Enquanto Surma apresentava de forma quase angelical Antwerpen, o seu primeiro disco, no Musicbox, em Lisboa, e agradecia de forma tão genuína e envergonhada, capaz de soltar tímidos sorrisos a quem a ouvia; e no fim do showcase, enquanto largava os braços cheios de vontades para apertar com força os amigos, lembrei-me imediatamente de um texto bonito que li sobre Jornalismo e outras artes.

O texto foi publicado em 1997 pelo Professor António Fidalgo que lhe dedicou um título que roçava a poesia.  A Distância como virtude foi escrito a pensar em todos os futuros jornalistas, mas não só. Dizia o reitor da Universidade da Beira Interior que um bom jornalista devia conseguir distanciar-se daquilo que iria relatar para fazê-lo com a maior das objetividades. Mas depois aparece uma Surma a desmontar toda esta teoria.

antwerpen

É impossível racionalizar, de tal forma, a maneira como escrevemos sobre música, muito menos quando a amabilidade deste disco nos entre casa adentro, num sábado à tarde. Quando ouvirem Antwerpen de uma ponta à outra, perceberão porquê.  Este disco, o primeiro de Surma, será lançado em breve, mas o Espalha-Factos já o abraçou e ouviu vezes sem conta. Agora é guardá-lo na gaveta e ir buscá-lo só no momento certo, para não estragar.

Esta Voyager ao íntimo de Surma não é só um disco de música. Nunca poderia ser só mais um disco de música. Antwerpen partilha com o mundo as raízes e influências musicais de Débora, uma autobiografia musicada que nos induz numa viagem rumo a norte. Entre Lofoten, na Noruega ou Reykjavík, na Islândia, este disco só deveria ser ouvido e celebrado sob um céu verde carregado de auroras boreais.

Comecemos pelo princípio. A viagem inicia-se em Dróg, mas rapidamente segue ainda mais para norte, em Plass. É na Noruega que aterramos e no arquipélago de Lofoten que pousamos a mochila para passar a noite. Segue-se a Suécia com Hemma e um destino tirado à sorte em Kismet.

Depois de Saag e Miratge, vem Voyager, uma canção que faz jus ao título. Nela, conseguimos sentir uma mistura de influência em que Surma samplou Nomathemba dos Ladysmith Black Mambazo, grupo coral sul-africano que cantou com Paul Simon,

Quase a chegar ao fim, tempo ainda para uma curta passagem por Bagrenset e pela melhor música de todo o disco, a par de Voyager, na minha opinião. A eletrónica ternorenta, suave e delicada com uns vocals acrescentados por Rui Gaspar fazem de Nykia um caso sério.

Depois de nove paragens, chega ao fim um álbum cinzento, frio e em catarse mas, paradoxalmente, com tantas emoções vibrantes divididas por dez paragens. É em Uppruni, uma faixa decadente, na Islândia, que Surma se despede.  Depois do sucesso alcançado por Drifter, dos First Breath After Coma, o primeiro disco de Surma vai centrar ainda mais atenções em Leiria e no bom trabalho que a Omnichord Records está a desenvolver por lá.

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Por considerar contraditório estar a atribuir numeração ou qualquer tipo de pontuação à música, sublinho que Antwerpen vence, principalmente, pela verdade audível em cada paragem. Com um bocadinho de Bon Iver e de Sigur Rós à mistura, Surma acelera o ritmo e mistura cordas, com uma mesa a fazer de bateria, com sons de papéis, de garrafas e até de castanholas. Fazer boa música em Leiria parece ser mais fácil.