LEFFEST’17: Como filmar a guerra sem conflito

O Espalha-Factos está a marcar presença na 11.ª edição do LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival. Das sessões de dia 19, destacamos As Guardiãs, Western e O Amante de Um Dia.

As Guardiãs

(Selecção Oficial – Em Competição)

 

O LEFFEST tem, desde a sua origem, a secção de filmes Em Competição. Este é talvez o ano em que a seleção para esta categoria foi a mais forte, com nomes que já andam pelas bocas da indústria, quer sejam veteranos ou novos-talentos do cinema mundial.

As Guardiãs, de Xavier Beauvois, é um dos títulos que está incluído nesta mesma categoria. Um filme sobre a I Guerra Mundial, é também uma história que se afasta de outros títulos com mesmo pano de fundo. A guerra é-nos transmitida, lá longe, pelos olhos de três mulheres, Hortense (Nathalie Baye), Solange (Laura Smet) e Francine (Iris Bry).

Talvez o que é mais interessante nesta longa-metragem de Beauvois é o afastamento do olhar masculino sobre a Primeira Grande Guerra. Ao longo dos quatro anos que durou o conflito, acompanhamos a situação através das conversas, dos olhares, da agonia, das saudades das mulheres que iam ficando para trás. É um filme que trata o que muitos outros tratam, mas que decide mostrar apenas os despojos deixados nas terras longe da frente de batalha.

Além de excessivamente longo, As Guardiães é um filme, na sua generalidade, bem construído. Flui de uma maneira natural ao passar pelos anos do Grande Conflito, transporta o espectador para a província francesa e dá tempo à imagem para criar a placidez de alguém que vive pelas estações do ano, mas que ansiosamente espera pelo fim da guerra.

Western

(Selecção Oficial – Em Competição)

Western é o mais recente filme da alemã Valeska Grisebach. É, aliás, apenas o terceiro filme da realizadora e o primeiro depois de Longing, que estreou há mais de dez anos, em 2006.

Um pequeno grupo de trabalhadores alemães chega a uma aldeia rural búlgara perto da fronteira com a Grécia. Estão lá para construir um central hidroelétrica. Mas a primeira coisa que fazem é hastear a bandeira alemã, reanimando memórias com mais de 70 anos – a virilidade daqueles homens obriga-os a anunciar assim a sua chegada. E qual é o problema? Afinal, apenas estão lá para ajudar aqueles pobres habitantes.

Entre os trabalhadores estrangeiros que ocupam aquele bocado de terra encontra-se Meinhard, um ex-legionário que já andou pelo mundo, mas que ainda procura por algo, alguém. Mas, no fundo, Meinhard sabe, desde o início, que isso não irá acontecer. É com o nada, o vazio, que a personagem central do filme de Grisebach se irá deparar nesta paisagem isolada da Bulgária. É esse o destino que ele sabe que o aguarda, mas que durante o filme tanto luta para evitar.

Meinhard é um homem solitário, sem qualquer família ou relacionamento. É esta a solidão que este pretende combater ao procurar acolhimento numa cultura diferente, ao conectar-se com os habitantes daquela aldeia com os quais apenas precisa de alguns gestos e palavras para comunicar. É com eles que Meinhard se identifica, não com os trabalhadores alemães com os quais a língua não é uma barreira e cujo machismo e nacionalismo são evidentes pelas interacções que estes estabelecem ao longo do filme.

Mas esta nova casa que o ex-legionário vai construído lentamente durante a longa-metragem rapidamente se desmorona. Os habitantes que o acolheram são rápidos a virar-lhe as costas, de tão bom que Meinhard é a jogar às cartas e de tão confortável que ficou com o sexo feminino; o seu cavalo, símbolo de uma liberdade que poderia vir a ser conquistada, morto por um dos trabalhadores alemães; a navalha oferecida ao rapaz que o ensinou a andar de cavalo recusada, pois ali não precisam de tal coisa.

E é ao longo deste cair daquilo que foi conquistado que a agressividade de Meinhard vai ficando cada vez menos latente. Mas – e apesar de talvez necessária – esta nunca é mostrada por completo. Ele ameaça, mas não faz; ele é agredido, mas não responde. O único tiro que dispara é para colocar um fim ao sofrimento do seu animal.

Western é por isso um filme lento, contemplativo. É contido da mesma forma que Meinhard se contém. Não existe um clímax propriamente dito para o qual a história progride ou qualquer grande momento de ação, fugindo assim o filme de Valeska Grisebach ao típico cinema western.

O filme termina com Meinhard sozinho, a olhar para o chão, no meio de um grande grupo que se encontra junto a celebrar e a dançar numa festa da aldeia.

Ele procurou, mas o final nunca poderia ser outro.

O Amante de Um Dia

(Selecção Oficial – Fora de Competição)

O Amante de um Dia, de Philippe Garrel, é um dos filmes que pertence à secção dos filmes fora de competição no LEFFEST deste ano. Depois de ter estado na Quinzaine des Réalisateurs em Cannes, o filme estreia agora em Portugal pela mão do Lisbon & Sintra Film Festival.

Autor de filmes como Liberté, la nuit (1984) e Les amants réguliers (2005), Garrel entrega-nos mais um filme nos mesmo moldes dos seus antecessores. Mas, em vez de captar a atenção do público, o realizador francês faz o espectador resignar-se na cadeira, isto porque O Amante de Um Dia parece uma manta de retalhos de todos os seus outros filmes.

Esta não é a primeira vez que Esther Garrel participa num dos filmes do pai. Aliás, lembremo-nos de La jalousie (2013), onde esta salta para o protagonismo, lugar ocupado normalmente pelo seu irmão, Louis Garrel.

Além de uma promissora entrega da jovem atriz, a par de Louise Chevillotte, uma novata, o filme nunca ambiciona ir a lado algum. Ele estagna desde o seu início e percebe-se o quão pouco inspirado é. No final, O Amante de Um Dia resume-se a um exercício fútil de análise de comportamentos e sentimentos humanos que parece já ter sido visto e reciclado centenas de vezes.

Textos de Ricardo Rodrigues e Rui Pereira.

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