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Foto: David Martins | EF

‘Sopa para a Síria’: livro de receitas junta chefes de todo o mundo para ajudar refugiados sírios

Barbara Abdeni Massaad, apresentadora de televisão, autora de livros de culinária e ainda fotógrafa, organizou um novo livro de receitas, Sopa para a Síria, com o intuito de auxiliar os refugiados sírios.

Num livro em que a sopa é o prato principal, a autora contou com contribuições de chefes internacionais que doaram as suas receitas preferidas, como Anthony BourdainEzzat EllazAlice Waters e também portugueses, como Kiko MartinsRui PaulaLjubomir Stanisic, Miguel Rocha Vieira, entre outros.

Espalha-Factos esteve à conversa com Barbara Massaad, que nos revelou os pormenores da sua visita ao Vale do Beca e a urgência da mensagem de ajuda nesta crise humanitária.

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Foto: David Martins | EF

O nascimento de Sopa para a Síria

Chegamos ao bonito restaurante libanês Muito Bey, em Lisboa, onde nos espera Barbara Abdeni Massaad. 

Descontraída e bem disposta, não perde tempo em explicar-nos como este projeto lhe surgiu naturalmente como reação ao cenário desumano com que se deparou no campo de refugiados que visitou.

A autora recorda o dia em que iniciou todo o processo que culmina no livro Sopa para a SíriaPerto da altura do Natal, Barbara recorda que chegara ao Líbano (de onde é natural) uma grande vaga de refugiados vindos da Síria. Na televisão, retratos de crianças sob um pano de neve, geladas de frio, inquietaram a chef, que não conseguiu ficar indiferente.

“Sou mãe de três filhos. Nessa noite, não consegui dormir a pensar nessas crianças. E assim, decidi que queria ir e ver pelos meus próprios olhos o que estava a acontecer”.

Inicialmente, diz-nos Barbara, a sua intenção não seria compilar um livro. Esse projeto surgiu-lhe mais tarde e no decorrer da convivência com os refugiados. Fotografou-os, conversou com eles (sobre comida, inclusive) e como a própria afirma, a sua missão naquele momento era simplesmente a de mostrar àquelas pessoas que alguém se importava.

Mas rapidamente a autora percebeu que não poderia ficar simplesmente por aí.

“Achei que as pessoas deveriam ver estas fotos [dos refugiados]. São retratos emocionais de pessoas como eu, como tu e como nós, não existem diferenças. Eu quis acordar nos outros o desejo de os ajudar.”

A autora desvenda-nos ainda uma outra intenção do seu trabalho fotográfico: não queria que este resultado fosse triste nem dramático, com “crianças a chorar”, mas sim algo positivo e do qual os refugiados tivessem orgulho. Por isso, as fotografias não são chocante,  mas sim retratos de momentos genuínos.

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Foto: Barbara Abdeni Massad, ‘Soup for Syria’

Começa assim a desenhar-se o projeto que culminaria no livro de receitas (e fotografias), Sopa para a Síria. 

A crise humanitária dos refugiados: o acordar das consciências

A intenção de Barbara com Sopa para a Síria é voltar a aproximar uma matéria que ainda que nos seja próxima, por vezes fica esquecida. A autora acredita que a situação dos refugiados tomou proporções incomparáveis e é uma das maiores crises humanitárias atualmente.

Quando questionada sobre os principais problemas que encontrou nestes campos de refugiados, a autora responde taxativamente:

“O maior problema destes campos é que eles existem. A forma como eles [os refugiados] estão a viver é inaceitável. Imagina viveres com quinze pessoas numa tenda, com lama, lixo e água suja em todo o lado. É terrível. Lamento dizer isto, mas existem animais a viver em melhores condições.”

Sopa para a Síria é assim o seu esforço de Barbara Massaad, enquanto chefe e fotógrafa, de pôr a sua profissão ao serviço dos mais vulneráveis.

 

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Foto: David Martins | EF

Parte dos lucros da publicação e venda do livro vão ser doadas à agência das Nações Unidas para Refugiados, que os distribuirá por diferentes países em necessidade.

Até agora, foi angariado cerca de meio milhão de dólares, cujo intuito é o de auxiliar os refugiados recém-chegados aos países a restabelecerem-se.

Sopa: a “comida de conforto” que dá mote à iniciativa

Sopa para a Síria como o nome deixa adivinhar, acolhe a sopa como ‘prato principal’.

Barbara Massaad justifica que decidiu dar destaque à sopa também porque ela é símbolo do trabalho que fez com a associação Slow Food Beirut. Por desafio de uma amiga, Barbara semanalmente preparava sopa para as famílias refugiadas. Daí surge a ideia de compilar este livro de receitas de sopa.

“Quando pensamos em sopa, pensamos em alguém a abraçar-nos. A sopa é comida de conforto.”

A elaboração deste livro foi resultado não só da cooperação de chefes internacionais, como também de amigos e familiares de Barbara. Mas não só. A autora contou ao Espalha-Factos que lançou o desafio aos seguidores da página de Facebook de Soup for Syria  de lhe enviarem as suas receitas preferidas de sopa e assim participarem também neste projeto.

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Foto: Barbara Abdeni Massad, ‘Soup for Syria’

Chegaram-lhe cerca de 200 receitas e após um workshop em casa da autora, escolheram-se as preferidas, que constam agora no livro.

“Todas as receitas são realmente muito boas. Se tivesse de escolher uma como a minha preferida, talvez fosse o gaspacho de beterraba vermelha. É uma receita diferente porque o gaspacho geralmente é feito com tomates, mas neste caso temos beterraba e ainda pistácios, uma combinação que resulta muito bem.”

Ainda assim, Barbara Massaad não consegue deixar de incluir na sua lista de favoritas a sopa de abóbora assada e cárdomono, a sopa de cogumelos e a sopa de lentilhas vermelhas com verjuice de alepo. Esta última, a autora conta-nos ter-lhe sido doada por uma família síria que conheceu no Farmer’s Market.

Já no que diz respeito a receitas de chefes portugueses temos a sopa de feijão frade, de Rui Paula; a sopa portuguesa de grão-de-bico de Marina Ana Santos; a sopa de cavala de Ljubomir Stanisic; o gaspacho verde e cavala marinada de Kiko Martins e ainda a ‘nossa sopa do mar’ de Miguel Rocha Vieira.

Receitas para celebrar a partilha

No fundo, Sopa para a Síria é mais do que um livro de receitas, é um projeto de esperança. A autora diz-nos:

“Quero passar uma mensagem de tolerância. Se alguém parece ser diferente de nós, não significa que seja o inimigo. Quando conhecemos realmente as pessoas, percebemos que somos todos iguais.”
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Foto: David Martins | EF

Barbara confidencia-nos também que nunca esperou que o livro fosse tão bem recebido e tão apoiado internacionalmente.

Atualmente, Sopa para a Síria encontra-se publicado nos EUA, Reino Unido, Portugal, Holanda, Alemanha, Itália e vai chegar em breve à Turquia.

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