Há um século atrás chegou ao cinema o filme Cleopatra, protagonizado por uma das atrizes mais populares da sua época: Theda Bara. Esta obra depressa se tornou num fenómeno e, eventualmente, no filme com mais sucesso comercial de 1917. Para além disso, a atuação de Bara continuou a alimentar a sua imagem pública de “sex symbol”.

Infelizmente, Cleopatra encontra-se (quase) completamente perdido. Das mais de duas horas de duração do filme já só sobram quinze segundos:

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Em 1937, houve um incêndio nos cofres da 20th Century Fox que destruiu as únicas cópias conhecidas do filme, juntamente com quase todos os filmes mudos que o estúdio tinha feito.

As películas de filmes antigos eram feitas de nitrato, um material facilmente inflamável. Devido a isso, após o incêndio, apenas dois dos trinta e nove filmes em que Bara tinha participado sobreviveram na totalidade.

A atriz nem é a única vítima disto. Também vários filmes de realizadores como Alfred Hitchcock e John Ford estão perdidos. Ironicamente, muito do material restante destes filmes está limitado apenas a imagens estáticas e fotografias que tinham sido usadas para os promover.

Sendo uma arte tão recente, é de estranhar que o cinema já conte com tantas obras perdidas. Ou talvez seja exatamente por ser uma arte recente: afinal, com o passar dos anos é que se começou a conseguir preservar filmes antigos de forma apropriada.

O desaparecimento de Cleopatra, bem como o de outras fitas, marca assim uma enorme perda cultural. São filmes que causaram impacto, impacto acerca do qual podemos ler, mas que não podemos realmente experienciar.

Infelizmente, esta perda cultural não necessita que um filme tenha desaparecido na sua totalidade. O filme Aves de Rapina (1924), de Erich Von Stroheim, tinha originalmente cerca de oito horas. Era uma experiência que tinha como objetivo ser vista ao longo de um dia inteiro. Mas, compreensivelmente, a Metro-Goldwyn-Mayer decidiu que seria melhor cortar o filme para este passar a ter a duração de pouco mais de duas horas. As cenas adicionais acabaram mais tarde por também ser perdidas. Outras cenas adicionais que eventualmente foram descobertas, bem como imagens suas, acabaram por ser compiladas numa versão de quatro horas. Mas esta continua muito aquém da versão original de Stroheim.

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Por outro lado, muitas destas obras poderão não estar eternamente perdidas. Afinal, durante muitos anos também se pensou que Metropolis, de Fritz Lang, estaria parcialmente perdido. Mas, após décadas de pesquisa, grande parte das cenas que estavam em falta foram descobertas.

Pouco a pouco, cópias de alguns destes filmes perdidos têm voltado a surgir. O que dá alguma esperança aos apreciadores da história do cinema é a ténue possibilidade de talvez nenhuma destas cópias estar completamente perdida; de ainda haver a possibilidade de, no Século XXI, ser possível voltar a ver a performance de Theda Bara enquanto Cleopatra.

Até lá, pouco poderemos saber desses filmes para além das memórias da época.