O Espalha-Factos está a marcar presença na 11.ª edição do LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival. Cocote e A Ciambra são os filmes que destacamos naquele que foi o oitavo dia do festival.

Cocote

(Selecção Oficial – Em Competição)

Este ano, no Festival de Locarno, Cocote venceu o prémio de Melhor Filme da secção Signs of Life, dedicada a premiar filmes que se dediquem à “inovação da linguagem fílmica”. Após a exibição do filme no LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival, que contou com a presença do realizador Nelson Carlo de Los Santos Arias, rapidamente se percebe a atribuição de tal galardão. Cocote é, de facto, em termos visuais, o mais original e apelativo filme a passar pelo festival.

Alberto é um jardineiro de uma família rica da República Dominicana. Ao saber da morte do seu pai, viaja para o interior pobre do país, zona onde cresceu, de modo a estar presente no funeral. Mas isto implica a participação em rituais típicos da região com os quais Alberto não se identifica e a expectativa, por parte da sua família, de que o jardineiro vingue a morte do seu pai.

Neste premissa não há uma vitória: ou Alberto rompe o seu código moral e faz justiça com as próprias mãos, ou é renunciado pela sua família. Mas este nem chega a ser o tema fundamental do filme de de Los Santos Arias. Cocote é, acima de tudo, a representação de uma pequena comunidade que pratica o catolicismo de uma forma muito específica – e que representação.

A combinação de um trabalho de câmara muito estratégico com o uso de não-atores (que fazem um trabalho invejável), assim como uma excelente utilização do som, faz com que Cocote seja um filme muito físico e sensorial: é com isto que a longa-metragem se destaca – e bem – dos restantes filmes em competição no LEFFEST. E, assim, todas as discussões, todos os rituais, até mesmo a decisão final de Alberto, parecem sair do plano da ficção, entrado num plano mais próximo do documentário.

Cocote mostra claramente todo o potencial que Nelson Carlo de Los Santos Arias tem como realizador. Ficamos, ansiosamente, à espera do seu próximo projecto.

A Ciambra

(Selecção Oficial – Em Competição)

A Ciambra, de Jonas Carpignano, teve como produtor executivo Martin Scorsese e foi o filme escolhido para representar Itália na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A Ciambra é um filme neo-realista que tem como foco a comunidade cigana de Gioia Tauro, no sul de Itália. Mais especificamente, o foco do público é Pio Amato: um rapaz de 14 anos que pensa estar pronto para assumir um papel central dentro da sua família, especialmente após o seu pai e irmão mais velho serem presos.

O filme de Carpignano é, mais do que um olhar sobre as questões raciais em Itália ou a pobreza que afecta certas comunidades, uma história sobre o perder da inocência que qualquer jovem a crescer naquele contexto tem que passar. E, neste caso, esse jovem é Pio, que procura atingir a maturidade sem realmente entender as consequências morais e psicológicas que esta implica. Navega entre a comunidade cigana e negra à procura da aprovação que tanto deseja.

Na procura por essa aprovação, Pio entra numa espiral de roubos, pois tem de mostrar que consegue sustentar a sua família. É nessa espiral que o rapaz vai tendo as tão importantes visões do seu avô com o seu cavalo: “Uma vez fomos livres”, relembra ele a Pio e ao público, que se apercebe então que o rapaz de 14 anos não pode escolher uma outra vida sem ser aquela.

A única escolha que Pio tem nas suas mãos é a de permanecer uma criança, afastada (dentro do possível) de problemas maiores, ou a de entrar precocemente na vida adulta. O que, neste caso, significa a traição a quem tanto o ajudou. A decisão foi feita e, no final do filme é claramente demonstrada: entre dois caminhos, é Pio que decide percorrer o da direita – finalmente é aceite pelo irmão, finalmente atingiu a maturidade. Será isso positivo?