LEFFEST’17: A nova promessa do cinema português

O Espalha-Factos está a marcar presença na 11.ª edição do LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival.  No que toca aos dias 22 e 23 do festival, destacamos três filmes da secção Em Competição: Verão Danado, A Liberdade do Diabo e Lerd – A Man of Integrity.

Verão Danado

(Selecção Oficial – Em Competição)

Pedro Cabeleira e o seu Verão Danado são já uma história de sucesso, muito antes até de passarem pela competição do LEFFEST’17 – se bem que, imagino, deve ser gratificante também ser reconhecido em casa. O primeiro grande trabalho do realizador – feito a partir do nada – já passou por Locarno e acabou por receber a menção honrosa Cineasti del Presente. Agora, Verão Danado estreia-se em Portugal numa sala esgotada e com uma recepção calorosa.

Verão Danado é um filme especial, daqueles que nos deixa a falar durante horas depois do seu visionamento. Uma longa-metragem que se confunde com as nossas próprias vivências. Abre a caixa de pandora de todas as memórias, boas e más, de saídas e excessos, de procuras de sentido e desilusões.

Além de tudo o que o filme é e representa, o facto de ser tão relacionável com o espectador é talvez o seu ponto mais forte. Todos nós somos um Chico, eventualmente expatriados – se não é da terra, é da infância – e confrontados com a cidade, um mundo sombrio e fascinante que Cabeleira consegue tão bem representar através da vida noturna. Todos nós temos uma Clara, um Thierry, um Quarta-feira e uma Tânia na nossa vida. E Pedro Cabeleira teve a inteligência de usar e abusar desta característica do filme que nos leva a ficar agarrados ao ecrã.

É nesta vontade de representar uma geração através das suas vivências e experiências numa cidade que Pedro Cabeleira se revela, genuinamente, numa forte promessa para o cinema português. É nas cenas da boémia que detectamos o seu olhar e um maior à vontade com as suas próprias ideias, mesmo que a execução, por vezes, não tenha sido a melhor. As fragilidades de Verão Danado sentem-se, mas não são, de perto, significativas face à entrega de uma primeira obra tão apaixonada.

Um filme sobre o presente que esquece momentaneamente o passado e não considera o futuro. Uma história de uma geração presa entre a ambição e a falta de oportunidades. Uma personagem sem saudades de casa. Verão Danado é uma boa surpresa no panorama do novo cinema português e coloca nomes como Pedro Cabeleira e Pedro Marujo no mapa.

A Liberdade do Diabo

(Selecção Oficial – Em Competição)

A Liberdade do Diabo, realizado por Everardo González, é, com certeza, um dos fortes candidatos a sair como vencedor da secção Em Competição do LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival. O documentário, que tem pouco mais de uma hora de duração, apresenta a violência e os horrores que ocorrem diariamente no México e demonstra como vítimas e culpados são afectados por estas situações recorrentes da sociedade mexicana. Isto porque a Liberdade do Diabo  não se limita a contar a história dos que sofrem: vai ao encontro dos membros de gangues e dos polícias e militares corruptos, de modo a realizar uma exploração completa daquilo que é a morte e as consequências que a mesma tem para aqueles que ficam, sejam eles os familiares da pessoa assassinada ou aqueles que premiram o gatilho.

Todos os entrevistados usam máscaras. Esta opção não é, completamente, para proteger a identidade das pessoas, mas sim para, subliminarmente, dar a entender que aquela história pode acontecer a qualquer um, que, no fundo, todos somos iguais – o anonimato como agrupador de todas aquelas pessoas.

Todas aquelas histórias são assustadoras, todas elas reais: a excitação após matar alguém pela primeira vez, o remorso de executar crianças, o poder que se sente ao matar; o medo de ter uma arma apontada à cabeça, a vergonha de ter sido torturado e violado, o pavor de reconhecer o sapato de um filho perto de um corpo enterrado no deserto.

Todos estes testemunhos aliados a uma cinematografia bela tornam toda a experiência de A Liberdade do Diabo ainda mais aterradora. Porque não há aqui esperança ou uma possível solução, mas sim a certeza que tudo isto irá continuar. A mensagem do último plano do documentário, onde uma senhora entrevistada retira a sua máscara, é clara: aquelas pessoas apenas podem tentar aceitar o que aconteceu, nada mais.

Lerd – A Man of Integrity

(Selecção Oficial – Em Competição)

Num Irão onde as únicas cores existentes são o preto e o branco, Reza tenta ser o cinzento; num mundo onde só existem opressores e oprimidos, Reza tenta fugir a essa dicotomia. Esta é, essencialmente, a história de Lerd – A Man of Integrety: um homem íntegro que luta para permanecer igual a si mesmo numa sociedade onde o poder, a corrupção e a injustiça predominam.

O personagem principal do filme de Mohammad Rasoulof vive com a sua mulher e filho numa zona rural do Irão, onde se dedica ao cultivo e venda de peixes. Foi aqui que Reza escolheu viver para fugir ao sistema sujo da grande cidade. Mas, como se torna evidente ao longo do filme, aquela zona é tão ou mais corrompida que Teerão. O local é dominado por uma companhia que controla todos os aspectos da vida da região e, para azar do protagonista, a sua quinta é desejada por esta entidade.

É neste contexto que o público vê a vida de Reza a ser completamente destruída ao mesmo tempo que este é puxado até ao limite. Vemos, lentamente, um homem que acredita na justiça a aperceber-se dolorosamente que a mesma não existe, que é impossível remar contra a pressão social que favorece os subornos e as conexões.

E sentimos tudo isto. Toda a injustiça que vemos em Lerd – A Man of Integrity permite facilmente a criação de empatia com Reza. E quando o personagem foco da longa-metragem de Mohammad Rasoulof finalmente sucumbe à série de desgraças que caiu sobre ele conseguimos entender as suas ações. Mas, ao mesmo tempo, sentimos pena – de Reza, que se viu obrigado a abandonar a sua integridade, mas também daquela sociedade ainda tão fortemente assente no pensamento de “quem não está connosco está contra nós”.

 

Textos de Ricardo Rodrigues e Rui Pereira.

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