Porto: A insuficiente carta de amor à Invicta

Jake (Anton Yelchin), um americano, e Mati (Lucie Lucas), uma estudante francesa, são dois estrangeiros na cidade do Porto. Deambulam pelas ruas, em pontos opostos da sua vida. Numa noite, acabam por se envolver de forma especial para ambos. Mas as consequências dessa noite serão diferentes para cada um.

Falar de Porto é falar, antes de mais, de Anton Yelchin. O malogrado ator, que faleceu em 2016 num trágico acidente de viação, é o nome mais sonante ligado a este projecto. Yelchin divide com Lucas e a própria cidade o protagonismo de Porto. E será difícil para o espetador dissociar o trágico fim da vida do actor com o personagem que aqui interpreta.

Yelchin traz-nos um Jake perdido, sozinho, melancólico e triste. O ator perde-se nas ruas do Porto e nas encruzilhadas de si mesmo, deambulando na sua própria amargura. O retrato de melancolia que pinta é hipnótico e angustiante. Anton Yelchin oferece-nos uma poderosa interpretação num dos seus últimos papéis e as circunstâncias, trágicas, da vida que rodearam o actor só tornam a sua performance mais memorável.

Já Lucie Lucas é absolutamente encantadora enquanto Mati. Uma jovem ferida e igualmente melancólica, mas apaixonada e apaixonante. O contraposto para o Jake de Yelchin, Lucas é uma lufada de ar fresco e de alegria nesta melancólica carta de amor à cidade invicta que é Porto.

A ode necessária, mas suficiente?

O terceiro protagonista de Porto é a própria cidade. O realizador brasileiro-americano Gabe Klinger presta homenagem à cidade Invicta, colocando os nossos protagonistas contra o lindíssimo pano de fundo do Porto. Jake e Mati vagueiam pelas ruas do Porto, apaixonando-se um pelo outro e ambos pela cidade. Conversam na confeitaria Cunha, passeiam à margem do Douro e sorriem ao lado da ponte D. Luís.

Trata-se de uma bonita e sincera homenagem de Klinger à cidade e qualquer portuense, como é o meu caso, pode apenas sentir-se tocado com tal. Mas fará esta homenagem justiça à cidade? Dificilmente. O Porto é, felizmente, mais do que pontuais planos enevoados do Rio Douro com apenas segundos de duração, ou cantos obscuros dos seus bairros, à noite. Klinger é sincero na sua homenagem, esta transparece para o espetador e é tocante. Mas não, não é suficiente.

Demasiado coração

Porto vive sobretudo do seu duo protagonista e da lente apaixonada de Klinger. O realizador deixa evidentes as influências da trilogia Before, de Richard Linklater. Klinger é aliás amigo pessoal de Linklater, sobre quem já realizou um documentário.

Mas a este Porto falta o ponto mais forte da trilogia referida: um argumento forte, diálogos sustentados e emocionalmente satisfatórios, e desenvolvimento de personagens. Nem só de imagens, por mais bonitas que possam ser, vive um filme. E o limitadíssimo argumento de Porto, escrito por Larry Gross e o próprio Klinger, é absolutamente fatal para a qualidade da fita.

Ao duo protagonista falta contextualização, motivações, sustentação para as suas ações e pensamentos. Os diálogos são escassos e, por vezes, ilógicos. Escasseiam as explicações e sucedem-se cenas pouco esclarecedoras. Tal é ainda menos justificável quando analisada a curtíssima duração de Porto (pouco mais de uma hora).

Porto torna-se assim um filme pouco acessível e a mensagem que Klinger tenciona passar não é clara. A sensação é a de que o realizador fez este filme sobretudo para si e que apenas este o poderá realmente entender. Nos seus silêncios, nos seus olhares prolongados (o filme termina com os protagonistas a olharem-se em silêncio durante vários minutos), nos seus planos peculiares e desfocados. Talvez sejam as influências de Jim Jarmusch, produtor executivo do filme, e realizador de uma abordagem semelhante: estilística, intensa, mas por vezes pouco acessível (recorde-se o enigmático Dead Man, por exemplo).

Percebe-se a intenção: Porto é uma experiência. Uma experiência visceral, pessoal e de amor. Vive do seu coração e apela ao coração de quem vê o filme. Apela sobretudo ao coração dos portuenses e Klinger terá a minha gratidão por isso. Mas coração e imagens não é suficiente nem nunca será. Porto foi certamente suficiente para Klinger. Mas não o foi para mim nem creio que o seja para a cidade do Porto.

 

6/10

Título original: Porto
Realização: Gabe Klinger
Argumento: Larry Gross Gabe Klinger
Elenco: Anton Yelchin, Lucie Lucas Paulo Calatré
Género: Romance, drama
Duração: 76 minutos

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