De 2013 aos dias de hoje, o Gnration tornou-se num marco de enorme valor cultural na zona minhota. Um edifício de criação, incubação e inovação, aliado à opulenta história de Braga numa relação harmoniosa com a perspetiva contemporânea de uma cidade tão jovem. Agora, mais do que uma propriedade urbana revitalizada, o Gnration é um símbolo de mudança.

Sendo um espaço que acrescenta e gera talento, foi criada uma iniciativa dinamizadora que pretende promover uma perspetiva sobre a produção artística, nomeadamente música eletrónica e arte digital, por artistas oriundos ou residentes em Braga – OCUPA.

Depois de uma primeira edição, realizada em Setembro de 2016 no Theatro Circo, o OCUPA tomou de assalto o gnration, com uma edição orientada para as componentes performativas e expositivas das artes digitais e música eletrónica.

Às 21h30, entrávamos numa sala preenchida por um número limitado de gente sentada em pequenas almofadas a ouvir a peça ambiental que Tiago Morais Morgado preparara para abrir a noite. Dois focos de luz estáticos, um azul e um vermelho, compunham a sala ao som de uma eletrónica ecoadora e atmosférica.

A performance seguinte ficou a cargo da dupla NaN Collider e de Miguel Pedro, que nos levaram até à Blackbox, um espaço maior pronto para apresentar um espetáculo audiovisual que desenhou os vetores daquilo a que chamamos sinestesia.

Desta vez, a música fazia-se sentir através de fortes tons graves seguidos de harmonias acústicas fragmentadas. As faixas sonoras seguiam minuciosamente a par e passo estruturas digitalmente geradas e reconstruídas para o fenómeno audiovisual do grupo.

O mesmo se passou na atuação dos compositores Tanz Arbeiter. Já num ambiente que puxou a audiência a “bater o pé”, observamos uma interpretação do clássico e controverso filme “La Bataille D’Alger” (1966). A película, recentemente restaurada, foi alvo de um violento corte e costura o que ajudou a definir as amplas e agressivas modulações sonoras da dupla.

Mais tarde, de volta à pequena sala inicial, Bezbog deram-nos uma lição de como desconstruir instrumentos e trabalhar acústicas digitalmente. Um saxofone, um trompete, um pedaço de metal, fios e muitos botões foi o necessário para os artistas apresentarem algumas das suas faixas. Uma performance verdadeiramente experimental.

O último concerto ficou a cargo de Tundra Fault, um projeto que dança entre o techno experimental, o noise ambiental e o acid. Demos conta de uma atuação vigorosamente agitada, ora musicalmente, ora visualmente.

Este espetáculo não era recomendado a pessoas epiléticas e rapidamente entendemos porquê. Os flashes saturados nos ecrãs convidavam à dança e intensificavam as faixas de uma eletrónica intelectual apontada para a pista. O bracarense Miguel De apresentou no evento o seu mais recente single Gotta Let You Go, conduzido pelo videoclip realizado pelo próprio artista. Este é o primeiro vislumbre do novo trabalho, Coherence, a sair em 2018.

Durante o evento, o Gnration teve patente três instalações. Uma delas, já inaugurada no passado dia 19 de outubro, é uma peça do brilhante artista japonês Ryoichi Kurokawa – “ad/ab”. Este trabalho composto por sete canais de vídeo e quatro canais de som quebra as barreiras entre arte e ciência. A visitar até dia 20 de janeiro de 2018.