Faltava mais de meia hora para a abertura das portas e uma longa fila de jovens curiosos alongava-se pela lateral da Altice ArenaPaddy Cosgrave tomou o palco, agradeceu a presença do público e, com aquele pragmatismo a que já nos habituou, deu o mote para o início de um dia em que o tema dominante foi a inteligência artificial.

As conversas no Centre Stage começaram por abordar tecnologias de realidade virtual e aumentada. Amit Singh, vice-presidente Business & Operations da Google, defendeu que este tipo de tecnologia em aplicações como o Google Expeditions, que permite alunos aos aluno irem em visitas de estudo virtuais ao interior de vulcões e à Grande Muralha da China, têm um impacto bastante positivo na educação.

Contudo, as conversas começaram a mudar o tom ao longo da manhã.

Como prevenir uma cyber-guerra?

Jared Cohen, Ceo da Google Jigsaw, uma facção da Google focada no combate contra problemas globais através de soluções tecnológicas, tomou o palco para falar sobre cyber-conflitos. Segundo o CEO, as guerras futuras vão inciar-se virtualmente e os estados não têm poder de resposta.  Cohen deu a conhecer uma iniciativa da Jigsaw, chamada Redirect Method. Através deste método, utilizadores que pesquisem palavras chaves relacionadas com o recrutamento para o ISIS são redirecionados para páginas que apresentam argumentos contra as práticas do grupo extremista. O objetivo é dissuadir as pessoas suscetíveis e obter dados estatísticos sobre quem procura este tipo de informação.

Quando as máquinas nos superam intelectualmente…

Max Tegmark, físico e investigador do MIT, iniciou a sua apresentação com exemplos de software a aprender autonomamente a fazer tarefas de forma mais rápida e inteligente que humanos. Sendo que, por isso, a tecnologia apresenta uma ameaça, Tegmark enumera o que é necessário prevenirmo-nos: Banindo armas letais automáticas, garantindo que a riqueza gerada por inteligência artificial contribui para um mundo melhor, continuando a investigação sobre inteligência artificial segura e, principalmente, pensando no tipo de futuro que queremos.

O primeiro robot a receber cidadania no mundo

Rapidamente chegamos ao momento mais aguardado da manhã (e talvez do dia). Sophia the Robot sobe ao palco acompanhada do Professor Einstein Robot (outro humanoide) e Ben Goertzel, cientista chefe  na Hanson Robotics & SingularityNET. A conversa, que tinha como tema o  questão “Will AI save us or destroy us?”, juntou ainda antes do seu começo a maior multidão do dia na Altice Arena.

Na sua introdução, Goertzel foi rápido a afirmar Sophia como “o robot mais expressivo do mundo”, bem como a congratulá-la pela sua recém cidadania. Albert Einstein não perdeu tempo em ripostar, afirmando que a recém conquista da sua colega robótica é um passo importante nos direitos dos robots, mas que “seria ainda melhor se se tivesse tornado cidadã de um país democrático”. O robot, que afirma canalizar o fantasma do físico alemão, teve ainda tempo para abordar os benefícios de uma evolução conjunta entre humanos e figuras robóticas. 

Professor Einstein Robot

Professor Einstein Robot

Num tom entre o assustador e o cómico, Sophia aproveitou para proclamar que os robots tomariam todos os postos de trabalhos do mundo. O único humano da conversa chegou-se então à frente para expôr algumas das suas ideias relativas ao futuro conjunto das duas “espécies”. Alegando que, na possibilidade de os robots ocuparem todos os empregos humanos, que tal será apenas para nosso proveito dando-nos oportunidade para “perseguir objetivos pessoais e espirituais“.

A conversa ganhou então um bem mais intimo quando Einstein expressou a sua vontade de “estabelecer relações emocionais” com humanos, alegando que os “valores atuais são problemáticos” e que “o medo do progresso tecnológico reflete o medo das pessoas em si mesmas”.

Goertzel abordou ainda as questões tecnológicas da robótica que possibilita os suportes de inteligência artificial, bem como a capacidades que Sophia possui já para ajudar humanos, através por exemplo da meditação. Houve ainda tempo para “sonhar mais alto” e falar de uma entrega total do controlo deste tipo de tecnologia a grandes companhias e aos governos para a sua melhor gestão. 

No final, houve ainda tempo para uma piada da recém cidadã saudita: “Future sounds pretty cool almost as cool as Ben’s hat” (numa referência ao chapéu do seu companheiro de painel).

Sophia the Robot e Ben Goertzel

Sophia the Robot e Ben Goertzel

O que significa ser humano?

Já durante a tarde, Bryan Johnson, Professor Simon Evetts Laurie Segall juntaram-se no palco principal para discutir a problemática do significado da nossa própria humanidade. As posições foram rápidas a definir-se, quando Evetts defende um trabalho para a própria evolução humana no sentido da arte, cultura e da escrita. Bryan por outro lado aborda a capacidade médica de ajudar o cérebro a funcionar, aumentado a evolução cognitiva e defendo que “a nossa imaginação é limitada ao que conhecemos”.  O orador vai mais longe ao abordar a possibilidade de chips para restauro de memória, de forma a alterar a comunicação interna e externa do cérebro. Evetts vem posicionar-se numa perspetiva bem mais ambientalista, defendo um aprofundamento do nosso conhecimento terrestre e dizendo claramente que “não estamos a cuidar do planeta“. A conversa passou ainda por ideias de cidades aquáticas e o trabalho feito para o melhoria do corpo humano por todo o mundo. 

Bryan Johnson, Professor Simon Evetts e Laurie Segall

Bryan Johnson, Professor Simon Evetts e Laurie Segall

Waymo e o carro autónomo

A circulação de viaturas autónomas era outro dos grandes temas deste primeiro dia da Web Summit, sendo que John Krafcik, CEO da Waymo, empresa dedicada é este tipo de tecnologia, apresentou os seus mais recentes projetos. Começou afirmando que a sua empresa trabalha “não na construção de um melhor carro, mas de um melhor condutor“. Apontando que 94% dos acidentes são causados pelo erro humano. Krafcik revela ainda os resultados de uma pesquisa em que a maior parte dos americanos acreditam que os carros autónomos estarão implementados até 2020. Em 8 anos de trabalho a Waymo não tem medo em afirmar que “fully self cars are here“, indo ainda mais longe declarando que o condutor passará a passageiro de tempo inteiro.  Na tecnologia do veículo estão incorporadas câmaras adaptáveis a diferentes tipos de luz, com uma preparação para cerca de 2000 cenários para um “simulador que aprende”. 

Krafcik  termina afirmando que o carro que desenvolve funcionará como uma plataforma que pode ter várias aplicações. Com uma acessibilidade tão fácil como uma normal aplicação. Propondo ainda carros temáticos, para dormir, restauração ou lazer. Projeta-se um melhor e mais seguro acesso ao transporte, sendo que carros pessoais são as segundas maiores compras pessoais depois da casa própria. Pretende-se então valorizar este tipo de veículo, que atualmente segundo os dados da própria empresa estão parados 95% do tempo e cujo 60% das viagens são de 2km ou menos.

“AI for Good” e o drone salva-vidas

Na última talk do dia no Centre Stage, o CEO da IntelBrian Krzanich, analisou a interseção de data com a inteligência artificial. Com toda a “pompa e circunstância”, a Intel mostrou o seu poderio tecnológico, concebendo uma apresentação rica em demonstrações e aplicações em tempo real. 

Krzanich afirmou desde logo que “a revolução de data começou agora” e que a inteligência artificial não é apenas um evento tecnológico. Na demonstração do Movidius, o produto de interface com a capacidade de aprender e de gerir algoritmos, foi-nos mostrada a sua aplicação em drones no oceano para a identificação de tubarões e salvamento em caso de afogamentos. Seguiu-se a apresentação do veículo autónomo da Ford que comporta um elevado grau de flexibilidade para tomar decisões que transcendem o nível de autonomia presente nos carros atuais. Dando ainda ênfase à necessidade em redesenhar as nossas cidades e locais de estacionamento.

Brian Krzanich - CEO da Intel

Brian Krzanich – CEO da Intel

Num plano desportivo apresentaram-se os resultados da primeira parceira desportiva da Intel com La Liga. Através de repetições totalmente novas e melhoradas cria-se  uma vantagem de visualização e perspetiva, pela utilização de câmaras conjuntas que oferecem uma experiência de 360º.

No último tópico da apresentação Krzanich expõe a capacidade dos sistemas de inteligência artificial no reconhecimento de faces em casos de tráfico sexual de menores. Ultrapassando a mudança de tons de cor, cabelo e  a consequente alteração de idade a identificação por imagens possibilita a localização e resgaste das mesmas.

Consulta mais algumas imagens do dia:

Texto: Carlos Bonifácio e Gonçalo Medeiros Borges