Martin Scorsese pode estar neste momento ocupado a preparar um filme biográfico para a Netflix, mas, como fã de cinema, está também sempre preparado para dar a sua opinião acerca da indústria. Num artigo para o The Hollywood Reporter, o realizador criticou a forma como a audiência de cinema atual parece estar demasiado focada nas pontuações de sites agregadores de críticas – como o Rotten Tomatoes – e na celebração de fracassos de bilheteira.

Scorsese usou como exemplo o recente Mãe!, de Darren Aronofsky. Segundo o Cinemascore, este filme recebeu a pior pontuação possível: “F”. O cineasta considera que as pessoas pareciam estar a ter prazer em ver o fracasso do filme “(…) pelo mero facto de não poder ser facilmente definido ou interpretado ou reduzido a uma descrição em duas palavras (…)“.

‘Mãe!’, de Darren Aronofsky

Martin Scorsese admite ainda que já recebeu um vasto número de críticas positivas ao longo dos anos, mas defende os críticos do passado. Afirma que quando um crítico tinha um problema com o seu filme este geralmente explicaria tal de uma forma “(…) bem pensada (…)“. O que incomoda Scorsese é a forma como agregadores de crítica como o Rotten Tomatoes e o Cinemascore começaram a “(…) pontuar filmes da mesma forma que se pontuam cavalos em corridas (…)“. Na sua opinião, isso não contribui para a discussão inteligente de uma película. Afirma ainda:

O realizador é reduzido a um produtor de conteúdo e o visualizador a um consumidor não-aventureiro.

O que o deixa preocupado é também o facto de muitas publicações e críticos nos últimos vinte anos terem começado a tirar prazer no fracasso financeiro dos filmes. Considera que críticas e discussões alicerçadas no conhecimento da história do cinema estão a desaparecer gradualmente em favor de julgamentos de pessoas que se entretêm ao ver “(…) filmes e realizadores serem rejeitados (…)“.

Para demonstrar que as críticas imediatas poderão não ser o melhor avaliador de qualidade, Scorsese usa como exemplos O Feiticeiro de Oz (1939), Do Céu Caiu Uma Estrela (1946), A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958) e À Queima Roupa (1967). Todos estes filmes tiveram críticas maioritariamente negativas assim que foram lançados, mas, com o passar dos anos, tornaram-se em clássicos do cinema.

‘Vertigo’, de Alfred Hitchcock

A preocupação de Martin Scorsese é compreensível, mas será completamente legítima? Afinal, os críticos e a imprensa sempre prestaram atenção aos orçamentos das produções de Hollywood. Em 1980, o fracasso altamente publicitado de As Portas do Céu foi uma das razões para que o género Western desvanecesse lentamente. Além disso, o realizador Cecil B. DeMille sempre recebeu atenção por parte da imprensa devido ao número de críticas negativas que os seus filmes de elevado orçamento recebiam. Também se pode dizer que considerar que os críticos se estão a apoiar cada vez menos em conhecimento da história do cinema é redutor para algumas das novas vozes que têm vindo a surgir no meio.

De qualquer forma, sites como o Rotten Tomatoes devem ser vistos como aquilo que são: agregadores de críticas imediatas. O valor dos próprios filmes é algo que merece uma discussão contínua ao longo de vários anos.