No segundo dia de Web Summit o Espalha-Factos percorreu os pavilhões da conferência e esteve no Pavilhão 2 nos palcos Content Makers FutureSocieties a acompanhar as conversas mais informais, mas não menos sérias, da semana.

O (novo) panorama jornalístico

Numa das primeiras conversas do dia, Cenk UygurCEO do The Young Turks, Joe Pounderpresidente do Definers Public Affair, e Vann R. Newkirk II, jornalista to The Atlantic, juntaram-se para discutir o tema “Media under fire”.

Foi abordada a necessidade dos media congregarem a credibilidade para perguntar “as questões certas”. Uygur foi rápido em afirmar que “o pior tipo de jornalismo é o jornalismo neutro”. Defendendo que o jornalismo objetivo é “agressivo” e descobre o que é ou não verdade. Afirmou ainda que o sucesso do The Young Turks é em parte justificado pela audiência sentir que a plataforma “tenta ser uma mudança no mundo”Joe Pounder falou também da importância de “sair e falar com as pessoas de forma a alcançar o melhor conteúdo possível”. A quebra do tradicional gatekeeping e a capacidade dos media em criar realidade sem existir um bias que estabeleça ordem foi igualmente uma das reflexões. 

Uygur realçou a falta de interesse dos media em mudar o jornalismo atual e a necessidade de “ir atrás” dos mainstream mediaSalientou também, que o verdadeiro medo surge quando todas as fontes estão de acordo e que daqui resulta um “efeito bolha”. A televisão foi também mencionada no que concerne a relação promiscua entre congressistas americanos e estações televisivas.  As eleições americanas não escaparam às criticas, bem como o impacto que os anúncios russos tiveram no resultado eleitoral. A questão final centrou-se na preocupação: What’s going to affect media?”. Ambos os oradores concordaram que havia a necessidade de devolver a credibilidade ao jornalismo e aos media. 

Cenk Uygur, Joe Pounder e Vann R. Newkirk II

Cenk Uygur, Joe Pounder e Vann R. Newkirk II

Entre o espaço e o entretenimento

Na terceira palestra do Content Makers Mike Massimino, astronauta norte-americano, juntou-se a Michael Shamberg, produtor de cinema e televisão responsável por Pulp Fiction Django Unchained, para a conversa “From Outer space to your screen”. 

A discussão centrou-se na ideia de para onde o entretenimento se dirige. O astronauta partilhou a sua experiência a bordo de uma nave em órbita do planeta e o momento em que se tornou o primeiro homem a tweetar a partir do espaço. Shamberg abordou a forma como a ficção cientifica distópica descreve o futuro. Contrastando esta ideia com a perspectiva de que as gerações mais recentes não “temerem a tecnologia”. “O entretenimento deve manter a ciência verdadeira” afirmou o produtor, dizendo ainda que “nunca se pode inventar nada melhor que o real”. O impacto das experiências cientificas, o turismo espacial e a exploração militar foram também abordados e a forma como poderiam afetar a vida fora da terra. 

Massimino referiu também que a aliança que aqueles que olham para o espaço se deva estabelecer “numa aliança com a humanidade e não com corporações“. Shamberg terminou afirmando que a ficção cientifica deva ser mediada do ponto de vista educacional e de entretenimento. Declarações importantes numa era que “todos procuram olhar para a próxima vanguarda de negatividade”, como avisa o próprio. 

Mike Massimino e Michael Shamberg

Mike Massimino e Michael Shamberg

Uma nova forma de olhar a migração

De seguida no palco FutureSocieties debateu-se o tema “Far from home: Tech and migrants” com a participação de Mike Butcher, editor da TechCrunchDjamel Agaoua
CEO da ViberIsmail Ahmed, fundador do WorldRemitAlyssa Newcomb, editora de tecnologia da NBC News

A conversa desenvolveu na necessidade de comunicação por parte de migrantes, como foi o caso de muitos daqueles que ficaram retidos em aeroportos, após a decisão da administração de Trump a bloquear a entrada de indivíduos de determinadas nacionalidade nos Estados Unidos. Para contornar situações destas, foram desenvolvidos portais para que os migrantes possam realizar um double check nas suas rotas e oferecer contas gratuitas e públicas com acesso a chatbots. Este movimento surge deste modo como uma alternativa àqueles que tentam “gerar lucro através dos migrantes”. 

Butcher olha para um plano histórico e afirma que “sem a imigração estaríamos extintos”. Sendo necessário oferecer plataformas que facilitem estas transições, através da encriptação de dados de modo a oferecer um sentido de segurança. Ismail Ahmed realça este aspeto e explana a importância do Viber na sua experiência em manter contacto com a sua mãe. 

 Djamel Agaoua, Ismail Ahmed e Mike Butcher

Djamel Agaoua, Ismail Ahmed e Mike Butcher

Don’t think about refugees but in talent

A tecnologia posiciona-se também como uma oportunidade de oferecer uma integração facilitada e uma possibilidade educacional, para além de ultrapassar barreiras linguísticas. A sua utilização permite o contacto com a família que se mantenha no país de origem.

O papel dos migrantes é ainda reforçado pelo potencial que estes constituem para os países de destino, levando Mike Butcher a afirmar que “os melhores empreendedores do planeta são aqueles que não tem nada”. Existe então uma oportunidade de revitalizar comunidades e economias, como Djamel Agaoua exemplifica pelo caso de migrantes na Europa. 

Butcher concluiu descrevendo que “os refugiados, numa ótica politica e tecnológica, não servem apenas para virar hambúrgueres, mas que ao invés estão a captar empregos com altas competências”.  A necessidade de mudar narrativas é imperativa e é seguro para o orador que os migrantes “não chegaram para roubar empregos, mas para os criar”. 

Alyssa Newcomb, Djamel Agaoua, Ismail Ahmed e Mike Butcher

Alyssa Newcomb, Djamel Agaoua, Ismail Ahmed e Mike Butcher

Um smartphone no sitio certo pode dar-nos uma audiência massiva”

Na última conversa da manhã no palco Content Maker  Quentin Hardy, editor chefe do Google Cloud, juntou-se a Joseph Kahn, editor do New York Times, para a discussão “Do tech companies have to much influence over news?”. O formato estabelecido por Mark Little, co-fundador do Neva Labs e mediador da conversa, é na forma de um debate. O editor do New York Times defende que as corporações não devem ter influência sobre a noticias, enquanto que o responsável da Google Cloud se opõe a esta ideia.

Quentin começa por abordar que existe uma ” influência cultural e política que danificou a linguística”. A sua proposta é precisamente averiguar em que termos falamos de tecnologia nos dias que correm. O fenómeno do digital possibilitou um empoderamento, ao mesmo tempo que as quantidades de informação confundem facilmente os utilizadores. O investigador da Google afirma que “estamos a usar uma linguagem e palavras extremas”, o que ultimamente dá azo a “concebermos fins sem provas”. A imediaticidade possibilitada pelo cloud computing é “fantástico” abrindo portas a uma vaga de criação de conteúdos dentro do espetro cientifico e artístico.

Os jornais foram também uma das questões de relevo. A imprensa escrita e sua perda de destaque face aos novos media, dando o exemplo da migração dos classificados para a Internet. Em tempos os jornais tinham um poder sobre o tempo e espaço e agora a informação é tornada atemporal.

Joseph Kahn e Quentin Hardy

Joseph Kahn e Quentin Hardy

Fake news is a bump in the road”

A preocupação vira-se agora para aquilo que antes seria verdade e agora se torna dúbio. Joseph Kahn explicitou que as “novas plataformas tecnológicas têm mais influência do que alguma vez conseguiram antecipar”. O modelo base do Facebook e do Twitter concentra-se então numa tentativa de agregar o maior número possível de conteúdos oferecendo uma “excelente experiência” aos seus utilizadores. O problema eleva-se pelo facto “destas plataformas não terem pensado totalmente o que fazer com o poder que têm”.  Dando o exemplo das eleições americanas e do BrexitKahn refere que existe agora uma necessidade de “lidar com a responsabilidade de interferência” em grande acontecimentos.

Do ponto de vista filosófico, existe também uma discussão: se devemos e será possível regular plataformas jornalisticas. O editor vai mais longe e afirma que é necessário existirem entidades que se responsabilizem e regulações que permitam vetar certos anúncios digitais.

Quentin Hardy Mark Little Joseph Kahn

No segmento final do debate a questão lançada centrou-se precisamente na ideia se se deve ou não regular estes meios. Quentin Hardy foi rápido ao comparar o que assistimos na esfera digital com os monopólios da água e eletricidade e o perigo que todos corremos que o “lucro e o controlo sejam condensados”. Abordou ainda a necessidade de “nivelar uma tecnologia que até há pouco tempo não existia”.  A dificuldade de regulação reside na ideia de que os jornais digitais “querem clicks e não um julgamento analítico”.

Joseph Kahn termina afirmando que as novas plataformas são construídas como “tecno-utopias” baseadas num conjunto de impressões positivas relativas à tecnologia. Concluindo que hoje percorremos um “território desconhecido” e que a capacidade que muitas opiniões têm para “ser noticias” ameaça a própria democracia.