a vida de brad

A Vida de Brad: “Autocomiseração – O Filme”

Ao longo dos últimos 20 anos, Mike White tem tido uma carreira esporádica atrás das câmaras. Mais conhecido por escrever o argumento do Escola de Rock (2003), este ano estrearam três projetos da autoria do também realizador e ator, de entre eles o ainda inédito em Portugal Beatriz at Dinner e o terrível Emoji: O Filme. Chega agora às salas o mais recente, A Vida de Brad, uma comédia dramática com um Ben Stiller irrepreensível.

Brad Sloan (Stiller) tem uma carreira satisfatória e uma vida confortável com a sua mulher, Melanie (Jenna Fischer), e o seu filho Troy (Austin Abrams), um prodígio musical. A realidade, no entanto, não é bem o que imaginava nos seus tempos de faculdade. Uma viagem a Boston com Troy, a fim de procurar uma boa universidade, despoleta em Brad uma crise de confiança: começa, então, uma comparação incessante entre a sua vida e a dos seus quatro melhores amigos de faculdade. Enquanto imagina as suas vidas de riqueza e glamour, Brad pergunta-se se a sua vida confortável de classe média é o melhor que alguma vez conseguirá e se terá realmente falhado ou se, de alguma forma, a vida dos seus velhos amigos será menos especial do que imagina.

a vida de brad

É um monólogo interior que rege A Vida de Brad. O voice-off de Stiller está sempre presente, pleno de divagação existencialista, ganhando Brad sempre a compaixão e compreensão de quem está a ver, quase sem fazer por isso. A crise de meia-idade é aqui palpável, real. Acima de tudo, A Vida de Brad incide uma luz sobre os tão atuais problemas silenciosos da insatisfação crónica e da depressão e como estes podem minar perspetivas de futuro e relações interpessoais.

A câmara de White, em formato 2:1 (usado em recentes produções televisivas como House of Cards e Stranger Things), é intimista no quanto segue o seu protagonista. A montagem encadeada da realidade de Brad, da sua visão fantasiosa das vidas dos seus antigos companheiros de faculdade, do imaginário do que a sua vida podia ser e daquilo que o futuro lhe reserva oferece uma oscilação meditada, entre risos comedidos e momentos de melodramática contemplação.

A conjugação entre comiseração do personagem pelo seu próprio percurso de vida e uma inveja desmesurada pela vida de aparências dos seus contemporâneos bem-sucedidos nunca é menos que tocante, atestando a sensibilidade do argumento de White e o respeito por Brad. E quem era Brad sem Stiller? O ator está aqui no seu melhor registo cómico-dramático dos últimos anos. A Vida de Brad, acima de tudo, é uma obra que assenta no desempenho do seu protagonista, na capacidade de transmitir a angústia através de narração e expressões contidas de cansaço emocional – Stiller atinge aqui o topo das suas habilidades.

De ressalva também Abrams enquanto Troy, um farol de sanidade na vida do pai. Mencionar também Michael Sheen, que partilha uma única cena com Stiller e lhe rouba, por breves minutos, os holofotes, com as suas revelações e a sua completa oposição à desolação de Brad.

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A Vida de Brad, a ter algo de negativo, será somente a maneira algo apressada como arruma a questão existencialista do seu protagonista; mais 15 minutos de filme não iriam saturar ninguém e a experiência emocional poder-se-ia considerar completa. O que fica da fina orquestração de Mike White é, contudo, um retrato pleno de misantropia e autocomiseração, um gritante espelho de tantos em silêncio na sociedade competitiva de hoje.

Que na vida o sucesso não se meça por meio de comparação ao do alheio. O poder de A Vida de Brad é como que análogo à ideia tecida na sua tapeçaria psicológica: não é com esta que se vão querer comparar a maioria das comédias dramáticas independentes.

Está noutro nível.

8/10

Título original: Brad’s Status
Realização: Mike White
Argumento: Mike White
Elenco: Ben Stiller, Austin Abrams, Jenna Fischer, Michael Sheen, Jemaine Clement, Luke Wilson, Shazi Raja, Luisa Lee, Mike White, Xavier Grobet, Adam Capriolo
Género: Comédia, Drama
Duração: 102 minutos

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