Misturemos ópera barroca, dança contemporânea, mitologia romana, uma história de amor de Virgílio, um palco despido e teremos Dido e Eneias, da Companhia Nacional de Bailado (CNB). 

No palco do Teatro Camões, em Lisboa, até dia 22 de outubro, próximo domingo, a versão de São Castro e António Cabrita desta ópera do século XVII sufoca até os corações mais resistentes, apertando-os entre duas mãos.

Antes mesmo de o relógio marcar a hora prevista para o início do espetáculo, a cortina sobe até menos de meio e, no pequeno espaço de um palco nu que vemos – complemente despido de coulisses e de cenários elaborados –, surge uma figura feminina a demarcar um espaço, andando inquieta, em círculos.

A cortina subida até menos de meio faz com que o espetador – aquele que espera quem é esperado – como que espreite o que ali se passa; faz com que entre a medo no andar vincado de Dido. E contudo entra; ficando nele, prendendo-se nele.

Enquadramentos

A lembrança de Dido, figura da Eneida de Virgílio, surge como aquela que funda uma cidade no norte do continente africano, depois de ter fugido de Tiro, cidade fenícia no Líbano, com as riquezas do marido morto, Sicarbas.

Chegando a África, os indígenas permitiram a Dido que tomasse “tanta [terra] quanta pudesse conter-se em uma pele de boi”. Astuta, cortou o pedaço da pele em tiras bem finas e obteve um fio comprimido. Conseguindo assim circundar um território bastante vasto, os indígenas concederam-lhe a terra para fundar uma nova cidade.

É esta Dido que nos surge em palco, a Dido desta história. Uma Dido ardilosa e na sua terra, Cartago. E antes que a cortina suba completamente e que a música se revele, abrem-se as portas do fundo do palco que dão para o exterior. Surgem os ‘recém-chegados’, os colonos, a povoação desta nova cidade. O palco é uma nova terra. De fora fica tudo o resto. E juntos, eles são um só. Juntos são os habitantes daquela terra, daquele pedaço circundado por um fio de couro.

E a cortina sobe. A música surge. E com voz, para nos surpreender e para nos prender mais aos nossos lugares. E com voz, para nos acomodar – ou inquietar. Fica exposto ainda, com a subida da cortina, o único cenário da peça: placas quadradas transparentes, à esquerda, a entrecruzarem-se com placas quadradas pretas, à direita.

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Foto: Bruno Simão / CNB

Um só coração

E desde que se abrem as portas, desde que todos entram em palco, entram para não mais o deixar. Entram para ali permanecerem até ao fim. Todos se juntam em Cartago de Dido. Todos dançam (em) Cartago de Dido. Todos são (Cartago de) Dido.

Deste coração, composto por todos, que bombeia todas as cenas, do início ao fim, vão-se libertando, quase por exaustão de um movimento conjunto, solos, duetos e trios. É este o coração – órgão vital – que bombeia todos os outros órgãos, todos os outros ‘eus’ de que é composto, e que respira, regenerando-se, durante toda a peça.

Um coração onde se diluem e escondem Dido e Eneias, onde se antecipam encontros e o desencontro final. E este desfecho é até adivinhado pelo olhar do todo, pelos olhares de cada um desses ‘eus’: é uma força gigante que se impõe a Dido e Eneias e a este amor, bem maior que eles e que a eles se impõe, desmesurada; é a força dos deuses.

“Quem decide quando parece que os humanos não decidem?” Gonçalo M. Tavares

E é tanta a força dos deuses que estes pequenos ‘eus’ mortais tocam-se. Tocam-se, minuciosa e freneticamente. Tocam neles próprios, nos músculos deles próprios, formando um músculo gigante, que alimenta todos os ‘eus’. E é uns nos outros que ganham as forças que esgotam ao dançarem-se. Percorrem a cena, ora curvos, ora planos, a rastejar, usando as mãos. Usam as mãos e são elas que os levam ao movimento seguinte, são elas que recolhem as pernas ou o braço que fica para trás esquecido, que ajudam a refletir e que quase sufocam. São elas, as mãos, que dançam Dido e Eneias.

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Foto: Bruno Simão / CNB

Até que, por fim, chegam as mãos ao alto, aos deuses. Chegam ao alto e ficam suspensas, inertes. Rendem-se, as mãos, à condição do corpo que habitam, da vida que vivem. Eneias fica suspenso perante a magnificência dos deuses; entrega-se a Dido, apesar da fúria dos olhos. Eneias está suspenso, para de novo se entregar ao movimento aberto e rastejante do todo, do coração. Este coração que bombeia e que se move; este músculo dançante que em si se dança.

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Foto: Bruno Simão / CNB

Movimento e sonoridade

E não bastasse a força do coração que se nos impõe e a força dos deuses que se impõe àquele órgão, encontramos ainda uma força vinda de outro sítio que nos prende à cadeira. Com dificuldade, só a meio é que fica bem claro aos nossos olhos (e aos nossos ouvidos). Este é um bailado coreografado sobre ópera (música cantada), com letra e com toda uma emoção que chocam inicialmente. E surpreende desde logo por isso mesmo, por poucas vezes se encontrarem bailados com música cantada.

Cada personagem que se destaca do todo (do coração que bombeia) parece cantar com a dança a voz que se ouve. O som parece sair dos corpos e das expressões faciais, dos solos e dos duetos e dos movimentos do todo (do coração que bombeia), ora largos, ora minúsculos, precisos e meticulosos.

A história parece desenhada em palco por palavras cantadas, saídas de todos os corpos em cena. Quase que sai tudo das mãos, pelas pontas dos dedos.

Todo o corpo canta, é de todo o corpo que a música emana. Não é uma apropriação óbvia da palavra dita, não. É antes uma outra força que os corpos bebem da música e transbordam ao dançar Dido e Eneias.

O Amor de Dido e Eneias

Apesar de diluídos neste todo, identificamos Dido e Eneias. Encontram-se diante dos nossos olhos, hesitantes, mas encontram-se. Encontram-se também eles no olhar um do outro.

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Foto: Bruno Simão / CNB

Eneias parte. Eneias chega, no início, e é também Eneias quem parte, por intermédio de Mercúrio, de Júpiter e de Jarbas, marido prometido a Dido. Eneias parte porque é esse o seu caminho – o seu infortúnio, ditado pelas bruxas.

Dido definha no fim. Dido definha e Cartago com ela.

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Foto: Bruno Simão / CNB

O final que já se espera, monstruoso e avassalador, deixa aquele que espera colado à cadeira, de surpresa. Uma surpresa boa, de tão grande e bruta que é.

Dido e Eneias

Partindo de um clássico da mitologia e de uma ópera emblemática de Henry Purcell, do século XVII, esta é a peça sobre a vida e sobre nós todos. Uma peça contemporânea de uma ópera barroca inglesa de 1688.

Querendo ser a história do amor trágico de Dido e Eneias, esta peça de São Castro e de António Cabrita quer também ser as pequenas histórias que nos compõem a todos, que nos corroem a todos, durante todos os dias.

Um órgão que se alimenta a si próprio, um conjunto de pessoas que forma uma entidade mais forte e que se impõe. É uma peça de decisões – “É preciso ficar! É preciso partir!” –, é uma peça de amor e é também uma peça de multidão e de desejo.

Este desafio foi lançado aos coreógrafos pela anterior diretora da CNB, Luísa Taveira. Dido e Eneias abre a temporada 2017/2018, a primeira a ser realizada sob a direção de Paulo Ribeiro, o novo diretor artístico da companhia.

Por sugestão do diretor, os coreógrafos tiveram assistência à dramaturgia do escritor Gonçalo M. Tavares.

Os figurinos são de Nuno Nogueira, a cenografia de F. Ribeiro e os desenhos de luz de Nuno Meira.

Onde e quando ver

Ainda em cena, Dido e Eneias surpreenderá espetadores até dia 22 de outubro, próximo domingo, em Lisboa, no Teatro Camões.

As sessões vão ter lugar na quinta e na sexta às 21h, sábado às 18h30 e domingo às 16h. Com a duração de uma hora, aproximadamente, este espetáculo destina-se a maiores de 6 anos. Mais informações aqui.

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