Demi Lovato (Texas, 25 anos) lançou Tell Me You Love Me  a 29 de setembro, numa interessante disputa de vendas em que teve Miley Cyrus a morder-lhe os calcanhares. Um álbum que tem menos de pop do que seria de esperar.

Eu acredito que quando o teu nome é Demetria Devonne há coisas que nunca poderás ultrapassar. Afinal de contas, cada vez que alguém lê o teu nome, toda a gente se vira na tua direção à procura de uma possível personagem do Futurama, de uma empregada do Hooters com um nome artístico ou da promoção de um novo creme da Avon. Isso não é motivo para se ser ridícula. Quando é assim, faz-se o mesmo que fizeram a Norma Jean e o fictício Tom Marvolo Riddle.

Pinta-se o cabelo (uma vez chegaria, mas se forem 37 também não faz mal) e muda-se de nome. Deves tentar conservar o nariz, no entanto. A Barbra Streisand definiu esse padrão (e o de abreviar o nome também). Agora que definimos como contornar o Michael Jackson por meros motivos raciais, podemos continuar.

Foi isso que fizeram com a Demi: cortaram uns caracteres no nome, fecharam o espaço no meio dos dentes, disseram-lhe que tinha de perder peso, ser Rock e Edgy e ocupar o espaço que faltava entre a Gabriela, a Hannah Montana e a Sharpay.

Assim, como um cruzamento de uma peça do Tennessee Williams e uma obra da Virginia Wolf, nasceu a estrela pop teen latina do Texas (porque um rótulo não chegava).

Do conserto forçado nasceu o desastre. E a história que muitos conhecem das estrelas da Disney toma as proporções mais copiosas na protagonista do texto: temos drogas, bullying, álcool, pouco sexo e doenças mentais.

Sim, doenças mentais. O leitor que se acalme e tome um Lorazepam ou um Prozac: Demi Lovato é bipolar e, portanto, doente mental. Não, isto não é bullying, só seria se ela não o fosse e eu usasse o epíteto para a ofender. Porque é que alguém havia de ofender alguém fazendo um diagnóstico superficial de uma doença crónica? Que idade temos nós e em que ano estamos? Eu respondo: não importa; estamos em 2017.

Se alguém se questiona se vale a pena ouvir este álbum, que as dúvidas se dissipem: sim. Vale a pena ouvir quase na íntegra (ora não teria aterrado no número 1 em 40 países). Mas terão de ser vocês a selecionar o que não querem voltar a ouvir… porque, também, garanto, haverá uma segunda audição de algumas faixas tanto quanto não haverá de outras.

Faixas extra (leaked):

Onde está o pop?

Este disco é redondo e se é possível ouvir o pop em Sorry Not Sorry e em Instruction, de forma (literalmente) gritante, Demi Lovato aprendeu, finalmente, a controlar o seu poder vocal, os seus agudos e as suas afirmações.

O R&B e a Soul comandam o som e Aretha Franklin e Christina Aguilera foram, segundo a própria, as maiores influências para este trabalho. Sem esquecer, no entanto, os enfeites eletrónicos a cada música.

Pop? Bem, pop, pop não temos muito. Sobretudo, a partir do centro do disco. Os hits fáceis ficaram nas gritarias de Heart Attack (2013) e até Confident (2015). Quer as músicas, quer os discos na sua íntegra, parecem uma sopa instantânea quando comparado com qualquer um dos temas de Tell Me You Love Me

Se não encontramos quase Pop, ainda menos se deteta o Punk/Rock (que ainda brotava em Cool For The Summer [2015] num solozinho de guitarra invulgar). A direção artística é Stone Cold. Pouco mais do que já vimos Demi fazer, a título próprio, serve de referência. 

Recording Academy – Grammy Awards

A Academia parece ter o melhor a dizer do trabalho de Lovato: “fresco, feroz e sem remorsos”, é como o definem. Dizem ainda que “atingiu um novo nível enquanto artista” e que “canaliza o drama (principalmente de fins de namoro e problemas sentimentais), que uma vez consumiram a sua vida, gerando o trabalho mais forte e duradouro que a cantautora já criou”.

As nomeações para os Grammys saem no dia 28 de novembro e o lançamento de TYLM chega mesmo a tempo para o período de elegibilidade de 2018, que terminou a 30 de setembro.

LER TAMBÉM: Obituário de Taylor Swift

É de forma promissora que os senhores da Staples Center se dirigem a Demi. Ainda assim, Joanne de Lady Gaga, Younger Now de Miley Cyrus (com parceria de peso da madrinha Dolly Parton), ÷ (Divide) de Ed Sheeran, Rainbow de Kesha e até os singles de Taylor Swift fazem mossa nestes cálculos.

Os adversários diretos de Lovato estão sujeitos ao barómetro da Recording Academy e é de salientar que todos estes álbuns (excluindo Swift) são orgânicos, menos eletrónicos, mais despidos.

O album é sobre o quê, Demi Lovato?

Sobre relações, supomos, de Demi. Todos os dramas e agruras que fazem a vida de celebridade chata e complexa, mas também aqueles que são transversais ao comum do mortais.

A relação com ela própria em You Don’t Do It For Me Anymore, numa música que parecia ser para um ex meio escroque, por exemplo. E se as lacunas nos deixam preencher os espaços então, alvitramos que Lonely (feat Lil Wayne) tenha inspiração em Wilmer Valderrama, o ex-namorado da cantora, com quem ela terminou em junho do ano passado. “The month was June” (“O mês era junho”) ajuda a desmistificar. (Traduções disponíveis)

Fala-se em Hitchiker e Sexy Dirty Love como possíveis dedicatórias à rumorada namorada (Lauren Abedini) sem, a título próprio, deixar de estender esta febre até Concentrate. Levar um pronome a sério é esquecer-se a essência de uma composição.

Fala-se em Games como um ataque direto a Guilherme Bomba (o mais recente ex-namorado, lutador de MMA). Fala-se na alfinetada em Mariah Carey com Instruction, mas fala-se, acima de tudo em Ruin The Friendship e Only Forever – não é difícil entender porquê:

“Put down your cigar and pick me up (pick me up)
Play me your guitar, that song I love (song I love)(…)

Fonte: Instagram @ddlovato (2016)

Your body’s looking good tonight
I’m thinking we should cross the line
Let’s ruin the friendship, let’s ruin the friendship
Do all the things on our minds
What’s taking us all this time
Let’s ruin the friendship, let’s ruin the friendship”

Okay, isto parece-me ser sobre alguém muito próximo que gosta de charutos. Vamos tentar não saltar para conclusões, sobretudo porque em entrevista para a Noisey, a cantautora refere que Only Forever era para a mesma pessoa.

No, I Can’t Keep Denying Every Minute I think of you”

Pronto, já entendemos que Let’s Ruin The Friendship é sobre NICK DEMI. Não havia necessidade de soletrar e ainda rir no fim do bridge achando-se sorrateira. É brilhante.

Se ditadura houvesse, Demi Lovato seria rainha e senhora dos códigos em linha reta. Óbvio demais, todavia, para que venha a ter repercussões. Em primeira análise, parece uma música escrita sem tender para a realidade, apenas uma ideia pescada para uma letra, que não deixa de ter o seu envolvimento pessoal das três da manhã. Ora… não fosse Only Forever:

“I’ve been thinking ‘bout the FUTURE
And I’ve been thinking ‘bout the NOW
I know we’re gonna be together
I just don’t know how”

Isto já parece mais velado…

Demi Lovato / Nick Jonas

Fonte: Divulgação

Não. É mesmo muito claro. Seja para vender cópias, seja para sair da friendzone, a texana fez tudo o que podia. Sairá também um documentário promovido pela cantora: Simply Complicated17 de Outubro.

Explícitos, explícitos…

Liricamente bem mais afiada do que em Confident, firmando-se na mulher que construiu no disco anterior, poucas são as faixas que não são explícitas ou que deixam passar vulnerabilidade.

Cry Baby passou pela peneira e talvez seja, ironicamente, uma das melhores músicas do disco. Digno de Grammy se pensarmos na sua capacidade de comercialização, bem acima de outras faixas tecnicamente superiores. Hitchiker, por exemplo.

São as músicas com alguma fragilidade que atingem as maiores proporções nos vocais de interpretes de gabarito: de Adele a Marisa Liz, de Kesha a Bethânia, de Beyoncé a Amália… e Demi Lovato não poderia ser diferente. Bastava ouvir Stone Cold  para adivinhar isso.

Ainda assim, é interessante ponderar o à vontade das referências a bebidas alcólicas e tabaco presentes no álbum, sem medo do que elas podem desencadear. Será que Demi já bebe socialmente, como uma pessoa “normal”?

A título pessoal, parece-me ótimo: in vino veritas. Talvez por isso, este trabalho soe mais cru, libidinoso e intoxicado.

Um dos álbuns mais coesos e expressivos de 2017

Demi Lovato já não precisa de gritar a sua emancipação das drogas. Deixou de ter pânico de não ser um exemplo perfeito para os seus fãs e descobriu que não precisava de beltar a cada dez segundos de música.

Acima de tudo, é de relembrar que Demi foi capa de jornal como assunto acabado, automedicou-se, sabotou-se, desrespeitou a ajuda alheia, teve uma fase emo, desenhou umas mandalas nos braços com objectos cortantes… enfim, fez aquilo que as crianças dos anos 90 fizeram, mas com mais dinheiro à disposição. Nestes casos únicos, a maior quantidade de dinheiro aumenta o drama em proporção geométrica.

Mas parece ter finalmente descoberto a pólvora: que passa por entender que ninguém quer saber da pólvora que ela esconde dentro de si, em força, projectada e aleatoriamente dispersa, como um fogo de artifício (já dizia o nosso Salvador que “música não é fogos de artifício”). Já entendemos que há dinamite, mas faz mais sentido usá-la numa munição certeira.

A redenção foi atingida, num álbum para lá do mediano, no soul, no R&B e, apesar de tudo, no Pop. Se não houver Grammys, Lovato pode orgulhar-se de ter feito um dos álbuns mais coesos e expressivos do mainstream em 2017.