Parece-me mais frequente na atualidade que a arte se vire definitivamente para a sua própria definição: não propriamente entreter, mas sim tornar-nos conscientes da nossa condição. Porque existe música para entreter, sim, mas os The National nunca subscreveram essa condição enquanto a banda que são.

Sleep Well Beast é o novo pretexto dos norte-americanos para nos lançarem noutra das suas aventuras que nos levam sempre a aplaudir e a suspirar “ena, isto está bom”. Frágil, sonoro, pesado e que se vai queimando lentamente como uma vela. Os The National, para não variar, souberam-se reinventar da maneira correta e este 7.º álbum vem mesmo refrescar os ares.

“Os sonhos são uma maneira de expressar algum medo obscuro que tem de sair de uma forma ou de outra”

Tem os seus low-points e momentos de guitarras frenéticas que rompem a calmaria das músicas. Álbum melodramático e que funciona como uma simulação de emoções: soa a break-up album mas é apenas simulação de tal. O vocalista Matt Berninger foi além e escreveu as músicas com a mulher, quase com o objetivo terapêutico de manter as coisas à superfície.

Os pianos morosos ainda são o pão nosso de cada dia e a voz sorumbática de Berninger está mais branda quando as músicas são penosas como em Nobody Else Will Be There. Talvez a fuga das grandes cidades para o campo, enquanto o disco foi gravado, tornou-o mais especial ainda. Relações na corda bamba, as dificuldades do casamento e afins… são coisas de humano.

O envelhecimento está a apanhar os The National, mas eles estão sempre um passo à frente

O frenesim louco que a guitarra carrega em Day I Die traz também alguma nostalgia da discografia dos The National. Reminiscências e retrospetivas de Matt ressoam na canção e o ritmo vai abrandando dando vez a Walk It Back, mais eletrónica e metafórica. The System Only Dreams in Total Darkness é uma daquelas faixas de amor à primeira vista. O repetitivo “I can’t explain it” resume praticamente tudo sobre esta canção.

Não é que os The National não estejam consistentes, mas estão mais arriscados que nunca. Por qualquer razão que seja, nota-se que a cada audição vamos desenterrando mais camadas da música. Born To Beg é uma das mais vulneráveis obras de arte que o trio Berninger & Dessner(s) já escreveu. A crise de meia idade denota-se especialmente na temperamental Turtleneck: ora se canta sobre a fragilidade do amor ora se revolta com a situação política atual.

Os sons eletrónicos vão aparecendo como figurinos e as letras de Berninger e companhia vão-se tornando mais ambíguas e enigmáticas.

Empire Line é tão pura e simplesmente acerca da passagem inexorável do tempo, envelhecer e aceitar a nossa fragilidade de floco de neve. Suponhamos agora que Matt Berninger e Thom Yorke brincam aos sintetizadores num estúdio? Daí resultaria algo como I’ll Still Destroy You.

Ser efémero, ser finito e erguer esse carácter como um troféu

Guilty Party introduz a parte mais melancólica e romântica do álbum. Carin At The Liquor Store traz consigo a referência à cara metade de Matt, Carin, e lembra-nos que a música é mesmo isto de expormos tudo o que sentimos e a lançarmos à espera de que alguém oiça. O álbum mais íntimo dos The National é frágil e pungente, tal como nos mostra Dark Side of the Gym, mais uma daquelas “right in the feels”.

Sleep Well Beast encerra o disco com reticências ao invés de um ponto final. Tudo o que se fez antes é deixado a meio-gás, enquanto o que antes era névoa agora torna-se transparente e doloroso. A música dos The National nunca teve tantas dimensões e a sinestesia é mais e mais frequente no passar de cada canção.

Talvez Sleep Well Beast seja um manual de instruções para explicar o que pode falhar numa relação se não se agir prontamente. Talvez tudo isto seja um scrapbook retrospetivo da vida. Talvez seja uma crise de meia-idade bem sucedida. Talvez seja uma ode à complexidade de envelhecer num mundo cada vez mais perigoso e menos afável. E o que é que dizemos aos nossos demónios? Sleep well, beast.