O sol quente das quatro da tarde não demoveu as crianças e os pais que faziam fila à porta do CineTeatro D. João V, na Damaia, para assistir à única apresentação do espetáculo musical A Fada Oriana, levado à cena pela companhia II Acto.

Enquanto uns aguardavam para levantar os bilhetes previamente reservados, outros mantinham-se na fila na esperança que houvesse alguma desistência e que surgissem novos bilhetes para uma sessão esgotada, como se lia à entrada.

As atribulações logísticas ditaram o início do espetáculo com um atraso de cerca de 20 minutos. No entanto a plateia, composta maioritariamente por crianças, nem por isso perdeu o entusiasmo, como se percebia pelo barulho típico de um auditório com quase 400 lugares ocupados.

Que comece o espetáculo!

O barulho cessa assim que uma personagem (Vera Feu) entra sozinha em palco, com a cortina ainda fechada, e começa a cantar. Está dado o mote para a história que se segue: “uma floresta encantada, onde vive uma fada, e as rainhas do bem e do mal”.

O número musical que abre o espetáculo promete ritmo, harmonia e dinâmica. Quando a cortina sobe desvenda-se um cenário de bosque simples mas interessante, ajudado pelo jogo de luzes que transmite uma sensação de magia.

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Abertura de ‘A Fada Oriana’

Uma fada e outros seres mágicos

A Fada Oriana (Karine Garrido) apresenta-se ao público e é imediatamente interrompida pela entrada em palco da personagem Velha (Élia Gonzalez). Esta canta sobre a sua Negra Vida, canção ritmada de tom cómico, naquele que é um dos momentos mais divertidos e bem executados de todo o musical.

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A Fada Oriana e a Velha

Os aplausos da saída de palco da Velha fundem-se com as palmas que acolhem a chegada triunfante do personagem Espelho, interpretado por Valter Mira.

O Espelho conquista o palco e afirma a sua presença com uma voz estridente, um figurino reluzente e maneirismos estranhos. O espetador não consegue desviar dele o olhar, apesar de em palco estar também a protagonista.

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A Fada Oriana e o Espelho

As entradas e saídas de personagens que interagem com a Fada Oriana sucedem-se a um ritmo quase alucinante. Depois da Velha e do Espelho é a vez do Poeta (Bernardo Lobo Faria), com direito a uma balada cuja interpretação é marcada por algumas dificuldades de som. É seguido pelo Peixe (David Cipriano) e pela Rainha das Fadas Más (Élia Gonzalez).

A chegada do Peixe marca a viragem da história, o momento em que a Fada Oriana começa a deslumbrar-se com a sua beleza e com a possibilidade de sair da sua floresta para poder voar e conhecer o mundo. Apesar disso, Oriana rejeita o convite da Rainha das Fadas Más para ir viajar pelo mundo e é ameaçada com a possibilidade de deixar de ser fada.

Do sombrio ao momento Broadway deste musical

A Rainha das Fadas Más entoa a sua canção, momento em que a música, até então alegre e a lembrar as canções do universo Disney, se torna mais grave. Passa então a ser marcada por uma sonoridade mais negra, que condiz com o espírito das novas personagens e com o rumo que a história começa a tomar.

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A Rainha das Fadas Más

A tendência musical sombria é interrompida pela canção O Homem Rico, interpretada pelo Espelho acompanhado por um coro de vozes.

O solo do Espelho oferece aquele que é provavelmente o momento mais alto de todo o espetáculo. Uma execução vocal e coreográfica quase irrepreensível que nos faz pensar que estamos num musical da Broadway.

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Espelho na canção ‘O Homem Rico’

A eterna luta entre o bem e o mal

Perante o desesperado pedido de ajuda do Espelho, a Fada Oriana mostra-se apenas interessada em saber se “é a mais bela de todas” e acaba por mandá-lo embora.

Segue-se o momento do dilema de Oriana, ao som de uma versão da música Supercalifragilisticexpialidocious (tema icónico de Mary Poppins). A canção traz ao palco todos os personagens, numa roda viva de vozes e coreografias que indicia o caos que se instalou na floresta.

Quando a canção termina abruptamente, Oriana vê a Rainha das Fadas Boas (Helena Montez) retirar-lhe a sua varinha e os seus poderes de fada. Ao cair em si, Oriana percebe que falhou com as suas promessas.

Esta é depois novamente visitada pela Rainha das Fadas Más. Esta propõe-lhe que a ajude a fazer o mal, prometendo devolver-lhe as asas, em mais uma belíssima interpretação musical de Élia Gonzalez. Nesse momento, Oriana percebe que foi enganada pelo Peixe e que “tudo não passava de um plano da Fada Má”.

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Oriana e a Rainha das Fadas Más

Já a caminho do final do espetáculo assistimos a um novo número musical de disputa entre o bem e o mal, desta vez ao som de uma adaptação de What is This Feeling (do musical Wicked). A música procura explorar um jogo de vozes para refletir os sentimentos dicotómicos de Oriana, jogo que nem sempre funciona com as vozes principais, apesar da excelente harmonia do coro.

Segue-se o momento da redenção de Oriana, em que a personagem se sacrifica para ajudar a Velha, que traz novamente o tom autenticamente cómico à cena. É o momento da Rainha das Fadas Boas cantar uma versão adaptada da canção One Day I’ll Fly Away (Moulin Rouge). Uma interpretação a solo que não surpreende pela positiva e que revela algumas dificuldades nas zonas mais agudas.

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A Rainha das Fadas Boas

Depois de devolver as asas e os poderes à Fada Oriana e de ensinar ao Peixe que “a Rainha das Fadas Más só atormenta os assustados”, a Rainha das Fadas Boas introduz a canção final do espetáculo. Trata-se de uma adaptação de uma música do filme Barbie – A Princesa e a Aldeã, que sabe a pouco e não chega a atingir uma verdadeira apoteose.

Um espetáculo que faz as delícias das crianças

Ao longo do espetáculo, algumas personagens secundárias (como o Moleiro e a sua mulher) desfilam, por breves momentos, pelo palco em números essencialmente cómicos. Parece ser uma busca de equilíbrio entre momentos mais sérios e, por vezes, dramáticos, e momentos divertidos e relaxados.

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O Moleiro com a mulher os filhos, a Velha e o Espelho

Com bons desempenhos vocais por parte do elenco e execuções coreográficas razoáveis, o espetáculo funciona bem para o seu público-alvo. Este acaba por conseguir alguma coesão, apesar da ausência de uma linha melódica estrutural que conduza a evolução da história.

Merecem destaque os figurinos que, neste caso, muito contribuem para que os personagens ganhem vida e consigam transmitir o universo de magia da história.

Fotos de Eduardo Filipe.

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