A Feiticeira do Amor: a magia em technicolor

A Feiticeira do Amor é um filme realizado e produzido por Anna Biller (Viva, 2007). A película conta a história de Elaine (Samantha Robinson), uma deslumbrante jovem feiticeira, determinada a encontrar um homem que a ame. No interior do seu apartamento de estilo gótico-vitoriano faz feitiços e poções, jogando a sua sorte no amor. Tudo muda quando um dos seus feitiços funciona para além do esperado e o seu caminho fica manchado pelo homicídio. Quando, eventualmente, encontra o homem dos seus sonhos, a sua obsessão por amor vai levá-la ao extremo da paixão.

A Feiticeira do Amor é uma viagem romântica tragicómica que se veste de retro e varia o seu género entre o horror sangrento e o estilo telenovélico. Apresenta um estilo visual que vai buscar as suas inspirações aos thrillers Technicolor dos anos 60. O projeto de Biller é composto na integra à sua imagem, sendo que o argumento fica a seu cargo, bem como toda a música, edição, produção de design, guarda-roupa e decoração. A visão é ultimamente uma fusão aromática de cores e formas, que obedecem a um preciosismo visual encantador.

A história de Elaine não é totalmente original. No entanto, Biller introduz na sua personagem uma misticismo de artes mágicas que envolvem a película num mundo idílico. Mundo esse que cabe na realidade atual, ao combinar o presente com a historicidade que nos transporta para a medievalidade. Felizmente debaixo deste espectro visual é possível encontrar uma história que se ajusta caricaturalmente ao dias de hoje.

Samantha Robinson (Elaine)

Samantha Robinson desempenha hipnoticamente um papel de uma mulher perturbada pelo amor e pela sua promessa, que muitas vezes se revela ilusória. Quando tudo corre mal, Elaine ganha os contornos de uma Bonnie solitária que procura incessantemente o seu Clyde. Claro que pelas suas vestes fashionistas negras e encarnadas a magia atravessa a sua aura. Perante o pesar de relações amorosas, a magia releva-se uma ferramenta de empoderamento. Robinson incorpora na sua personagem uma Morticia Addams (bem menos sádica) numa pose e maneirismos que procuram captar uma atitude de musa perdida.

A forma narrativa é ela também exímia fazendo-se acompanhar de uma narração que nos faz lembrar de um conto de suspense. A sedutividade é imposta desde logo pela linguagem de Biller, que aponta o seu espectador para os mais mínimos detalhes, sejam eles o batom rosa, o cigarro no canto da boca ou a sombra de olhos azul. Tudo aqui funciona para o encantamento do público que se prende na joie de vivre que Elaine transborda a cada movimento.

É difícil abordar a cinematografia isolada do design dos sets e do guarda-roupa, não fosse a película um ser tão esclarecido sobre si mesmo e competente. Existe uma regra seguida na perfeição, que cria um ambiente rico em fumos, cores e luzes. O estilo victoriano, medieval e retro fundem-se num aspecto granulado de visões caleidoscópicas. A mais satisfatória nota será perceber que a inspiração não se esgota no visual.

Samantha Robinson (Elaine)

“Amor perfeito e confiança perfeita”

A história, aparentemente inocente e singela, ganha uma proporção diferente quando somos confrontados com os extremos do amor. O punhal ensanguentado puxa-nos de volta para a verdade nua e crua, de que as fantasias não duram para sempre. Biller introduz então um discurso totalmente assertivo trazendo para os seus diálogos conceitos como “patriarcado”,poder feminino” e “poder sexual“. O tom da película é assim confrontado pelas suas próprias afirmações. Por detrás da aventura romântica podemos vislumbrar um luta bem mais profunda que aborda questões feministas, enterlançando-as com com um debate de espiritualidade entre o bem e o mal.

A Feiticeira do Amor não terá muito do reconhecimento por parte do grande público que merecia, mas será certo que deslumbrará aqueles tenham a sorte de o experimentar. Biller multiplica-se na sua responsabilidade de realização, edificando a sua própria visão sem medo de olhares que a julguem, não pela ousadia das suas afirmações, mas pela frontalidade com que o faz. Samantha Robinson junta-se também para ajudar a realizadora a completar a sua fantasia pela sua performance que se revela, talvez tardiamente, bem mais emocional do que possa parecer. A película peca mais evidentemente pela sua expansão, mas nenhum minuto a mais consegue manchar o restante trabalho.

A dimensão que observamos, e que foge muitas vezes à realidade, é maioritariamente saudosista. O final conserva em si a chave da película, que a vai blindar num arco irís tão incandescente capaz de repudiar todo o mau olhado. O conto de fadas vira luta amorosa e aqui nenhuma poção pode ajudar.

 

7/10

FICHA TÉCNICA

Título: A Feiticeira do Amor
Realização: Anna Biller
Argumento: Anna Biller
Elenco: Samantha Robinson, Laura Waddell, Jeffrey Vincent Parise, Robert Seeley Jared Sanford
Género: Comédia, Horror, Romance
Duração: 120 minutos

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