Hollywood sempre esteve em estado de dicotomia. Suposto berço dos maiores nomes e obras da Sétima Arte, é também lá que nasce o seu lado lunar, uma desigualdade presente em todos os planos, desde o género até à idade.

Dentro de todo o conjunto de diferentes acontecimentos ao longo de vários anos, talvez o mais badalado seja a temática da desigualdade de género. Apesar de ser o mais falado, existem cinco principais planos transversais onde as roldanas da grande máquina que é Hollywood não estão bem oleadas: raça, idade, género, orientação sexual e religião.

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Esta injustiça manifesta-se nas mais variadas formas, seja na desigualdade salarial, na diferença de oportunidades ou até mesmo no assédio. Os casos de whitewashing acumulam-se cada vez mais, a diferença salarial entre atores e atrizes é gritante e as acusações de preferências de casting por indivíduos heterossexuais têm sido alvo de controvérsia.

Scarlett Johansson em Ghost in the Shell, alvo de críticas de whitewashing

Um estudo da Universidade do Sul da Califórnia revela que em 2015 apenas 31,4% dos papéis com fala eram pertencentes a mulheres. Personagens transgénero ou homossexuais ficam abaixo dos 1%, ou seja, 32 personagens das 35205 postas no grande ecrã nesse ano. O sítio que deveria ser uma fusão de incrível multiculturalidade torna-se assim no epicentro da desigualdade cultural. Cuidado: a menos que sejas um indivíduo caucasiano heterossexual nos seus 25 anos, não há espaço para que te aventures em Hollywood.

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E as evidências estatísticas continuam, o que nos leva a preocupantemente ter a certeza daquilo que já suspeitávamos. Uma mulher é muito mais propensa a aparecer em cenas de nudez ou vestuário revelador – uns esmagadores 30.2% em comparação com os 7.7% reservados para os homens. Toda esta panóplia de diferentes escândalos teve o seu desfecho com o protesto #OscarsSoWhite, na tão mediática cerimónia da Academia de 2016. Este foi o culminar de dois anos onde somente atores caucasianos foram nomeados e da desigualdade salarial entre faixas etárias, assim como da falta de mulheres cineastas.

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Will e Jada Pinkett-Smith, apoiantes do protesto #OscarsSoWhite

Infelizmente, este é o panorama onde se situa uma das indústrias mais amadas de todos os tempos. Como tal, notícias de assédio por parte de indivíduos pertencentes à fina-flor de Hollywood são recebidas quase com uma naturalidade doentia. A bombástica notícia de que Harvey Weinstein, um dos magnatas da produção cinematográfica de Hollywood, esteve envolvido num escândalo de assédio sexual que durou as últimas três décadas fez manchete em todo o lado… menos em Hollywood.

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Harvey Weinstein

Numa notícia avançada pelo The New York Times, Weinstein terá chegado a um acordo com oito mulheres que, com isso, retiraram as acusações de assédio. Todos estes acordos mantiveram-se confidenciais e envolveram quantias que oscilaram entre os 68 e os 128 mil euros. O produtor, conhecido por obras como O Paciente Inglês, Pulp Fiction e O Discurso do Rei, procedia sempre com o mesmo modus operandi: marcava reuniões em hotéis, com atrizes, modelos ou assistentes. A reunião acabava por se dar inevitavelmente no quarto de Weinstein, onde o mesmo pedia massagens ou favores sexuais em troca de uma melhoria na vida profissional das mulheres.

“Entendo que a maneira como me comportei com colegas no passado causou muita dor, e peço sinceras desculpas por isso. Ainda que esteja a tentar fazer melhor, sei que tenho um longo caminho a percorrer.”

Assim foi o comunicado de resposta que o produtor enviou para o The New York Times. Weinstein, vencedor de um Óscar da Academia e co-fundador da Miramax, está a ser neste momento acusado por dezenas de outras mulheres de crimes de assédio sexual. Ainda hoje surgiu a notícia de que o produtor terá sido despedido da sua própria produtora, a Weinstein Company, do qual foi fundador e membro dirigente. Isto surge dois dias depois de Weinstein ter divulgado que se iria retirar das suas funções por tempo indeterminado, para se submeter a tratamento.

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Harvey Weinstein e Meryl Streep

Apesar da controvérsia, a gravidade do caso parece pouco abalar a comunidade hollywoodense. Acusações de hipocrisia começaram a ser atiradas aos titãs da indústria cinematográfica, devido à falta de resposta por parte dos mesmos. Insurgências começaram a fazer-se sentir, em particular por parte de Rose McGowan, que foi a tribunal contra Weinstein em 1997 devido a um caso de assédio. A atriz expressou a sua indignação na rede social Twitter:

Infelizmente, uma desgraça nunca vem só. Logo após os acontecimentos referentes a Weinstein, veio também ao conhecimento do público que Andy Signore, criador da rubrica Honest Trailers e rosto do canal de Youtube Screen Junkies, terá sido suspenso do último, devido a recentes acusações de assédio sexual. As diversas mulheres utilizaram a rede social Twitter de modo a expor Signore e a encorajar outras a chegar-se à frente.

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Andy Signore

Honest Trailers é um formato de conteúdo multimédia, publicado através da plataforma YouTube, que reinventa de forma paródica trailers de conhecidas longas-metragens. O modelo chegou mesmo a ser nomeado para um Emmy, na categoria de Melhor Série de Variedades, Musical ou Entretenimento.

Pouco tempo após estas alegações terem chegado aos media, a Screen Junkies não tardou a emitir um comunicado a condenar qualquer tipo de assédio. Foi frisado o decorrer de uma investigação minuciosa a Signore e que, uma vez apurado o veredicto final, uma ação apropriada será tomada.

Seria de esperar mais de uma indústria que almeja a arte cinematográfica como a derradeira forma de expressão. Quase 40 anos depois, ainda se descobrem casos que remontam à controvérsia de Roman Polanski.

O realizador polaco, que foi dos primeiros casos conhecidos de abuso sexual no seio de Hollywood, foi preso na casa do ator Jack Nicholson pelo abuso sexual de Samantha Geimer, que tinha 13 anos de idade. Declarando-se inocente e posteriormente resignando-se com um acordo, Polanski esteve preso apenas 47 dias. Quando soube que iria cumprir novamente pena, o realizador apanhou um avião com destino à Europa, onde se encontra ainda foragido da justiça norte-americana, devido às leis de extradição.

Aparentemente, Hollywood não aprende.