Raquel André regressou ao Teatro D.Maria II com a sua Colecção de Amantes.

Este espetáculo, que estreou em 2015, voltou aos palcos com mais amantes, mais intimidades, mais fotografias e mais estórias.

O Espalha-Factos foi assistir a Colecção de Amantes no último dia da temporada. Levantamos hoje o pano desta criação, com a ajuda da própria Raquel André.

O que estamos à procura quando encontramos alguém?

Raquel André começou por trabalhar sobre coleções de outros até que decidiu criar as suas. Coleciona coisas raras.

Com a Colecção de Amantes, colecciona amantes. Até agora, 137. Raquel contou-nos um pouco o processo desta catalogação do efémero, como a própria o definiu. O intuito é encontrar-se com pessoas que não conhece, quer seja por intermédio dos seus amigos ou pela inscrição dos próprios amantes.

O encontro ocorre geralmente em apartamentos ‘emprestados’, durante cerca de uma hora, e desta interação deve resultar pelo menos uma fotografia que represente uma intimidade entre os dois.

Colecção de Amantes

Foto: Filipe Ferreira | divulgação

O desafio é “abolir as fronteiras” entre a atriz e o amante, num exercício que não é uma simulação, como aliás Raquel afirma:

“Não é uma ficção. É o meu trabalho, é a minha vida.”

Passou por Lisboa, Rio de Janeiro, Ponta Delgada, Loulé, Minde, Paredes de Coura, Sever de Vouga, Ovar e Manaus.

Os seus amantes, de várias nacionalidades, géneros e idades protagonizam com Raquel André, uma reflexão em palco em torno da intimidade.

Coleciona coisas raras  e que escapam. Por isso, tenta fixá-las. Colecção de Amantes é sua a caderneta de colecionador.

Colecção de Amantes: sobre aqueles que amam

Raquel André estava no Rio de Janeiro: era assistente artística da diretora Bel García e começava já a estudar as questões do colecionismo nas artes performativas. Sozinha na ‘cidade maravilhosa’, começou a questionar-se como se entra em casa de alguém e se conhece o outro, intimamente.

A partir daí, a atriz não parou a compulsão de mergulhar no outro e de o colecionar. Surge então a Colecção de Amantes, cuja tónica gravita em torno das questões da intimidade e acerca daquilo que ela é e simboliza.

A performance apresenta-se quase como um estudo sociológico destes encontros, em que Raquel disseca os pormenores da intimidade:

“57 cumprimentaram-me com um abraço longo, com 80 despedi-me com um abraço forte, com 67 cumprimentamo-nos com dois beijos, 40 tiraram selfies (…), todos, eu olhei nos olhos por mais de cinco segundos.”

Raquel fala-nos do dia, em que num desses encontros com amantes desconhecidos, a pessoa que a esperava era o seu antigo namorado. Nesta fase, a atriz não deixa de indagar como se pode simular algo que já existiu, questionando ainda o paradeiro de uma intimidade que outrora uniu duas pessoas.

As fotografias, que chegam a perto de seis mil, diz-nos Raquel André, são um exercício de chegar a uma intimidade. Estas mostram cenas a dois, como a tomar o pequeno-almoço, a maquilhar-se, na cama, a tomar banho, quando um dos amantes penteia os elásticos caracóis da atriz e muitas selfies.

Escolher a fotografia como médium de registo foi no fundo, uma inevitabilidade das pulsões do mundo contemporâneo.

Voltar a casa

O espetáculo Colecção de Amantes estreou pela primeira vez, no Teatro Nacional D.Maria II, em 2015, onde agora regressa. Seguiu depois para o Rio de Janeiro..

Na altura, a coleção contava com 73 amantes. Agora, com 137, Raquel explica-nos que ela própria mudou, que tem mais experiência e é mais madura no seu trabalho. O resultado, é uma Colecção com uma roupagem diferente, como símbolo também do seu crescimento pessoal.

Colecção de Amantes

Foto: Filipe Ferreira | divulgação

O projeto, conta Raquel, continuará por dez anos, sendo que de dois em dois, a Colecção volta aos palcos.

Ainda no começo deste mês, a atriz estreou a Colecção de Coleccionadores, uma reflexão sobre a memória e as lembranças.

A Colecção de Pessoas (que intitula o projeto total) completar-se-á com a Colecção de Artistas e Colecção de Espetadores.

Até lá, Raquel André estará em cena com a Colecção de Amantes, em março do próximo ano, na Noruega.

Colecção de Amantes – do livro ao teleteatro

Colecção de Amantes

Foto: página oficial de Raquel André no Instagram

Como nos conta a atriz, o livro da Colecção de Amantes VOL I. surge como um convite por parte do Teatro Nacional D.Maria II.

Aqui, Raquel André pretende dar uma nova abordagem ao mesmo objeto, a par do espetáculo.

A premissa é a mesma – uma reflexão sobre a intimidade. O livro regista os primeiros três anos  deste processo de catalogação do efémero.

Lançado no dia nove de novembro, conta com textos de Raquel André, Gregório Duvivier e Tiago Rodrigues.

Colecção de Amantes estreou também na RTP, no dia 25 de novembro, no formato de teleteatro.

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