O Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora começou na passada sexta-feira, 27 de outubro, e o Espalha-Factos foi visitar, no primeiro fim de semana, o Fórum Luís de Camões.

Fomos descobrir (um pouco) do melhor desta edição: desde uma exposição sobre a verdade de que Tudo isto é Fado — que corre nas veias de todos os portugueses, quer estejam ou não cientes dessa partida genética — até ao poder que os ‘quadradinhos’ têm e como podem servir de veículo para a difusão de questões prementes.

Queres espreitar? Vamos levantar a cortina… mas só um bocadinho.

A 9.ª arte e a vida real

Antes de mais, vamos aos factos: chegámos à 28.ª edição e, embora o Espalha-Factos não tenha estado presente em todas, há pelo menos dois anos que andamos a gostar disto, de nos juntarmos à massa de ‘BDoólicos’. Para eles, não há muito a dizer: tenho a certeza que já foram ver e estão, como é óbvio, a par de todas as novidades. Para quem não percebe o porquê de tanto entusiasmo, tem até 12 de novembro para perceber.

Este ano, o tema da exposição central é a reportagem. Comissariada por Sara Figueiredo Costa, a sua criação contou com a colaboração do Museu de BD de Angoulême e o Museu de Cartoon Israelita.

Produzida a partir do trabalho de diferentes autores, o destaque recai na relação entre a reportagem jornalística e a 9.ª arte e como os ‘quadradinhos’ também podem servir de veículo a este género jornalístico.

reportagem | s. f.

re·por·ta·gem 
substantivo feminino

1. Funçõesserviço de repórter num jornal.
2. Artigo de jornal escrito segundo as informações colhidas por um repórter.
3. Classe dos informadores de jornais.
4. Inquérito radiodifundidofilmado ou televisivo.

"reportagem", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

Um dia, Gabriel García Márquez chamou ao jornalismo — o ofício de analisar, questionar e decifrar a realidade— a melhor profissão do mundo. Nós, por aqui, concordamos. A linguagem da banda desenhada é uma das ferramentas que permitem fazer esse trabalho, de olhar para o mundo a partir de múltiplos ângulos e de o desconstruir e de tornar o seu significado mais perceptível para todos os que olham de fora.

Por dentro da exposição

Uma das obras presentes é Palestina, do jornalista Joe Sacco, que viveu nos territórios ocupados da Palestina entre 1991 e 1992 e acabou por, através da banda desenhada, fazer o relato desse ano no Médio Oriente. Mas Sacco não foi o único a trabalhar a reportagem de guerra com a ajuda de vinhetas e pranchas.

Constantin Guys também reportou a guerra, especificamente a Guerra da Crimeia (1853 a 1856), como correspondente de jornais ingleses e franceses através do envio diário de imagens desenhadas do que se passava nas frentes de batalha.

Para além de outros exemplos de reportagens de guerra aos quadradinhos, há muito mais. Retratos de ativistas a explicar a sua relação com os meios de comunicação locais, uma reportagem ilustrada sobre a autópsia, comics sobre o jornalismo. E tudo num espaço de um azul claro muito bonito e com uma cenografia que não nos desapontou.

Tudo isto é Fado

Nuno Saraiva ganhou, o ano passado, o prémio de Melhor Álbum Português de Banda Desenhada com o álbum Tudo isto é Fado.

Por isso, vê agora uma exposição a ser-lhe dedicada.

O seu trabalho — um conjunto de histórias curtas, escritas e desenhadas por si e que prestam homenagem ao universo do fado e às suas personalidades mais marcantes — ganharam vida, num pequeno espaço cheio de vida.

Referências às sardinhas, a murais que de certeza já todos vimos lá para os lados de Alfama, as luzes coloridas das festas populares, jogos de cartas, livros sobre fado e sobre os santos, um dispensador de vinho com uma ilustração catita e, claro, a severa. E, por que não, uma mesa daquelas de esplanada para quem quiser esticar as pernas?

E mais, hã?

Sim, há mais, muito mais. E prometemos voltar para contar. Mas, entretanto, podem ir dar lá um saltinho e partilhar pelas redes sociais as vossas descobertas deste mundo que, no final das contas, junta a literatura e o cinema num só — ou assim nós gostamos de pensar.

Fotos de Raquel Dias da Silva.

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