Vicente Alves do Ó está a construir uma filmografia que pode ser importante no futuro da educação cultural do nosso país. Com Florbela mostra a magia e o desencanto de uma das mais aclamadas poetisas portuguesas. Com Al Berto desvenda uma luta pela liberdade que não vem escrita nos manuais da escola: a artística e, sobretudo, a pessoal. Se realmente concluir a sua trilogia de poetas com Sophia de Mello Breyner Andresen, estaremos perante uma das mais importantes trindades do cinema português.

No pós-25 de Abril, Al Berto (Ricardo Teixeira) regressa a Sines, sua cidade natal, vindo de Bruxelas. Consigo carrega ideias e ideais que irão virar a pequena vila operária de cabeça para baixo: para o bem e para o mal.

No filme sobre a poetisa de Vila Viçosa, Alves do Ó entregou as rédeas do ecrã a três dos melhores e mais consagrados atores portugueses em actividade: Dalila Carmo, Ivo Canelas e Albano Jerónimo. Aqui decide-se por uma alternativa arriscada, mas polvilhada de sucessos. Formou um grupo de jovens talentosos, predominantemente com experiência em teatro, mas ainda pouco acostumados às lides da ficção nacional, dando-lhes espaço para abrirem as asas e voar. Esta é (mais) uma bela prova de que os bons atores portugueses não são só os que aparecem no pequeno ecrã.

Ricardo Teixeira e José Pimentão são magnéticos, sendo que todo o restante elenco faz um trabalho extremamente sólido, divertido e, quando necessário, emocionante. Aqui e ali surgem os contributos memoráveis de atrizes mais renomeadas, como Manuela Couto, Rute Miranda e Rita Loureiro, colega habitual de Vicente. Não obstante, sendo que a qualidade dos atores e do argumentista não estão em causa, o facto de o diálogo ter sempre um tom mais teatral e menos natural é uma escolha muito distrativa, nomeadamente nos momentos mais emotivos.

À semelhança de Florbela, o realizador passa de quadro em quadro com simplicidade. Desta feita conta com o aclamado Rui Poças (Tabu, O Ornitólogo) na fotografia, o que sem dúvida contribuiu para a atmosfera sonhadora, festiva e jovem que transborda de cada (contra)luz que surge em frame.

E, pela primeira vez num filme de Alves do Ó, o orçamento (ou falta dele) parece ter sido abraçado, nunca tendo surgido como limitação nas duas horas de duração da película. No entanto, algumas cenas surgem em contextos demasiados semelhantes, não acrescentando nem desenvolvendo nada acerca de qualquer personagem. Para além disso, muitas das personagens secundárias deveriam ter tido espaço para um desenvolvimento mais aprofundado: a expansão para o formato mini-série na RTP seria uma boa notícia.

A profundidade do filme centra-se muito no choque de culturas, mentalidades, gerações e, especialmente, estratos sociais. Entre tantos planos memoráveis e cenas com música energética, talvez o melhor de todos seja o choro silencioso de uma personagem que se resigna à sua imutável posição na sociedade.

O 25 de abril marcou o princípio da liberdade, mas não o seu expoente máximo. Esperemos que este filme marque, então, vários inícios: o de carreiras ímpares para cada um dos atores que aqui expuseram os seus talentos e o de um apogeu no trabalho deste realizador que, dentro da sua linguagem muito própria, continua a evoluir a cada projecto.

Que este seja apenas o começo.

7.5/10

Título: Al Berto
Realizador: Vicente Alves do Ó
Argumento: Vicente Alves do Ó
Com: Ricardo Teixeira, José Pimentão, Raquel Rocha Vieira, Gabriela Barros, Duarte Grilo, Ana Vilela da Costa.
Género: Biográfico, Drama.
Duração: 108 minutos.