LEFFEST’17: Robert Pattinson em Portugal para apresentar o melhor filme do ano

O Espalha-Factos está a marcar presença na 11.ª edição do LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival. Naquele que foi o penúltimo dia do festival, destacamos a antecipada sessão de Good Time – que contou com a presença de Robert Pattinson – e O Capitão.

Good Time

(Sessões Especiais – Robert Pattinson Presents…)

“Ao longo dos últimos anos apercebi-me que quando começas a escolher realizadores com quem trabalhar é muito mais fácil entregares-te por completo a eles, confiares neles, enquanto que quando só fazes audições – que eu fiz durante toda a minha carreira, até há cinco anos atrás – fazes a audição, consegues o trabalho, mas há sempre um elemento de ti que está como que a lutar por controlo. Agora posso simplesmente largar por completo o volante… E fui-me apercebendo disto mais, mais e mais com o ‘The Rover’ e depois durante o ‘The Lost City of Z’… Eram realizadores com os quais eu queria trabalhar desde há dez anos. Por isso, na altura em que participei no ‘Good Time’ a minha atitude perante o cinema era completamente diferente. Os Safdies são simplesmente muito bons e reconheces isso de imediato. No ‘Good Time’ – e também ao longo dos meus últimos projectos – realmente apercebi-me de que eu quero ser parte do mundo deles (dos realizadores), não quero estar no meu mundo, não me importa qual é a minha opinião sobre algo, quero simplesmente entregar-me. Acho que quando o ‘Good Time’ chegou já tinha começado a fazer mais ou menos isto nos meus últimos cinco filmes, por isso foi mais fácil entrar nesta mentalidade.”

Foi assim, durante a sessão de Q&A realizada antes da exibição de Good Time, que Robert Pattinson respondeu à pergunta do Espalha-Factos sobre a sua experiência ao trabalhar com os Irmãos Safdie e como isso se reflectiu no seu trabalho. Para quem já viu o filme – que esteve entre os nomeados para a Palma d’Ouro em Cannes – esta entrega de Pattinson à visão dos irmãos é notória: temos em Good Time a melhor performance da carreira do ator inglês – recentemente nomeado para a categoria de Melhor Ator Principal nos Film Independent Spirit Awards – e, possivelmente, o melhor filme do ano.

Good Time passa-se em Nova Iorque durante menos de 24 horas. Esta é a história caótica de uma noite em que Connie (Robert Pattinson) tenta de tudo para tirar o seu irmão Nick (interpretado por Ben Safdie, um dos realizadores do filme), que sofre de uma deficiência mental, da prisão. Não há aqui tempo para parar ou acalmar a respiração – o ritmo é frenético, o pânico constante e a ansiedade eminente. No meio das luzes de néon e dos bairros da Grande Maçã observamos o típico criminoso americano – sujo, mas charmoso – a correr cada vez mais depressa em direcção a um beco sem saída enquanto pensa que tem tudo sob controlo.

É neste sujeito que recai todo o peso do filme, mas Robert Pattinson mostra ter ombros fortes. Há algo de especial na personagem de Connie que vai para lá da tela. São as suas más decisões que o colocam, constantemente, nas péssimas situações em que se encontra, mas perguntamos porque é que tudo lhe corre mal; ele é manipulador, persuasivo, mas apoiamos e aplaudimos o seu pensamento rápido; é ele o responsável pela encarceração de Nick, mas não conseguimos fechar os olhos ao amor que sente por ele e à sua determinação para o salvar. Connie Nickas é a definição de anti-herói. Aliás, é capaz de ser um dos melhores exemplos deste tipo de personagens no cinema moderno – e o mérito aqui tem que ir para o trabalho de Pattinson.

Mas não é só a excelente performance de Robert Pattinson que torna Good Time tão especial. Como foi referido pelo próprio ator: “Os Safdies são simplesmente muito bons”. No seu estilo muito próprio, os irmãos conseguem captar na perfeição os sentimentos de claustrofobia, nervosismo e desconforto intrínsecos à narrativa do filme. Conseguem ainda colocar em evidência, de forma muito subliminar, os problemas de descriminação racial existentes na América, sem nunca parecer que se estão a aproveitar da temática ou a apresentá-la de um modo cliché.

A banda sonora do filme, da responsabilidade de Oneohtrix Point Never, roça também a perfeição, encaixando-se o som electrónico de Daniel Lopatin na perfeição com a desorientação e adrenalina que vão aumentando em intensidade ao longo do filme.

A verdade é que é impossível ficar indiferente a Good Time e a todo este mundo que os Irmãos Safdie conseguiram construir. É a cidade de Nova Iorque vista com novos olhos, é o filme de fuga ou perseguição filmado de uma nova forma.

No final, quando Nick se encontra sozinho numa aula para pessoas com deficiências mentais, o nosso lado racional sabe que a paz está restabelecida, que Nick está no sítio certo para melhorar, que a ação sem pausas acabou e que agora é o momento de, finalmente, andar calmamente. Mas a música The Pure and the Damned começa e somos relembrados de Connie e toda a sua noite. Somos relembrados do início do filme, quando Connie, ao ver outra pessoa com uma deficiência idêntica à do irmão, pergunta a Nick: “É isto que tu pensas que és?”. E, por momentos, apesar de saber-mos que estamos errados, pensamos que, realmente, o lugar de Nick era ao pé do seu irmãoque Connie tinha razão.

Afinal, “the damned always act from love”.

O Capitão

(Selecção Oficial – Fora de Competição)

O Capitão de Robert Schwentke estreia-se em Portugal pela mão do LEFFEST’17, na secção Fora de Competição, depois de ter passado em festivais como o de Toronto e o San Sebástian. Além de se assumir como um filme de guerra é também caracterizado por roçar a comédia negra, à medida que acompanhamos um soldado desertor da Alemanha nazi fingir ser um capitão com ordens diretas do Führer.

Talvez o maior triunfo que Schwentke fez com este O Capitão foi conseguir criar uma relação emocional entre o espectador e o soldado nazi. Normalmente, aquele que se senta na cadeira é convidado a ver os acontecimentos do lado dos heróis, dos aliados, que tentam exterminar a ameaça ao mundo livre e a ideologia radical, mas o realizador não tem pudor em convidar-nos a visitar o outro lado da frente da batalha. Tão pouco pudor tem ele que consegue até criar empatia para com aquele soldado, Herold, que faz de tudo pela sua própria sobrevivência.

Este é um filme, acima de tudo, corajoso e extremamente bem feito. Tecnicamente, da fotografia à mistura de som, da direção de atores ao argumento, é uma longa-metragem extremamente competente. Faz-nos indagar sobre nós próprios, na medida em que torcemos pelo inimigo e criamos uma relação com um soldado responsável por um dos piores massacres feitos a prisioneiros nos “campos de trabalho”, isto a duas semanas do fim da II Guerra Mundial.

Esta é a história de Willi Herold, um soldado raso que provavelmente nunca iria ficar marcado nas páginas da História, mas que, por força do acaso, encontrou uma mala com um uniforme de um capitão de alta patente e decidiu disfarçar-se. Graças ao seu instinto de sobrevivência matou outras 200 pessoas. Foi condenado à morte pelos britânicos depois da Guerra. Um soldado que pertence, inequivocamente, à equipa dos maus. Em 2017, Robert Schwentke decide contar a sua história e o público cria uma relação estranha com este monstro de guerra.

 

Textos de Ricardo Rodrigues e Rui Pereira.

 

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