A arte é o maior poder da Humanidade. Altera percepções, inflige sofrimento, captura essências e imortaliza seres. Expande a imaginação, questiona o imutável e causa insónias. Depois de o ter visto duas vezes em formatos diferentes, depois de ter dissecado entrevistas, filosofias, imagens e sons ao longo de uma semana, depois de ter debatido (interna e externamente) a sua profundidade e coerência, escrevo sobre Blade Runner 2049.

K (Ryan Gosling) é um Blade Runner – agentes da lei que caçam robôs humanóides denominados Replicants – no ano de 2049. A meio de uma missão, K depara-se com algo que coloca em causa a paz no planeta Terra.

Denis Villeneuve (O Primeiro Encontro, O Homem Duplicado) teve a elegância de enviar uma mensagem a todos os críticos presentes em visionamentos de imprensa pelo mundo, pedindo-lhes que revelassem o mínimo possível da narrativa do filme nas suas críticas. Cedo se percebeu que esta elegância se estendia a todos os aspetos do filme.

Muitos críticos descrevem este filme como uma sequela que tenta ser o original, mas que falha por ser filosoficamente forçado e pouco criativo. Blade Runner 2049 mantém os temas do original de 1982, mantém a grandiosidade de sets e a textura nebulosa de film noir, mas há uma expansão inegável na maneira como tudo é abordado.

Her – Uma História de Amor, Cidade Misteriosa e a série Westworld foram a fundo nas questões “O que nos torna humanos?” e “A partir de que momentos se podem classificar certos sentimentos enquanto reais?”. Seria assim imprudente não contemplar estas questões. Para além disso, é outro tipo de protagonista que nos leva nesta viagem. K está longe de ser Deckard (Harrison Ford) em todos os seus aspectos, com excepção na compaixão que desenvolve. O estoicismo de Gosling, que aqui se apresenta contido ao nível explosivo de Drive – Risco Duplo, funciona na perfeição para dar vida a uma das personagens mais complexas do ano. Ford regressa de forma cativante com alguns dos pormenores mais sentimentais da sua carreira, enquanto Ana de Armas, Dave Bautista, Robin Wright e Mackenzie Davis são todos competentes em papéis que estão bem alicerçados na página e no ecrã.

Os sets passam pela cidade cheia de néones, chuva e sujidade. Mas já Fallout, Bioshock e Ghost in the Shell foram ao extremo neste tipo de criação, sugando o seu público/jogadores para dentro de mundos artificiais. Seria um erro não ter em conta estas obras na expansão planeada, principalmente porque todas elas foram inspiradas por Blade Runner – Perigo Iminente.

O film noir sempre foi, por natureza, um género de baixo orçamento: como assegurar que funciona à escala de 150 milhões de euros? Não aproximá-lo da linguagem de alguns dos melhor sucedidos neo-noirs dos últimos 20 anos seria mal pensado. Agora estamos num mundo em que Se7en: Os Sete Pecados Mortais, Colateral e Oldboy – Velho Amigo são as referências comerciais do estilo.

Seria fácil perder o foco, mas tanto o argumento de Hampton Fancher (Blade Runner: Perigo Iminente) e Michael Green (Logan), como os sets de Dennis Gassner (007: Skyfall) e, principalmente, a fotografia de Roger Deakins (Os Condenados de Shawshank) absorvem esta resma de informação e, frame a frame, confirmam categoricamente uma lógica que segue perfeitamente a linha traçada por Ridley Scott em 1982.

A narrativa é bem mais expansiva, deixando de ser a missão solitária de um indivíduo para passar a ser a missão de um indivíduo que se vê refletida numa multidão. O romance intrínseco deixa de ser uma sucessão de encontros desajeitados e pseudo-sexo-forçado para ser uma relação com implicações sociais, filosóficas e onde o carinho entre os envolvidos é latente em cada troca de palavras e “toques”. Existem algumas questões que ficam nitidamente em aberto, mas as suas implicações nunca são postas em causa.

Falha sim, de forma clara, a personagem de Niander Wallace, interpretada por Jared Leto. Ao tentar embutir-lhe mistério e poder, Wallace é arrastado por monólogos com propósitos bem explícitos, ditos com uma postura que lhe retira qualquer força. Pelo contrário, a holandesa Sylvia Hoeks funciona muito melhor, colocando-se vários níveis acima do normal “capanga” de blockbuster, tendo uma dimensão emocional bem justificada.

Os sets de Dennis Gassner e da sua equipa criam pontos de proporção monstruosos, que acentuam o desnível entre os estratos sociais. Deixa de ser apenas Los Angeles: é uma América com uma geografia muito própria, uma economia assente em trabalho escravo e utopias visuais ou sonoras a cada virar de esquina. Roger Deakins é o melhor diretor de fotografia a trabalhar no sistema de Hollywood e este seu mais recente trabalho será, muito possivelmente, o seu magnum opus. Cada plano está repleto de informação e até os momentos mais pequenos de um filme tão grande estão polvilhados de pequenos detalhes ou texturas que capturam a essência do mistério e da ação.

A banda-sonora foi trabalhada por Benjamin Wallfisch (12 Anos Escravo) e Hans Zimmer (A Origem). Vagueando até aos limites fronteiriços da magnífica composição original de Vangelis, existem aqui partituras assombrosas que ficarão na memória, principalmente quando combinados com tudo o que foi acima descrito.

Há quem chame mise-en-scène ao que foi enumerado nos últimos parágrafos. É um termo usado mais para criar a ilusão de que se diz muito sem dizer nada e não para ajudar o público a tomar a decisão de ir ver o filme. O cinema é uma ilusão enorme. Blade Runner 2049 é dos poucos filmes desta década que tem o condão de afundar quem o vê num vasto e credível mundo que não é o seu e, ainda assim, explorar uma imensidão de questões que dizem respeito a cada ser humano. Não requer que se veja o original, mas premeia quem o fez. Não é um filme com um ritmo rápido, mas tem várias cenas de ação e suspense que fazem explodir a tensão acumulada nas mais lentas.

É arte feita para as massas, no entanto já ficou constatado nesta primeira semana que não é o tipo de filme que arrasta multidões para a bilheteira. Não é também o tipo de filme que estimule o debate entre os ditos “pensadores da 7ª arte” (porque a estes só interessa o que, para além deles próprios, ninguém vê). É um elo perdido entre duas raças que tentam conviver num mundo que se equilibra num ténue semblante de paz.

Acima de tudo, Blade Runner 2049 é talvez a melhor representação possível de como a Humanidade se vê a si própria em 2017.

Mas isso só o futuro o dirá…

9/10

Título: Blade Runner 2049
Realizador: Denis Villeneuve
Argumento: Hampton Fancher e Michael Green
Com: Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Dave Bautista, Ana de Armas, Robin Wright e Sylvia Hoeks.
Género: Ficção Científica.
Duração: 164 minutos.