Benjamin Clementine regressou aos discos e com I Tell a Fly, uma obra de arte complexa com a qual continua a mexer nos sentimentos de quem o ouve – e desta vez expondo mais os problemas do mundo do que os próprios.

Tem apenas 28 anos mas muitas histórias de vida para partilhar. Fê-lo, aliás, em At Least For Now, o primeiro longa duração lançado no início do ano de 2015. Cornerstone e Glorious You, os dois primeiros EP, introduziam os temas soberbos que dariam o pontapé de saída para um impacto triunfal na música.

I Won’t Complain, Condolence, Adios transformaram-se em temas épicos que puseram meio mundo a prestar atenção ao inglês que chegou a ganhar a vida a cantar no metro de Paris.

Seguiram-se muitos concertos. Portugal recebeu-o quase de norte a sul e num memorável concerto no Vodafone Mexefest ficou provado que este artista multiforme e o público português haveriam de ficar numa relação amorosa durante muito tempo e o encantamento pareceu ser mútuo.

Só assim se explica que ao décimo concerto por cá Clementine, corpo demasiado grande a condizer  com a sua alma e uma timidez enorme como o seu talento, se tenha entregue nas mãos do público courense, na última edição do Vodafone Paredes de Coura.

Em conversa com os jornalistas, haveria de dizer que provavelmente tinha encontrado em Portugal as pessoas que tem procurado toda a vida, a propósito da relação firmada estabelecida com o público português.

Nessa tarde havíamos ouvido em primeira mão os temas que compõem I Tell a Fly, lançado na passada sexta-feira, dia 6, com o selo da Virgin Records.

Voltemos àquele quente início de tarde no Minho, em agosto. O cravo é instrumento central em praticamente todas as músicas do novo disco, ficou-nos cravado (passa-se a expressão) e a conjugação com a potente voz de Clementine reportou-nos para uma opereta.

O som dramático, a reportar para o barroco, surge de mãos dadas com coros fortes que horas mais tarde ouviríamos em palco entoados por extraordinárias performers de vestes brancas, quase fantasmagóricas, que estabelecem um diálogo aberto com a personagem principal, Clementine.

Mas a componente eletrónica também está presente, pautada pelos sintetizadores e batidas fortes (Awkward Fish é um excelente exemplo) que ajudam a contar a história de duas moscas que tentam sobreviver nesta sociedade confusa preenchida por guerras. Tal qual um musical, o disco abre com Farewell Sonata, homenagem aos maiores compositores clássicos, e encerra com Ave Dreamer, o culminar da performance teatral.

I Tell a Fly é, pois, sobretudo um disco de histórias, como Benjamin é um músico de histórias. E as que conta agora não o têm a ele como personagem central, embora na conferência de imprensa tenha contado que quando fala de bullying em Phantom of Aleppoville – obra-prima que surge no meio do disco quase como uma abertura para um segundo ato -também é à sua infância que se reporta.

Ou que em God Save The Jungle e Jupiter, todos eles temas sobre refugiados e migrantes, tenham surgido do episódio em que consegue o visto para viver nos Estados Unidos da América e isso seja também sobre si próprio, a forma como se sentiu um alien. 

O difícil segundo álbum é, no caso de I Tell a Fly de Benjamin Clementine, a descoberta de uma nova orientação artística para este talentoso criador que é poeta, dramaturgo, cantor, pianista e ativista e que, apenas com 28 anos, veio para ficar na história da música.