Feliz Dia Para Morrer é o mais recente trabalho de Christopher Landon, realizador de Paranóia (2007) e Atividade Paranormal: Os Escolhidos (2014). O filme conta a história de uma aluna universitária assassinada no seu dia de aniversário. O pesadelo expande-se quando esta acorda, momentos depois, no preciso dia que tinha acabado de viver. Tree encontra-se, assim, condenada a (re)viver incessantemente o dia da sua morte. A única solução será descobrir a identidade do seu assassino, um misterioso indivíduo que se esconde por trás de uma máscara da mascote da universidade.

Com data de estreia para uma sexta-feira dia 13 nos Estados Unidos, a intenção é clara: juntar o útil ao agradável e aumentar a dose de pressão psicológica. No entanto, por cá a sua estreia agenda-se para este dia 12 – talvez o conflito temporal ajude a justificar a ausência do factor tensional que se espera de um filme de terror. Pois bem, Feliz Dia Para Morrer é um conflito existencial. Aqui encontramos um lote pré-fabricado de personagens típicas de chick flicks. A película começa inicialmente por expor o seu painel, deixando o “terror” para segundo plano. A sua extensa parte inicial varia no género, apalpando lentamente os campos do humor, do romance e do, já tardio, thriller.

Jessica Rothe (como Tree)

Jessica Rothe (como Tree)

Na transição para uma narrativa mais tenebrosa, o primeiro aspecto a registar será o assassino da máscara. Esse que conhecemos tão bem sem nunca o termos visto e que se revela pouco ou nada impetuoso. A fita junta-se ao lote de filmes que recorrem a esta ferramenta, acabando neste caso por nos fazer questionar: o que esconde afinal a máscara? A resposta óbvia seria a identidade do assassino. Porém, esta cara de bebé desdentado parece não tanto ocultar como disfarçar. Disfarçar a falta de motivo, de autenticidade e de razão. Como se o próprio assassino – empenhando uma faca que não é sua – se tentasse misturar com Ghostface (Scream), Michael Myers (Halloween) ou Jason Voorhess (Sexta Feira 13).

Do outro lado da arma temos uma Jessica Rothe (La La Land – A Melodia do Amor) que desfila entre o papel de mean girl e de mártir no caminho para a reabilitação social. Pagando pelos “crimes”, pelas ofensas, esta será (ou deveria ser) um exemplo de correção “kármica” pelo choque homicida. Israel Broussard perfila-se a seu lado enquanto interesse amoroso, apesar de inicialmente se apresentar apenas como o “patinho feio”. À medida que o dia se repete, também Broussard se prende à mesma expressão durante as suas primeiras aparições. Quando o amor desbrota, este assume o papel de Watson para um Sherlock que teima em empreender num estilo policial absurdo visível a qualquer um, dentro ou fora da tela.

Jessica Rothe (como Tree) e Israel Broussard (como Carter)

Jessica Rothe (como Tree) e Israel Broussard (como Carter)

Acorda. Vive o dia. Morre. Repete”

As “segundas oportunidades” são já um tema recorrente nas narrativas clássicas e aqui esse mote é o núcleo da película. O rasgo aqui é a amplificação, impossível de quantificar, do número de oportunidades que verdadeiramente contribuem para o desenlace do filme e não apenas para nos ocupar. O filme não perde, mesmo assim, a oportunidade de se auto-incriminar, enunciando as suas semelhanças com Groundhog Day – O Feitiço do Tempo. Surpreendentemente a maior estranheza não frui daqui.

A lógica assumida até este ponto, apesar de questionável, é sofrível. No entanto, quando se aposta numa subversão sádica da história, o verdadeiro medo vem ao de cima. O jogo depressivo da morte em replay transforma-se na sua aceitação de sorriso no rosto, que nada tem de corajoso, mas antes de paródico. O filme ganha contornos de videoclip e todo o suspense acumulado até então desvanece-se nos slow motions ao som de Demi Lovato. A película, envergando ainda num arriscado humor supérfluo, vive com base em sucessivos estereótipos na procura por “entretenimento”.

Feliz Dia Para Morrer não conta apenas a história de um dia que se repete interminavelmente, mas de uma estrutura repetente. O mantra é aqui uma estranha amolgação de eat, sleep, party, repeat com o desejo psicopata da morte anunciada. O terror, o cerne da película, mantém-se ausente e é o humor (involuntário) que toma o seu lugar.

O resultado é um ambiente amorfo, desequilibrado, que depende apenas do “feliz” e não tanto da “morte”.

3/10
FICHA TÉCNICA

Título: Feliz Dia Para Morrer
Realização: Christopher Landon
Argumento: Scott Lobdell e Christopher Landon
Elenco: Jessica Rothe, Israel Broussard, Ruby Modine, Charles AitkenLaura Clifton
Género: Thriller
Duração: 96 minutos