Da autoria de Deborah Moggach (O Exótico Hotel Marigold, 2004), o best-seller internacional A Febre das Tulipas, de 1999, foi em tempos uma peça de literatura que muito se ansiou por adaptar ao cinema. Em 2004, foi anunciada uma grande produção de Steven Spielberg, a ser realizada por John Madden (do oscarizado A Paixão de Shakespeare, 1999) e protagonizada por Jude Law e Keira Knightley, mas que nunca se materializou. Dez anos depois, no verão de 2014, começa a rodagem da derradeira tentativa de trazer o romance às telas, desta vez realizada por Justin Chadwick (Duas Irmãs, Um Rei, 2008). Após quatro adiamentos, eis que A Febre das Tulipas ultrapassa a sua maldição e, ao fim de três anos, chega finalmente às salas de cinema do mundo inteiro.

Estamos na Amesterdão do século XVII, uma cidade cativada pela tulipa, flor cujo mercado cresce a cada dia quer pelo investimento de ricos, quer de pobres. Maria (Holliday Grainger) narra a história da sua patroa, a jovem Sophia (Alicia Vikander), que deixa para trás a sua vida no orfanato por meio de um negócio infeliz e é forçada a casar com o rico mercador Cornelis Sandvoort (Christoph Waltz). Viúvo e tendo perdido dois filhos, a expetativa para que Sophia lhe traga um novo herdeiro é muita, mas o acaso não facilita a tarefa. É quando Cornelis encomenda um retrato seu e da sua nova mulher que Sophia conhece Jan van Loos (Dane DeHaan), um artista em dificuldades. A paixão depressa nasce, mas a sombra das intenções de Sandvoort é por demais opressiva e Sophia e Jan acabam por entrar no negócio das tulipas, a fim de fazer fortuna e comprar a liberdade. Só que Maria, sabendo da infidelidade da patroa, tem-na na mão…

a febre das tulipas

O complô que se segue, entre Maria e Sophia, é digno da mais genérica telenovela, mas, por incrível que pareça, é delicioso de seguir. A situação gerada não parece particularmente credível e há sempre a ideia de que na vida real nem passaria do estágio inicial, mas o enredo de Moggach – que adapta em conjunto com Tom Stoppard (Anna Karenina, 2012) o seu próprio livro – agarra a audiência com essa pretensão ludibriosa. Por vezes, o sonho das protagonistas já parece grande de mais e os twists no terceiro ato seguem-se a um ritmo cujo impacto, a certa altura, já é somente simbólico; há uma beleza muito rasca, no entanto, em encenar uma conspiração impossível, quase inocente (que de inocente não tem nada), num contexto relativamente “exótico” para o cinema mainstream contemporâneo. E há que prezar A Febre das Tulipas por manter o interesse do público até ao final.

O grande calcanhar de Aquiles é a coesão de tudo. Aos 105 minutos, as intenções de criar uma tapeçaria narrativa fiel à época e rica nas peculiaridades dos personagens saem algo goradas. Há tanto a acontecer em tantas frentes e a um ritmo quase vertiginoso que é inegável que o filme teria beneficiado de pelo menos mais meia hora de metragem.

A montagem também não é a melhor. A certa altura questionamos o quanto A Febre das Tulipas já terá sido “esquartejado” desde os seus primeiros visionamentos de teste há quase três anos atrás; não há nenhuma certeza de que tenha sido um filme melhor ou pior então, mas o que agora chega às salas é um claro caso de uma produção que não correu como era esperado.

a febre das tulipas

A obra de Chadwick é, contudo, um grande showcase do que há de melhor em direção de arte, quer pelos seus cenários ou quer pelos seus figurinos, com uma cinematografia forte em momentos de cortar a respiração. O potencial estético está todo aqui, para apaziguar a montagem por vezes acidentada e para dar o toque de Midas ao enredo surreal, o qual é legitimamente suportado por um elenco de luxo.

Não há realmente quem falhe. DeHaan, conhecido pela sua irritante inexpressividade, está aqui mais que aceitável e Waltz dá aquela boa atuação algo maníaca que já é o seu apanágio. Tivesse A Febre das Tulipas estreado quando era suposto, em 2015, diríamos que esta performance de Vikander era uma revelação; nesse ano, no entanto, a atriz sueca foi catapultada para o estrelato com A Rapariga Dinamarquesa, tendo inclusive vencido o Oscar de Melhor Atriz Secundária, o que acaba por gratificar a fita de Chadwick com o estatuto de curiosidade cinéfila, qual cápsula do tempo com uma finalidade que nunca se materializou. Vikander é estupenda, como já nos tem vindo a habituar, mas verdadeira surpresa aqui é Grainger, cuja personagem, a criada Maria, é a verdadeira protagonista e narradora, numa prestação sensível, e, em geral, a mais completa do filme. Pelo caminho ainda temos uma Judi Dench abadessa de convento, diretora corrupta de orfanato e zeladora de plantação de tulipas, de longe a figura mais cativante de todo o ensemble.

Sumptuoso e verdadeiramente belo de admirar, A Febre das Tulipas é uma satisfatória conspiração movida pelo calor da luxúria e por adornos que transcendem o floral. A beleza da encenação e da cinematografia, assim como um elenco de primeira água, compensam o eventual estigma de novela de época e alguma falta de coesão narrativa. Esta adaptação do romance de Moggach é indubitavelmente lacerada pelas falhas que tanto a afastam da grandeza, mas, ainda assim, é impossível ignorar o requinte e ambição com que floresce o thriller erótico desta temporada.

A febre lá pegou.

6/10

Título original: Tulip Fever
Realização: Justin Chadwick
Argumento: Deborah Moggach, Tom Stoppard
Elenco: Alicia Vikander, Dane DeHaan, Jack O’Connell, Holliday Grainger, Tom Hollander, Matthew Morrison, Kevin McKidd, Zach Galifianakis, Judi Dench, Christoph Waltz, Cara Delevingne
Género: Drama, Romance
Duração: 105 minutos