liberdade e paramos para ver o mapa ou as horas, os Kumpania Algazarra estão de volta ao Vodafone Mexefest para divertir as nossas noites. Através das sonoridades de diversos instrumentos, a música que fazem é nómada e universal. Uma fusão de vários géneros com influências do balkan, arabic, folk, ska e afro-beat.

A maioria do reportório que pudemos ouvir ao longo das duas noites de festival foram temas do álbum Acoustic Express lançado em junho de 2015, mas também alguns arranjos de temas tradicionais.

Relativamente às suas prestações no festival, revelam-nos em entrevista: “Foi novamente um enorme prazer poder espalhar a nossa música e o nosso calor humano pelos caminhos que uniam as salas de concertos do festival, assim como receber o entusiasmo e carinho daquele público maravilhoso que este festival já nos vai habituando.

O público foi espetacular em ambos os dias. Aliás, em todas as edições do festival fomos sempre presenteados com um público entusiasmado, curioso, exigente e sempre a deixar-se contagiar pela nossa energia. Público este que se encaixaria perfeitamente nos enérgicos espetáculos de palco que os Kumpania Algazarra têm dado por esse mundo fora.”

A verdade é que, apesar de serem um grupo que encaixa perfeitamente na animação de rua, não lhes tiraríamos o mérito num dos palcos principais deste festival. “Para nós, tocar na rua e no palco é sempre muito bom e inspirador. Temos sempre experiências e sensações diferentes até porque o nosso espetáculo de rua é diferente do espetáculo de palco, assim como o reportório e a instrumentação se transforma para ambos os formatos.

A rua traz-nos experiências únicas devido à proximidade com o público. Mas voltando à vossa questão, é claro que gostaríamos imenso de poder mostrar o trabalho que desenvolvemos em palco no Vodafone Mexefest”, expõem.

Revelaram-nos também que o novo álbum está neste momento prestes a “entrar no forno”. “Acabámos de gravar o videoclip do novo single e estamos a acabar de produzir os últimos temas, mas ainda não podemos adiantar muito. Irá sair em 2018 e o primeiro single será conhecido no início do ano”. Adiantam também que será um disco com muitas surpresas, que passam por convidados especiais e novas sonoridades.

Washed Out é o projeto norte-americano de dance e música eletrónica que tem sido identificado como “o movimento de chillwave”. Subiu ao palco do Coliseu dos Recreios com o álbum Mister Mellow, editado em junho deste ano.

Através de diversas dinâmicas, gráficos elaborados com “pós de perlimpimpim” e um toque de psicadelismo, estiveram na origem de um dos momentos mais mágicos e agradáveis do festival. Naquele momento, a sala estava repleta de pessoas felizes, que acompanharam todo concerto a dançar e a cantar.

Outra das surpresas da primeira noite foi o aguardado rapper americano Oddisee. Lançou o álbum Beneath the Surface no início deste mês e veio até Lisboa para o último concerto da tour.

Ao contrário do que se esperava, não trouxe a sua banda e a performance aconteceu com apenas um DJ como suporte, o que não deixou de ser suficiente para o público português.

Encheu o Cine-Teatro do Capitólio, que foi gradualmente conquistado por aquele hip hop com influências de jazz, funk, soul e até mesmo de disco. Já numa atmosfera bastante intimista com o público, revelou que sofreu de racismo e partilhou quem era e de onde vinha (filho de pai sudanês muçulmano e mãe afro-americana cristã), promovendo uma linguagem de maior consciência social.

Surma é o projeto one-woman-band de Débora Umbelino, onde dominam teclas, samplers, cordas, vozes e loop stations, em sonoridades que fogem do jazz para o post-rock, da eletrónica para o noise e nos levam para paragens mais ou menos incertas, com paisagens desconhecidas e muito prazer na viagem.

Subiu ao palco da Sala Montepio do Cinema de São Jorge para nos apresentar o disco Antwerpen que editou em outubro deste ano, mas também nos brindou com temas mais anteriores como Hemma e Maasai, que fizeram ecoar a sua doce voz pela sala.

Vem de Leiria e com apenas 22 anos tem recebido várias páginas de destaque em Portugal e fora. No Vodafone Mexefest a sala foi pequena para o seu enorme talento, deixando uma enchente de gente à porta.

“Ainda estou em êxtase com a noite de ontem! Obrigada por terem enchido uma sala tão bonita com um ambiente tão incrível! Peço desculpa à malta que não conseguiu entrar, prometo que para a próxima faço um concerto no átrio para todos! Vocês são só os maiores do mundo!”, declara com emoção no Instagram, após o concerto.

Com sala cheia e uma multidão de gente à porta, o público aguarda ansioso pela chegada do célebre Manel Cruz ao  Tivoli BBVA, “ex-Ornato Violeta” e “homem dos mil-e-um projetos”. É conhecido pela sua forma genial de dar vida às músicas que cria através das sonoridades de diferentes instrumentos, sempre acompanhados da sua voz única.

Subiu a palco acompanhado de mais três músicos e um enorme ouvido branco em 3D como plando de fundo. Baseou o reportório deste concerto nos temas que tem andado a desenvolver para o novo disco, do qual já é conhecido o single Ainda Não Acabei e com o qual grande parte do público português já havia criado empatia. Um concerto bastante pessoal devido à sua abordagem sempre muito genuína que tem perante o público português.

Os Ermo vêm de Braga. Quando se trata de definir o seu estilo musical, António e Bernardo afirmam: “não damos uma label única ao nosso estilo. É sem dúvida eletrónico e experimental com génese em vários estilos diferentes, mas o objetivo é fazer música única e indistinguível”.

Quando os Ermo subiram ao palco da Sala Super Bock na Garagem EPAL, depressa nos deixaram completamente rendidos às suas melodias vibrantes, contracenadas com vozes distorcidas que ecoavam na sala e batidas envolventes, que na realidade não se parecem com mais nada e soam tão bem. É de facto uma mistura de sons interessantes.

Contam como se conheceram: “foi em 2012, em conversa de café, basicamente… tínhamos amigos em comum e enfim, começámos a conversar e identificámo-nos um com o outro, I guess. Ouvíamos as mesmas coisas e acho que não era assim tão comum encontrar outro melómano aos 17 anos em Braga. No dia seguinte já estávamos a gravar cenas.”

Lançaram o álbum Lo-fi Moda, em junho deste ano, e foi isso mesmo que nos vieram dar a conhecer num concerto muito arrojado e dinâmico. “O concerto no Mexefest foi muito fixe, Lisboa trata-nos sempre muito bem e mesmo a noite a seguir ao espetáculo foi muito especial. Aproveitamos para deixar um obrigado a todos os que nos vieram ver”, afirmam.

Também no Cinema de São Jorge, é a vez da Sala Manoel de Oliveira receber Samuel Úria, músico de pop português na vanguarda da música nacional, contratado à última hora para substituir a britânica Jessie Ware.

Subiu a palco de guitarra na mão com temas do álbum Carga de Ombro lançado no ano passado, acompanhado de mais sete músicos e um coro, que dispunham de uma bonita formação em palco.

Temas como Repressão, Dou-me corda, É preciso que eu diminua e Carga de ombro fizeram parte do reportório. Convidou a fadista Gisela João, que surgiu em palco descalça para o acompanhar num tema de Elvis Presley e em Lenço Enxuto, música d’O Grande Medo do Pequeno Mundo, álbum lançado em 2013 e tema originalmente composto com Manel Cruz.

Ambos conseguiram transmitir em palco muita cumplicidade e apreço um pelo outro, tornando esse instante num momento extremamente bonito e intimista. O “poço de energia” (palavras do próprio), Ana Bacalhau, também partilhou o palco com o artista nessa noite.

Chega a vez dos Orelha Negra subirem ao palco do Coliseu dos Recreios para fechar a primeira noite do Vodafone Mexefest. Entre os sons e samples de Sam The Kid, as dinâmicas dos teclados de João Gomes, o groove do baixo de Francisco Rebelo, a batida forte e certeira de Fred Pinto Ferreira e os scratches inesperados de DJ Cruz Fader, tornam-se no único grupo de hip hop em Portugal que não tem um vocalista. E na realidade, não precisam.

Claro que os temas mais clássicos como M.I.R.I.A.M. ou Throwback não foram esquecidos, mas foi o álbum de nome homónimo Orelha Negra que lançaram em setembro deste ano que esteve na base do reportório.

Este último álbum trata-se de uma espécie de viagem espiritual pelo hip hop, carregada de psicadelismo e libertações cósmicas que nos remetem para uma genealogia do soul, com enfâse particular no boogie. Uma vez mais, tudo isto de forma completamente surpreendente.

Segundo dia

O segundo dia do Vodafone Mexefest não começara há muito mas a sala do primeiro andar da Casa do Alentejo já estava bem composta para receber as Sopa de Pedra. São um grupo de dez mulheres provenientes da cidade do Porto que criam e interpretam arranjos originais da música popular portuguesa à capella.

O que as atraiu na música tradicional foi a essência de “juntar as gentes, falar sobre a vida de um povo e explorar a sua riqueza”, remetendo-a para o contexto da música atual por meio de harmonizações e arranjos polifónicos.

Surpreenderam toda a gente ao começar o espetáculo no lado oposto ao palco, atrás do público. Rapidamente o público se virou de frente para estas agradáveis vozes, que foram recebidas com muitos aplausos.

De seguida moveram-se para o meio do público, onde deram voz ao segundo tema. Já com a sala cheia, subiram finalmente ao palco e apresentaram o disco Ao Longe Já Se Ouvia, que lançaram em outubro deste ano. Aproveitaram também para dar a conhecer um pouco da sua história e de como as músicas que interpretam lhes trazem memórias, continuando o espetáculo com um reportório do Cancioneiro Tradicional Português.

Iguana Garcia é um projeto de fusão musical, onde loops de guitarra e sintetizador são condensados por beats eletrónicos e percussões ambientes.

Há sensivelmente um ano, João Garcia, natural de Lisboa, assinalava um quarto de século e foi quando decidiu que faria sentido na sua vida iniciar a carreira de músico: “Queria desenvolver a minha música e tocá-la sozinho, a fusão pareceu-me o caminho óbvio. Com a guitarra e a voz transporto a minha música para o rock psicadélico que cresci a ouvir, com os teclados e os beats abordo o conceito mais dançável de disco”, conta-nos.

Subiu ao palco da Sala Super Bock na Garagem EPAL e com todo o empenho e naturalmente fez com que o público facilmente se rendesse à sua voz distorcida, envolvida em fascinantes melodias psicadélicas. Apresentou o álbum Cabaret Aleatório, lançado em outubro deste ano, que a certa altura voou pelos ares da garagem em forma de CDs para quem os conseguisse alcançar.

O público foi cedendo gradualmente à quantidade de concertos que decorriam em simultâneo noutras salas e ao facto dos cabeça de cartaz estarem prestes a começar, mas ainda assim uma quantidade significativa de corpos dançantes deixaram-se envolver nas suas sonoridades até ao fim.

Terminou o concerto com o single 60KF e de seguida várias pessoas se dirigiram ao palco para comprar o seu disco. “O concerto não podia ter sido melhor e a Garagem EPAL pareceu-me a sala certa para um artista que está a começar como eu. Deu para me divertir muito em palco e apresentar bem a minha sonoridade ao vivo. E claro, por ser uma sala mais pequena e underground, há sempre uma proximidade imediata com o público durante e após o concerto”, afirma com entusiasmo.

Pouco antes do concerto dos cabeça de cartaz Cigarettes After Sex, a sala do Coliseu dos Recreios já se encontrava cheia e o público ansioso pelo concerto da banda americana de ambient pop, proveniente do Texas.

O grupo já tinha assinalado a sua passagem em Portugal no Festival Vodafone Paredes de Coura do ano passado e no NOS Primavera Sound deste ano, no entanto esta foi a primeira vez que o grupo atuou em Lisboa e numa sala fechada, mas mais uma vez em registo de festival.

Serena, melancólica, sonhadora e intimista – é com estas palavras que podemos caracterizar a música dos Cigarettes After Sex. Foram recebidos pelo público português com muito carinho e emoção desde o início, mas foi a partir do tema K, retirado do álbum homónimo Cigarettes After Sex, lançado em junho deste ano, que os fortes aplausos e gritos de histerismo se fizeram ouvir.

Seguem Starry Eyes e Nothing’s Gonna Hurt You Baby do EP I., lançado em 2012. Depois destes clássicos o alvoroço por parte do público continuou e a certa altura a banda teve mesmo de esperar que o público fizesse silêncio para retomar o concerto. Agradeceram muito pelo momento e demonstraram carinho pelo público português, seguindo com o single Affection que levou os fãs ao delírio. Foi um concerto de derreter corações.

Regressamos à Sala Super Bock na Garagem EPAL, já cheia para o concerto dos excêntricos Vaiapraia e as Rainhas do Baile. A voz e o teclado do português Rodrigo Vaiapraia, a guitarra da joanesburguesa Shelley Barradas e a bateria da espanhola Lucía Vives reúnem-se desde o final de 2014 para fazer música em Lisboa. São uma banda punk, com uma abordagem rock ‘n’ roll e uma tendência para o queercore, com letras arrojadas em português. Parece estranho? Diferente, um estranho extraordinariamente bom.

Subiram a palco com uma energia única e contagiante para apresentarem o seu primeiro álbum, 1755, lançado no final de 2016. A maquilhagem metalizada e as roupas extravagantes (criadas por uma escultora amiga da banda e que foram rasgadas durante o espetáculo) não deixaram ninguém indiferente.

O público acompanhava freneticamente se o mundo fosse acabar em breve, contagiados pelas sonoridades que vinham do palco. Entre pequenas palavras entre as músicas e descidas até à plateia, a banda mostrou muito à vontade com o público, tornando este concerto num momento espetacularmente intimista.

Os britânicos Everything Everything subiram ao palco do Coliseu dos Recreios para nos dar uma lufada do seu indie rock. Inicialmente ainda havia bastante espaço na sala, que foi rapidamente preenchido um pouco por todo o lado: plateia, bancadas e camarotes.

Com uma energia que transportam constantemente de um lado para o outro no palco e com as suas vozes singulares capazes de chegarem aos tons mais altos, apresentaram-se com o single A Fever Dream do álbum de nome homónimo lançado em agosto deste ano. Seguiram com Kemosabe do álbum Arc, lançado em 2013, mas foi com temas do álbum Get To Heaven, lançado em 2015, que o público entrou em êxtase – tais como Regret, Spring/Summer/Winter/Dread e No Reptiles, que o público acompanhou a dançar freneticamente e com os braços no ar.

Terminaram o concerto com Distant Past do mesmo álbum, que foi o ponto alto alto do espetáculo. Agradeceram muito ao público português e terminaram com as palavras “Fuckin’ Lisbon, it was fuckin’ great tonight”.

Regressamos ao Coliseu dos Recreios para o último concerto do dia e do festival: o rei da pista, Moullinex aka Luís Clara Gomes. A sala não estava cheia para o receber mas depressa desapareceram os lugares que restavam vazios. Subiu ao palco do Vodafone Mexefest com a sua banda para apresentar a mais recente celebração da história e cultura da música de dança, o Hypersex, álbum editado em outubro deste ano.

Após uma entrada em palco com muito entusiasmo e energia, apresentou os restantes elementos do grupo: Gui Tomé Ribeiro no baixo, Gui Salgueiro aka Willow no teclado e Diogo Sousa na bateria.

Seguem para outro tema e rapidamente aparece mais um elemento do grupo, mas também deste espetáculo em específico. Através da contemporaneidade de um chroma que aparece na bancada do lado esquerdo do palco, Igor Ribeiro aka Ghethoven é projetado atrás da banda em forma de vídeo com gráficos divertidos, assumindo a personagem de drag queen que ao longo do espetáculo encarna os diferentes convidados no disco.

Explica em entrevista que “o disco e o espetáculo foram feitos para a pista. A pista como um lugar de celebração coletiva, um espaço onde todos cabem, onde aceitamos melhor as diferenças e onde nos juntamos para celebrar a vida”. Acrescenta ainda que “uma das vertentes da cultura clubbing é a cultura drag e um drag show é habitual haver este encarnar de diferentes personagens“.

Durante todo o concerto houve muita interação entre o grupo e com o próprio público, e é claro que e os mais recentes singles como Love Love Love, Carnival e Work It Out não faltaram. Houve também espaço para convidados especiais como Da Chick, Xinobi e Best Youth, com os quais partilhou em palco incríveis momentos de cumplicidade. Houve direito a encore e terminaram o espetáculo com a memorável Take My Pain Away do álbum Flora, lançado em 2012.

Depois desta noite memorável não podia deixar de dizer que “tudo isto só acontece graças a muito trabalho e entrega da minha equipa. Estou rodeado de pessoas incríveis, talentosas, humildes e apaixonadas, e por isso sinto que juntos somos capazes, cada vez mais, de desafios cada vez maiores”.

Desde o lançamento do disco que Moullinex se encontra em tour e comenta que está a ser muito bom e que têm tido a sorte de estar sempre em eventos esgotados.

Acrescenta ainda que “o público tem sido muito entusiástico e tem dançado sempre connosco. Acho que isso nos dá ainda mais pica para nos entregarmos em cada concerto”. Estão muito ansiosos por levar este espetáculo a lugares novos e começam já no próximo ano com várias datas pela Europa, seguindo para a América Latina.

O Vodafone Mexefest contou também com a presença de outros artistas, como Sevdaliza, Mahalia, Destroyer, Allen Halloween, Valete, Momo e Hak Baker, entre outros. Abaixo podem encontrar mais alguns registos fotográficos destes dois dias de festival.

Chegámos assim ao fim de mais uma edição do Vodafone Mexefest.